Últimos momentos – parte 6

“O que você está fazendo?”, perguntou o rapaz.

_ Não é óbvio? – ela sorriu. – Estou no meio de uma competição e, como sempre, perdi.

“Desculpe.”

_ Não precisa se desculpar: eu não jogava para vencer. Mesmo assim, há sempre algo que se ganha.

A mulher sentou-se próximo ao coelho, e este subiu em seu colo. Ela começou a acariciar-lhe; a cada toque, tufos brancos de pelo caíam pelo chão.

Em poucos segundos, tudo o que restava era o cadáver de um coelho.

_ Você precisa descer, Alef. Precisa vir comigo até a entrada.

“Como ela sabe seu nome?”, Dionísio sussurrou.

“E ela não parece poder ouvir ou ver vocês…”

“Eu vou com ela, que se dane”, Neith se levantou. “Isso aqui está muito monótono, mesmo.”

“Mas… você não acha perigoso?”, continuou Dionísio.

“E o que vou fazer? Sentar aqui e esperar a morte chegar?”

A mulher sorriu com escárnio para o rapaz, mostrando seus dentes podres.

_ Você não precisa esperar, garoto.

“Não sei…”, ele se virou para Neith. “Acho que deveríamos pensar mais um pouco sobre o que fazer.”

_ Com quem você acha que está falando? – a mulher pegou seu cajado que estava caído no chão.

“Como assim ‘com quem’?”, Alef olhou para Neith e Dionísio. “Você não pode vê-los?”

Debaixo do capuz, dois grandes olhos negros brilharam à luz tênue da lua. Eles pareciam sugar seu espírito enquanto o observavam.

_ Tudo o que vejo é uma alma confusa e solitária. Uma alma que não sabe como chegou aqui, e nem mesmo se realmente queria vir. Vejo uma alma como todas as outras.

“Essa mulher é louca”, Neith acendeu um cigarro.

“E se ela só estiver fingindo que não pode nos ouvir?”, disse Dionísio.

Alef estava confuso. A mulher debaixo do capuz continuou a falar.

_ Você tentou de várias formas se convencer que não precisava vir para cá. Tentou fazer de sua vida algo… útil, como gostam de dizer; depois, tentou a partir do vazio tirar algum significado para estar respirando. “Não pode ser só isso”, você disse uma vez, muito bêbado em frente a um espelho.

“Não pode ser só isso…”, Alef repetiu.

_ Nas primeiras vezes em que nos encontramos, você estava sempre ocupado demais para enxergar a verdade. E a verdade, rapaz, é que não há nada além disso. Nada além dela mesma: a pura e inexorável verdade.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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