Vidraças e vidas de vidro

Malvados. Por André Dahmer, 2014.

Em 2013, eu sentia pena de vidraça. Ficava revoltada vendo ônibus queimando, lixeira depredada, muro pichado. Em 2013, eu ainda fazia parte do grupo que pregava o protesto pacífico.

Tem gente morrendo todo dia. Gente morrendo pelo gatilho racista da polícia, que está aí para servir e proteger à elite. Tem gente preta morrendo todo santo dia – e nos não santos também. Mãe enterrando filho. Pai enterrando filha.

Tem gente morrendo de Covid-19 todo dia. No Brasil então, é um dos lugares onde mais se morre desta bactéria filhadaputa, micróbio do caralho. Sistema de saúde em colapso, profissionais da área cansados, doentes, exaustos.

Tem gente morrendo de fome todo dia. Gente morrendo asfixiada. Gente morrendo pela violência doméstica, porque tem macho que se acha no direito de vida ou morte da mulher. Tem criança sendo espancada, abusada, violada.

Enquanto isso, do alto do meu privilégio, eu tento ajudar como posso. E tento me ajudar como posso. Mantenho-me anestesiada o quanto posso – seja com etílicos, seja com música, seja com qualquer outra arte.

Não temos nenhuma certeza. Na verdade, tudo o que sempre tivemos era a ilusão da certeza. Hoje, nem isso temos.

Mas uma coisa é certa: cansei de sentir pena de vidraça.

Chega de eu-te-amos

Estava tudo bem escrito na minha mente, como sempre.

Eu iria escrever aqui sobre os pensamentos que tem me preenchido as tardes e noites. Iria falar sobre como o confinamento tem sido difícil por expôr feridas mal curadas, finais em aberto, projetos largados no meio do caminho. No meio da loucura da pandemia, todo dia é igual e todo dia é diferente. Ver o noticiário nos causa dor. Dormir é um bálsamo. Acordar, às vezes, uma tortura.

Respira, tenta relaxar, vamos focar no que você consegue controlar? Vamos.

E eu venho aprendendo isso dia a dia.

Então, na minha mente tava tudo bonitinho, escrito de uma forma até poética. Aí tocou esta música no rádio que resumiu bem o que venho sentindo.

Fiquem com a Annie Lennox.

I used to be lunatic from the gracious days
I used to be woebegone and so restless nights
My aching heart would bleed for you to see
Oh but now…
(I don’t find myself bouncing home whistling buttonhole tunes to make me cry)

No more “I love you’s”
The language is leaving me
No more “I love you’s”
Changes are shifting outside the word

(The lover speaks about the monsters)

I used to have demons in my room at night
Desire, despair, desire… SOOO MANY MONSTERS!
Oh but now…
(I don’t find myself bouncing home whistling buttonhole tunes to make me cry)

No more “I love you’s”
The language is leaving me
No more “I love you’s”
The language is leaving me in silence
No more “I love you’s”
Changes are shifting outside the word

(They were being really crazy
They were on the come.
And you know what mummy?
Everybody was being really crazy.
Uh huh. The monsters are crazy.
There are monsters outside.)

No more “I love you’s”
The language is leaving me
No more “I love you’s”
The language is leaving me in silence
No more “I love you’s”
Changes are shifting outside the word
Outside the word

 

 

Malice Mizer – Le Ciel

Tô tentando manter a sanidade da melhor forma que posso e traduzir música às vezes ajuda.

Versão romanizada dessa coisa linda aqui. Tem o vídeo também neste link, mas eu sou mais a versão do álbum.

