Últimos momentos – parte 2

Durante o que parecia ser uma eternidade ele caminhou atrás dela. Podia ver apenas sua silhueta, e todo o resto era apenas nevoeiro. O cheiro do cigarro começou a incomodá-lo.

“É estranho”, ele disse.

“O que é estranho?”

“Eu sei que você está só fingindo, mas mesmo assim consigo sentir o cheiro do cigarro.”

“Eu já disse: é só você fingir que ainda não morreu. Eu estou me esforçando para fingir que este não é o meu último cigarro.”

Segundos intermináveis se passaram, até que ela se virou e perguntou:

“Por que você se jogou?”

A pergunta era oportuna, até mesmo esperada; ainda assim, ele não sabia muito bem como responder. Ela pareceu não se importar com a falta de resposta e continuou:

“Quer dizer, se a festa estava chata, você poderia ter saído pela porta.”

“Muito engraçado”, ele continuou caminhando.

“Eu sempre achei um pensamento muito estúpido querer tirar a própria vida. Você poderia ter aproveitado a festa; não só aquela, mas todas as outras. Você poderia ter morrido de várias outras formas: com uma picada de cobra durante uma viagem ao Amazonas; afogado num tsunami; com uma bala no meio das costas, fugindo de um assaltante; ou queimado durante um ritual satânico, sei lá…”

Ele parou por um instante e olhou para ela.

“Você tem uma imaginação bastante fértil, não?”

A garota sorriu. O cigarro havia se apagado de novo.

“O que eu quero dizer é que você poderia ter vivido. Só isso. Claro que teria sido muito mais fácil se ela não tivesse aparecido na festa.”

“Ela?”

A garota acendeu novamente o cigarro, já pela metade.

“A culpada por todos os seus sofrimentos. Aquela que nunca te olhou, mas que sempre se ofereceu para você. A maldita vagabunda que se esfregava em todos ali, como se não bastasse ser tão óbvia, tão fácil.”

“… De quem você está falando?”

“Da Morte. Ela estava lá, e ficou do seu lado durante toda a festa.”

A névoa parecia estar se dissipando aos poucos. A luz começou a diminuir, como se estivesse anoitecendo.

“Eu não entendo.”

“Não pensei que entenderia. Venha, nós temos que sair desse maldito nevoeiro.”

Anúncios

Autor: Lis

A wicked witch.

4 comentários em “Últimos momentos – parte 2”

  1. …você vai ter que dar uma desculpa muito boa pra ela saber o que sabe e ter morrido como morreu… mas por outro lado, “ela estava mentindo” é sempre uma desculpa muito boa…

    …keep up the good work. : ]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s