Ela estava acostumada a ser a malvada. A culpa era sempre sua – de tudo e de nada. Pedia desculpas antecipadamente por ter a certeza de que, ao fim, as primeiras palavras que sairiam de seus lábios seriam exatamente essas: me desculpe.
Por hábito, talvez, tornou-se cada vez mais fácil vestir aquela máscara e tornar-se a Malvada, como era esperado que o fizesse. E quando mais uma vez seu coração se quebrava, perguntavam a ela o que havia feito de errado – o que ela havia feito de errado.
Mesmo que ela não houvesse feito absolutamente nada.
A máscara tornava-se mais pesada a cada dia. Seus olhos gritavam, mas de sua garganta não mais saíam os seus pensamentos. Eles se fechavam sobre si mesmos transformando-se em labirintos, caracóis, porcos-espinhos. Ai de quem tentasse tocá-los.
Por muito tempo ela pensou que sua máscara fosse a de um palhaço – aquele que faz os outros rirem para esconder sua sempre presente tristeza. Percebeu por fim que, na verdade, a máscara que a cobria era a de um carrasco.
Que seja, façamos nosso trabalho, então.