– – – –

Le Ciel

優しい歌声に導かれて
流れ落ちる真っ白な涙が風に吹かれ時間を刻む

僕を見る汚れを知らない瞳は
果てしなくどこまでも続く大地を映し
小さな指で忘れていた僕の涙の跡をなぞる

君の細く透き通る声が僕を離さない
僕がここに居続けることは出来ないのに

こぼれ落ちる涙はお別れの言葉

何も聞かず ただ僕の胸に手を当て微笑み浮かべ

君の頬に口づけを 僕は君を忘れない
もっと強く抱きしめて僕が空に帰るまで
君の細く透き通る声が僕を離さない
もっと強く抱きしめて僕が消えないように

僕が消えないように

– – – –

O Céu

Guiada por uma gentil voz cantante
Uma lágrima branca cai, soprada pelo vento
E faz o tempo passar

Teus olhos sem pecado me observam
Refletindo a terra que se estende, sem fim
Teus dedos pequenos desenham o caminho de minhas lágrimas esquecidas

Tua voz fina e transparente não me deixa
Mesmo que aqui eu já não possa ficar

A lágrima que cai é a palavra de adeus

Nada me perguntes, apenas encoste tuas mãos em meu peito e me sorria

Um beijo em tua face Não me esquecerei de ti
Abrace-me mais forte, até que eu retorne ao céu
Tua voz fina e transparente não me deixa
Abrace-me mais forte, para que eu não desapareça

Para que eu não desapareça…

Malice Mizer – Syunikiss

Aqui me tens de regresso com mais uma tradução!

Primeiro: o título da música é uma palavra inventada. Nos fóruns das interwebs achei uma possível inspiração para o neologismo e resolvi apostar nisso. Syunikiss pode ser a romanização da frase shu ni kisu主に帰す), que significa “retornar ao Senhor”. Fez todo o sentido para mim.

Segundo: mantive o eu lírico em forma de poesia por causa da visão que a música evoca, mas esta foi uma escolha desta humilde e depreciável tradutora.

Versão romanizada da letra aqui. E para ver o Malice Mizer tocando esta belezura ao vivo, tem este vídeo maravilhoso.

– – – –

Syunikiss ~二度目の哀悼~

Hold on… you’re gonna be okay…
Somebody… Help us…

Ah 君が繰り返す独り言は君の最期に僕が叫んだ言葉
祈りが届いたのか 目の前に記憶のままの君が居る
Ah 君が繰り返す独り言は誰も知るはずもない最期の言葉
駆け寄った僕は君を抱き震える指で頬をなぞる

Ah 僕の願いを叶えてくれた空にやどる主へ
もう一度願いを叶えて 「彼女に心を戻して」

冷たい瞳で空を見つめてる
帰るべき場所を知っているかのように

Ah 僕の願いを叶えてくれた空にやどる主へ
最後の願いを叶えて 「彼女を安らかに眠らせて」

冷たい指で涙の跡をなぞる
震える声で「空に帰して」と繰り返す

– – – –

Retorno ao Senhor ~O segundo luto~

Mantenha-te firme… Tu ficarás bem…
Alguém… Nos ajude…

Ah, as palavras que repetes a ti mesma
São as palavras que chorei em teu último instante

Terá sido ouvida a minha prece? Diante de meus olhos tu estás, como minha lembrança

Ah, as palavras que repetes a ti mesma
São as palavras de teu último instante, que mais ninguém deveria conhecer
Corro ao teu encontro e te abraço
Com meus dedos trêmulos, traço as linhas de teu rosto

Ah, Senhor que concedeu meu desejo e vive no céu
Concedei novamente o meu desejo: devolva a ela sua alma

Com frios olhos, tu admiras o céu
Como se soubesse o lugar para onde deves retornar

Ah, Senhor que concedeu meu desejo e vive no céu
Concedei novamente o meu desejo: fazei com que ela durma em paz

Com dedos frios, eu traço o caminho de tuas lágrimas
Com voz trêmula, repito: retorne aos céus

Malice Mizer – Au Revoir

Tirando muitas teias de aranha desta parte do bloguinho, lá vamos nós para esta delícia musical que é Malice Mizer! Versão romanizada pra cantar junto tá aqui.

