No 15o. andar

_ Ah, por favor, pára com essa ladainha.

_ Estou tentando pensar aqui… Pensar num jeito de te livrar dessa auto-piedade maldita, essa coisa horrível de sentir pena de si mesmo. Dizer que o mundo não é justo não vai torná-lo um lugar melhor; só faz de você um “desperto”.

_ Eu não pedi pra que fosse acordada…

_ Eu sei, eu sei; mas agora não tem volta. Não adianta querer dormir de novo. Eu sei que era muito melhor enquanto dormíamos, mas agora só vamos ter pesadelos.

_ Ok. Vamos supôr que você esteja certo, que não há mais volta. O que eu faço com todos os anos da minha história?

_ Coloque tudo dentro de um baú e o arremesse no rio mais próximo. Ele vai ficar encalhado com o resto de lixo que jogamos pelo ralo, mas é melhor assim do que carregá-lo por aí todo dia, você não acha?

_ Eu acho que você é um idiota; que só está aqui para me confundir, e me fazer pensar que eu devo colocar todos os meus sentimentos ruins nesse tal baú ao invés de me jogar desta janela.

_ Você pode estar certa, garota. Há uma grande chance de que seja isso mesmo. Mas pense um pouco no seguinte: você acha que amanhã os pássaros não vão mais cantar? Que o sol não vai mais brilhar? Ou que a terra não vai girar, só porque você resolveu se jogar desta janela, de frente pra uma das vistas mais bonitas do mundo? Não: o mundo vai continuar a mesma merda de sempre. Coisas boas vão acontecer, e coisas ruins também; tudo vai continuar como sempre foi, e você… Você vai ser uma lembrança para aqueles que te amam, uma ficha policial na minha mesa e uma notícia de cinco linhas ou menos no jornal.

_ … Você não entende, não é? Eu não quero que tudo pare e que eu seja o centro das atenções: eu só quero poder viver, fazer o que gosto, o que todo mundo quer!

_ Então, você não quer se jogar daí… Olha, vamos fazer um trato: aqui na esquina tem um bar – um boteco; a gente vai até lá, eu te pago uma bebida e vamos ver se você se sente melhor.

_ … Não sei.

_ Olha, garota… Eu não mordo. Você pode ficar com a minha identificação se isso ajudar. Qualquer coisa, grita que está sendo seqüestrada, violentada, o que quiser. Vamos até lá, e eu tenho certeza que quando você tomar o primeiro gole de cerveja, vai perceber que não deve ser tão ruim assim viver nessa merda de mundo.

_ Eu não bebo cerveja.

_ … Tá, então você escolhe uma outra bebida. Que tal?

_ … Tá bom. Acho que eu posso tentar.

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Autor: Lis

A wicked witch.

Uma consideração sobre “No 15o. andar”

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