Os fantasmas e o poeta

Os fantasmas em volta de sua cabeça o instigavam a tomar papel, tinta e pena, e enfim livrar-se das dores da noite.

_ Vai – dizia o louco. – Escreve sobre a doce e fria pele de tua amada. Aquela que, em sua cama, ainda deitada, suspira sem saber pelo teu nome.

_ Não, beba! Do vinho tome – o ébrio lhe dizia. – Pois nas quentes noites ele é teu guia, e nas frias manhãs é o teu alvorecer. Tenha o beijo amargo das uvas nos teus lábios, e que as gotas ácidas molhem sempre a tua pena!

_ Olha a tua volta, meu amigo – apesar de fogo fátuo, parecia este ter os dois pés firmes no chão. – Não vês a penúria daquele cego, e o sujo coração do taberneiro? Escreve o que há, e não o que haveria; descreve o teu irmão com a tua poesia.

E ele, solitário e ainda tão ferozmente acompanhado, segura entre as mãos sua pesada cabeça – desolado, não sabe o que escrever. Não sabe nem ao menos se terá o infortúnio de nesta noite morrer!

_ Escrevo a mim mesmo, então – disse a si mesmo e ao cálice de vinho em sua mão. – Ao meu espírito que ainda em mim perdura; aos meus pecados, a todos eles; e à face úmida da noite, companheira eterna e dura.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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