Só aproveitar para dar uma explicação sobre o verbo 抱きしめる (dakishimeru): pode significar abraçar ou, ainda, ter relações sexuais com alguém. Porque a gente abraça a pessoa pra consumar o ato, né, então tem tudo a ver. Fui pudica na tradução e optei pela primeira opção, mas o subtexto taí pra isso.

– – – –

いつも二人分の響く足音が続いてた道で
枯れ果ててしまった街路樹達が
大きくなった歩幅を気付かせた

肩にすれ違う小さな落ち葉がまた空に戻って
そんな吹き荒ぶ風さえも今はなぜか愛しくて
そっと微笑んでいた

窓辺にもたれる見なれた姿が
陰る陽射しに映し出されて消える
あふれる想いにつぶやいた言葉は
「せめて夢が覚めるまで...」

もっと
あなたを抱きしめ眠りたい
優しい記憶に変わった今でさえも
この腕で抱きしめ眠りたい
出会った頃のあの日のままの
二人のように

あなたを抱きしめ眠りたい
この腕で抱きしめ眠りたい

– – – –

Adeus

No caminho por onde sempre ecoava o som de nossos passos
As árvores à beira do caminho, já secas,
Fizeram-me perceber a distância que cresceu entre nós

Pequenas folhas secas se esbarram em meus ombros e retornam ao céu
Até mesmo esse vento que assim sopra, não sei porquê, me é tão querido
Eu sorrio, de leve

Tua figura tão familiar, repousada na janela,
Reflete-se sob a luz do sol e desaparece
As palavras murmuradas neste sentimento transbordante:
“Pelo menos, até que eu desperte do sonho…”

Ah, mais!
Quero abraçar-te e adormecer
Mesmo agora, que tu és uma querida lembrança
Quero envolver-te em meus braços e adormecer
Como quando nos encontramos, como naquele dia,
Como éramos então…

Quero abraçar-te e adormecer
Quero envolver-te em meus braços e adormecer

Quem diz ‘o vírus chinês’ merece todo o meu reconhecimento

Compartilho texto de Ricardo Araújo Pereira. Ele é humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento e autor de “Boca do Inferno”. Este texto foi originalmente publicado na Folha de São Paulo do último domingo.

Recomendo tomar uma dose de ironia antes de iniciar a leitura.


 

Se um cidadão italiano contrair coronavírus em Roma, a nacionalidade do vírus se mantém?

As pessoas que fazem questão de se referir ao coronavírus como “o vírus chinês” merecem o meu reconhecimento.

Nutro profunda admiração por quem tem espírito científico e, mais ainda, por todos aqueles em quem o espírito científico surge associado a uma vocação para controlador aduaneiro. Conhecer o vírus do ponto de vista científico é importante, mas dar uma vista de olhos no seu passaporte também dá jeito.

Imagino que essas pessoas, após serem atropeladas, comuniquem ao médico, à chegada ao hospital, a marca do veículo que as atropelou, para que ele saiba se foram vítimas de um atropelamento francês, sueco ou alemão e possa determinar o tratamento adequado.

A identificação da nacionalidade do vírus vem preencher uma lacuna há muito geradora de grande incômodo. Nunca temos a informação sobre o país de que são oriundos os vírus —e, o que também perturba, dos germes em geral.

Não se ouve falar da bactéria húngara, do fungo norueguês ou do protozoário alemão. São sempre bactérias, fungos e protozoários, sem referência à nacionalidade, à filiação e, já agora, a qualquer outro dado da cédula de identidade do germe em causa. Qual é o berço da Aids, da dengue, da micose da unha?

Como é evidente, avanços científicos como a atribuição de nacionalidade a um vírus trazem problemas, que promovem debates muito interessantes.

Por exemplo: se um cidadão italiano contrair, em Roma, o vírus chinês, a nacionalidade do vírus se mantém? Mesmo sofrendo mutações em organismos italianos, não fica ao menos com dupla nacionalidade? Sabendo que o vírus até tem, como aliás todos os outros, um nome latino, nem isso faz dele romano?

