Um haicai, dois haicais

Noite de outono

Ao filho do vizinho

Cantam parabéns.

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Aqui estou eu, preparando mais uma aula de Literatura Japonesa. É a única aula que, admito, preparo com gosto. Deve ser porque sou uma rata de biblioteca, uma traça de livros, uma nerd assumida.

Na desolação da minha mesa, um zilhão de papéis se acumulam e eu vou flutuando sobre eles, catando uma coisinha ali, uma outra aqui – vasculhando os escritos de Sonia sensei, minha querida professora de Literatura Japonesa. Ela não sabe, mas muito do material que ela guardava na sala dos professores da faculdade está agora em cativeiro aqui na Tijuca.

Eu lembro das aulas dela, lembro do quanto gostava das poesias antigas. Lembro do curso especial sobre haicai. “Qualquer um, seguindo as regras, pode escrever um haicai”, ela nos dizia. Naquele dia – era dia dos namorados, até disso eu me lembro – compusemos vários haicais. O meu foi o seguinte:

Sol de inverno -

No espelho

Um rosto pálido sorri.

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Oh, o spleen.

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Sei lá, mas parece que agora que estou do outro lado da sala, as pessoas estão muito menos interessadas em literatura. De repente sou eu que me empolgo muito; ou eu não sei realmente proporcionar duas horas interessantes no mundo da literatura japonesa. Só sei que eu me divirto sozinha naquela sala.

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