Contagem

Às seis da tarde ele volta. Ela prepara o café às 17:45hs. Às 17:00hs o jantar já está pronto, a camisa do dia seguinte passada, as cuecas limpas e dobradas, as meias guardadas na última gaveta. Depois do almoço, o sono sagrado da tarde e sonhos com ele: o que ele quer comer no jantar, o que ele quer amanhã no almoço, onde ele quer ir no fim de semana. Pela manhã, cuida de si: penteia bem os cabelos, faz as unhas toda quinta, arruma o armário, limpa os sapatos e procura um vestido que o agrade. Tudo por ele.

E assim é por vinte anos. Às seis da tarde, quando ele abre o portão, ela já está na porta da casa com um sorriso ensaiado nos lábios e um beijo tímido como presente. Ele entra, senta-se na cadeira grande e vermelha, ela se abaixa e lhe tira os sapatos.

Num domingo como outro qualquer, voltando da casa da sogra e repassando o almoço, a sobremesa, a conversa das cunhadas casadas e o falatório sobre aquele primo que não presta – aquele menino é o desgosto da família, a sogra lhe dizia entre uma mordida e outra de vitela – dentre todos aqueles assuntos, o que mais lhe incomodava era saber como a sogra conseguia fazer a mesma sobremesa durante anos e nunca errar a mão.

Vivia para a casa e para o marido: o que fazia por si, era sempre pensando nele.

Então, num Ano-Novo na casa da sogra, apareceu o primo. Aquele que era o desgosto da família.

Ela sentiu como se o conhecesse de algum lugar, mas não poderia se lembrar de onde. Só pode ser do casamento, pensou. Todos haviam sido convidados, até mesmo os parentes mais distantes. Ele estava lá, sem dúvida.

Trinta minutos antes de meia-noite eles trocaram olhares na sala de estar. O primo tinha um ar amigável, quase inofensivo; como pode ser que ele seja assim, tão cafajeste como dizem, ela pensou. As cunhadas só poderiam sentir despeito, já que o primo era muito mais bonito. Seu copo de sangria havia acabado, levantou-se para ir à cozinha. O marido jogava buraco com os tios e o pai, na varanda.

A sobrinha roubava rabanadas da geladeira, e não a viu quando entrou e encheu o copo até a borda. Bebeu tudo ali mesmo, com os olhos fechados. Percebeu que alguém a observava quando encheu o segundo copo.

_ Vai devagar, isso não é suco.

_ Estou acostumada com sangria.

_ É o que todas dizem.

Era o primo. Ele sorria, e seus olhos verdes ficavam ainda menores quando o fazia. Os cabelos eram um pouco grandes, mas não tanto que a incomodassem. E ele parecia ser tão mais alto que o Tales…

_ Tu é a esposa do Tales.

_ E você é o primo.

_ Tem muitos primos na família – ele riu. – Elas é que só me chamam de primo.

_ As irmãs do Tales?

_ Não acredite em tudo que aquelas dizem. Não desdenho a fama, só a fonte.

Não entendeu muito bem aquelas palavras. O primo encheu seu copo de sangria novamente: ela nem percebera que o havia esvaziado.

_ Vem, tu tem que ver os fogos daqui. Dá pra ver toda a praia iluminada.

Dez minutos, e todos foram para a varanda. Tales estava muito bêbado e nervoso com o jogo. Quase saiu briga, e lá estava o primo pra resolver tudo. Reparou nas cunhadas cochichando um pouco mais atrás: tu não achas que ele engordou? Acho que essa camisa ficou estranha. Ele estava mais bem cuidado da última vez. Lembras daquela namorada que ele trouxe? Era uma vagabunda!, elas diziam.

Cinco minutos. As crianças dormiam no sofá, um amontoado de anjinhos gordos vestindo batas sujas de comida e refrigerante. O ventilador parecia esquentar os ares e a cerveja não era suficiente. Um dos tios reclamou, e alguém foi buscar mais duas garrafas na cozinha.

Ela procurou por seu copo de sangria, e não o viu em lugar algum. Resolveu buscar outro rapidamente: ele sempre fazia questão de que ela estivesse ao seu lado à meia-noite.

Assim é por vinte anos.

Foi até a cozinha, alcançou o copo mais próximo e abriu a geladeira. A família gritou na varanda: alguém na vizinhança havia estourado um dos fogos antes do tempo. O cachorro pequinês de uma das cunhadas gania feito louco no quintal.  Sua mão vacilou com o barulho dos fogos, e o primo segurou a garrafa.

Sentiu quando o hálito doce tocou sua nuca molhada de suor. Sentiu quando ele sussurrou alguma coisa para ela, mas não sabia o que era, só sabia que era verdade, e que era tão verdadeiro que doía, e relaxou o corpo, deixando-se cair. Ele a segurou nos braços, e quando todos faziam a contagem regressiva, os dois se abraçavam na cozinha e trocavam o primeiro beijo.

E assim é por dois meses.

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Autor: Lis

A wicked witch.

3 comentários em “Contagem”

  1. Nossa, lendo agora o que eu escrevi antes, ficou cheio de duplo sentido.
    Eu te adoro, mas de uma maneira perfeitamente heterosexual, vou frisar aqui.
    (E CARACA, O JOVEM NERD LEU SEU EMAIL!!!)

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