O que vale, para agentes infecciosos: o “jus sanguinis” ou o “jus soli”? Uma vez que o “soli” em que o vírus se move é precisamente o “sanguinis” do doente, o assunto adquire uma complexidade inesperada.

Outra questão: sendo todas as outras doenças até hoje apátridas, não será conveniente tratar da emissão de vistos, de agora em diante? Tenho duas ou três borbulhas lusitanas na testa, produto de acne português, que continuam sem documentos. Aguardo indicações.

Com a palavra, Slavoj Žižek

Compartilho texto do filósofo Slavoj Žižek publicado no jornal O Globo de hoje. Para pensar.

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Andre Dahmer, 2020.


 

Slavoj Žižek: pandemia trará socialismo VIP, capitalismo de desastre ou algo novo?

Agora, precisamos fazer o impossível para evitar que o pior aconteça. Mas que ordem mundial surgirá desta pandemia — socialismo para os ricos, ‘capitalismo de desastre’ ou algo completamente novo?

Nos últimos dias eu às vezes me pego desejando ter logo contraído o coronavírus — assim, isso ao menos poria fim a essa incerteza debilitante… Um sinal claro de como minha ansiedade está crescendo é a forma pela qual tenho me relacionado com o sono. Até uma semana atrás, eu aguardava ansiosamente chegar o anoitecer, na esperança de que finalmente poderia escapar para o sono e me esquecer de todos os medos da minha vida cotidiana… Agora, é quase o oposto: estou com medo de dormir porque os pesadelos me assombram em meus sonhos e têm me feito despertar no meio da noite, em pânico — pesadelos sobre a realidade que me aguarda.

Que realidade? Ultimamente temos ouvido bastante que são necessárias transformações sociais radicais se realmente quisermos lidar com as consequências da epidemia em curso (eu mesmo me incluo entre aqueles que estão espalhando esse mantra) — mas talvez já estejam ocorrendo mudanças radicais. Esta pandemia do coronavírus nos confronta com algo que considerávamos impossível: ninguém podia imaginar que algo assim realmente ocorreria em nossas vidas cotidianas — o mundo que até então conhecíamos parou de girar, países inteiros estão em situação de lockdown, muitos de nós estamos confinados aos nossos próprios apartamentos (mas e aqueles que não têm sequer condições de se dar ao luxo dessa precaução mínima de segurança?), diante de um futuro incerto no qual mesmo que muitos de nós sobrevivam, uma mega crise econômica nos aguarda… O que isso significa é que nossa reação a isso também deve ser a de fazer o impossível, isto é, o que parece impossível no interior das coordenadas da ordem mundial existente. O impossível aconteceu, nosso mundo parou, e precisamos fazer o impossível para evitar o pior… (…)

UMA CRISE TRIPLA

Estamos enredados em uma crise tripla. Uma crise médica (a epidemia em si), uma crise econômica (que vai nos acertar em cheio independentemente do desfecho da epidemia) e, por fim, uma crise de saúde mental, que não deve ser subestimada. Afinal, as coordenadas básicas do mundo da vida de milhões e milhões de pessoas estão se desintegrando, e a transformação vai afetar tudo, desde os voos e as férias até os contatos corporais básicos. Precisamos aprender a pensar fora das coordenadas do mercado de ações e do lucro, e simplesmente encontrar outra forma de produzir e alocar os recursos necessários. Por exemplo, se as autoridades descobrirem que uma empresa está sentada em cima de milhões de máscaras, aguardando o momento certo para vendê-las, não deveria haver absolutamente nenhum tipo de negociação com a empresa – as máscaras devem simplesmente ser requisitadas.

Noticiou-se recentemente que Donald Trump teria oferecido US$ 1 bilhão a uma empresa biofarmacêutica alemã sediada em Tübingen, a CureVac, para reservar a vacina contra o novo coronavírus “exclusivamente para os Estados Unidos”.

O ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, garantiu que uma aquisição da CureVac pela gestão Trump estava “fora de cogitação”: a CureVac só desenvolveria a vacina “para o mundo todo, não para países individuais”. Aqui temos um caso exemplar da luta entre civilização e barbárie. Mas o mesmo Trump teve que invocar o Defense Production Act que permitiria que o governo garantisse que o setor privado possa acelerar a produção de suprimentos médicos emergenciais.

Trump anuncia proposta de tomar controle do setor privado. Segundo a Associated Press, o presidente dos EUA afirmou que invocara uma provisão federal permitindo ao governo comandar o setor privado na resposta à pandemia. Trump disse que ele assinaria uma medida dando a si mesmo a autoridade para dirigir a produção industrial doméstica “caso isso seja necessário”.

Quando eu usei a palavra “comunismo” há algumas semanas atrás no contexto da epidemia do coronavírus, fui ridicularizado. Agora, no entanto, “Trump anuncia proposta de tomar controle do setor privado” —alguém poderia imaginar uma manchete dessas mesmo uma semana atrás? E isso é apenas o começo. Muitas outras medidas desse tipo devem se seguir. E mais: será necessário ainda uma auto-organização local das comunidades se o sistema público de saúde estiver demasiadamente sobrecarregado. Não basta apenas isolar-se e sobreviver — para que alguns de nós possam fazer isso, serviços públicos básicos terão que continuar operando: fornecimento de eletricidade, alimentos, medicamentos… (Daqui a pouco precisaremos de uma lista identificando as pessoas que efetivamente se recuperaram e estão, ao menos por enquanto, imunes, para que elas possam ser mobilizados para o trabalho público urgente.) Essa não é uma visão comunista utópica, mas um comunismo imposto pelas necessidade da sobrevivência nua. Trata-se, infelizmente, de uma versão daquilo que em 1918, na União Soviética, denominou-se “comunismo de guerra”.

Como diz o ditado, em uma crise somos todos socialistas. Até mesmo Trump cogita uma forma de Renda Básica Universal: um cheque de US$ 1 mil na mão de cada cidadão adulto. Trilhões serão gastos, violando todas as regras do mercado — mas como, onde e para quem? Será que esse socialismo forçado será um socialismo para os ricos? (Lembremos do resgate dos bancos feito em 2008 enquanto milhões de pessoas comuns perderam suas pequenas economias.) Será que a epidemia vai ser reduzida a outro capítulo da longa e triste história daquilo que Naomi Klein denominou “capitalismo de desastre”, ou será que uma nova ordem mundial (mais modesta, talvez, mas também mais equilibrada) poderá surgir dela?

* Trecho extraído de um livro de intervenção do filósofo Slavoj Žižek sobre a pandemia do coronavírus (Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo.

Com a palavra, Luis Fernando Verissimo

Compartilho aqui a deliciosa entrevista com um dos meus autores favoritos, publicada hoje no jornal O Globo.


 

Verissimo encara a nova era da vida privada

Luis Fernando Verissimo / ESCRITOR

Com bom humor, embora cheio de saudades da neta, autor gaúcho revela suas descobertas no isolamento e reflete sobre estes tempos ‘nada engraçados e pouco poéticos’

RICARDO JAEGER/11-4-2019

Há anos Luis Fernando Verissimo trabalha dentro de sua “toca”, como define, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Portanto, home office não é lá uma novidade para o escritor, que passa a quarentena ao lado da mulher, Lucia, e do filho, Pedro. A mudança, de partir o coração, tem sido ficar longe da neta Lucinda (“só podemos trocar abanos tristes”). Xodó do avô, a menina completa 12 anos em abril, provavelmente ainda no isolamento.

A melancolia, o autor de 83 anos espanta arrumando suas estantes de livros e discos. Alguns fatos, no entanto, têm sido difíceis de digerir. Caso do recente pronunciamento de Jair Bolsonaro (na última terça-feira), que defendeu a volta da normalidade e o recolhimento apenas dos idosos.

— Durante toda a fala do presidente, eu só conseguia pensar uma coisa: emigrar pra onde, meu Deus? — conta o mestre do humor sucinto, que terá uma antologia de crônicas lançada pela editora Objetiva assim que o coronavírus permitir.

Enquanto não criamos outro mundo, o autor de “Comédias da vida privada”, que se define como “antissocial com muitos amigos”, reflete sobre o comportamento humano no recolhimento forçado. Que ele, aliás, cumpre direitinho e não corre o risco de ser multado pela prefeitura de sua cidade, que ameaçou taxar maiores de 60 anos flagrados nas ruas.

Como o senhor está encarando a quarentena?

Fora cinemas e restaurantes, que frequentávamos regularmente, nossa rotina não mudou tanto. E eu sempre fui muito caseiro.Cha toé a separação da família. Nosso filho Pedro está conosco, com o resto só falamos pelo telefone.

Do que mais tem sentido falta no dia a dia?

Da nossa neta Lucinda. Ela mora perto, mas só podemos trocar abanos tristes.

Aos 83 anos, o senhor pertence ao grupo de risco. Teve que adotar cuidados especiais?

Sou cardíaco, diabético e velho. O vírus que me pegar vai ganhar uma Tríplice Corona.

O seu trabalho de escritor já é solitário, mas mudou algo em tempos de recolhimento coletivo? Como conciliar “home” com “office”?

Há anos que eu trabalho em casa, numa “toca” à prova de distrações. Nesse sentido, a rotina também não mudou. No meu caso, a “home” e o “office” são a mesma coisa. Ou a “home” é o “office” com cozinha e cama.

O momento inspira um novo livro ou projeto?

Essa peste não inspira nada, só a escrever incessantemente sobre ela (Verissimo tem escrito artigos no GLOBO sobre o assunto). Não há como ser criativo tratando de um assunto que preferiríamos esquecer, mas não vai embora. O coronavírus nos tornou repetitivos e burros.

Tem se dedicado a algo que antes não tinha tempo?

Estou tentando arrumar meus livros e discos, coisa que não consegui fazer nem quando tinha poucos livros e discos.

O que está lendo?

Entre os livros que comecei a organizar descobri uma revista literária inglesa, que eu nem sabia que tinha, com o roteiro completo do Tom Stoppard para um filme sobre Galileu que nunca foi feito. É claro que interrompi a organização e estou lendo o roteiro.

Com o confinamento, muitas pessoas estão indicando livros aos amigos, lendo mais. Isso pode ter um efeito positivo? Acha que podemos sair melhores dessa?

Acho que, se é possível imaginar um final feliz para este pesadelo, será nosso reencontro com a família, com amigo e com esta coisa maravilhosa cujo valor só agora reconhecemos, a normalidade.

Em algum livro ou distopia, viu cenário parecido com este que a gente está vivendo?

Da antiguidade nos vêm histórias de pestes arrasadoras sem nome, atribuídas à maldade do Diabo ou ao desprazer de Deus. As causas do flagelo eram desconhecidas. A própria descoberta de micróbios é relativamente recente. As pestes passaram a ter culpados, mas não cura, ou não cura completa, e continuam a ameaçar a Humanidade. Agora a ciência sabe tudo sobre epidemias e pandemias, mas não o bastante para impedi-las completamente.

Já viveu momentos piores? Quais?

As bombas atômicas lançadas no Japão inauguraram um mundo em que a capacidade para o terror é latente e sem limites. Nada comparável a pandemias assassinas, a não ser pelo fato de que um é um terror humano, deliberado, e o outro é um terror sem forma ou consciência.

O senhor escreveu “Comédias da vida privada”, e nunca tivemos tanta vida privada como nestes tempos de quarentena. Que cenas consegue imaginar nas casas?

São tempos nada engraçados e pouco poéticos. O que não significa que não tenha gente fazendo humor para esquecer a dor. Gostei da previsão segundo a qual, depois de algumas semanas trancadas em casa com as crianças para escapar do coronavírus, as mães descobrirão uma vacina.

Casamentos sobreviverão?

Sei de casais que estão se conhecendo com o convívio forçado, começando pelo básico: “Como é mesmo seu nome?”.

“Sei de casais que estão se conhecendo com o convívio forçado, começando pelo básico: ‘Como é mesmo seu nome?’”

O que achou do último pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro? Como lidar com as confusões deste governo?

Durante toda a fala do presidente, eu só conseguia pensar uma coisa: emigrar pra onde, meu Deus?

Somos todos Lady Macbeth

Retirado do texto original do Guilherme Balança-lança, também conhecido como William Shakespeare.


lady-macbeth
Lady Macbeth. Por Charles Soubre, 1877.

(Entra Lady Macbeth, com uma vela.)
A CAMAREIRA – Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.
O MÉDICO – Como conseguiu essa luz?
A CAMAREIRA – Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.
O MÉDICO – Como vedes, está com os olhos bem abertos.
A CAMAREIRA – É certo; mas os sentidos estão fechados.
O MÉDICO – Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.
A CAMAREIRA – É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos. Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.
LADY MACBETH – Aqui ainda há uma mancha.
O MEDICO – Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.
LADY MACBETH – Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando. Um dois… Sim, já é tempo de fazê-lo. O inferno é sombrio… Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?
O MÉDICO – Ouvistes o que ela disse?
LADY MACBETH – O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacilação.
O MÉDICO – Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.
A CAMAREIRA – Ela falou o que não devia, tenho certeza. Só Deus sabe o que ela sabe.
LADY MACBETH – Aqui ainda há odor de sangue. Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha. Oh! Oh! Oh!
O MÉDICO – Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.
A CAMAREIRA – Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.
O MÉDICO – Bem, bem, bem.
A CAMAREIRA – Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.
O MÉDICO – Esta doença ultrapassa minha arte. No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.
LADY MACBETH – Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir. Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.
O MÉDICO – Também isso?
LADY MACBETH – Para o leito! Para o leito! Estão batendo no portão. Vinde, vinde! Dai-me a mão. O que está feito não está por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito!

Rio de Janeiro submerso

Chovia, e eu não sabia se era noite ou dia.

No banco de trás do carro, eu podia ver a rua encher. A água da chuva se encontrava com o chorume e o esgoto, que subiam pelos bueiros. Ao redor, ônibus, carros, motos… Todos parados. Não havia para onde fugir.

Não havia como sair da cidade do Rio de Janeiro.

As rádios amadoras tentavam enviar notícias e transmitir recados à população. A Baixada Fluminense há muito havia sucumbido. Os poucos moradores que se arriscaram, chegaram no subúrbio pela linha do trem.

Mas isso foi antes da chuva começar.

No banco da frente, meu tio tentava usar o celular, em vão. Ele esbravejava enquanto fumava o que seu penúltimo cigarro ainda seco.

De onde estava, eu não podia ver o rosto do motorista, mas ele nos avisava a cada detalhe percebido à frente. Olha ali, aquele carro tá com o pneu furado, não vai conseguir passar. Vai passar outro ônibus aqui na paralela e jogar outra onda em cima dos carros, vamos recuar. Aquele grupo ali já era.

Nosso motorista fez como prometido e tentou recuar o máximo que pode naquela rua que era tão larga, mas agora apinhada de automóveis parecia um filete de concreto. O ônibus veio devagar, consciente das pessoas em volta. Mas não teve jeito: a onda foi se formando e crescendo, crescendo, crescendo…

Cobriu primeiro os carros mais próximos.

Alguns que estavam de moto conseguiram dar meia volta e fugir.

A onda crescia, crescia… Eu ouvia os gritos. O choro.

A onda vinha para cima de nós.

E então eu acordei.