Clarisse

Encontro Clarisse uma vez por mês.
Ela chega tal qual um furacão, carregando para longe o que eu havia demorado tanto para construir. Nada importa: nem as cercas brancas ao redor do meu idílico paraíso de sobriedade e ternura, nem as margaridas sorrindo no parapeito da janela; nem o cheiro bom do café ao fim da tarde, ou o suspiro após um dia de trabalho bem feito. Tudo se vai.
Nada se mantém ao olhar de Clarisse.
Na verdade, eu já a conhecia a mais tempo do que realmente me lembrava. Ela me fez rever fotos antigas, guardadas em álbuns na memória de noites insones. Fotos de que não me lembrava, com gente que não se lembrava de mim.
_ Ah, mas eles se lembram de mim – dizia Clarisse, triunfante.
Percebi o padrão de suas visitas numa tarde de domingo: eu sempre me sentia um lixo, e logo ouvia seus passos no corredor. O andar firme, a mão girando a maçaneta. A porta sempre estava aberta; às vezes, encostada. Era inconsciente. Eu sabia que, na noite passada, algumas lágrimas tinham borrado minha maquiagem de mulher independente e resoluta.
_ Não. Hoje não – eu me repetia, olhando no fundo dos meus olhos no espelho. – Hoje não.
Mas aí Clarisse vinha de manhã. Abraçava-me e murmurava em meu ouvido:
_ Você realmente achou que eu não vinha?

_ O que vai querer pro café?
_ Não estou com fome.
_ Mas tem que comer. Hoje é domingo. Vai ficar deitada nessa cama o dia inteiro?
_ E se eu quiser? É domingo, um dia perfeito pra fazer isso.
_ Você só pode estar de sacanagem.
_ O que eu poderia fazer hoje?
_ Sair. Ver gente. Ser vista.
_ … Não quero que me vejam.
_ Ah, o drama de novo…
_ Não é drama. Você veio aqui mês passado. Você viu como estava o meu rosto.
_ Você sempre tem uma desculpa. O que é, você acha por acaso que mais ninguém tem espinhas, uns quilinhos a mais, muito mês no fim do salário? Só você sofre?
_ Eu nunca disse isso. Só disse que não estou com fome.

E ficamos assim neste jogo de xadrez desarranjado – eu sempre começo já sem a rainha – por uns bons dois dias. Quase digo aleluia quando o despertador toca, intimando-me a mais um dia de trabalho. Tento manter Clarisse trancada em casa.
Sei que ela irá embora depois que eu adormecer. Sei que, no dia seguinte, sentirei ainda o calor de seu corpo a meu lado na cama, e o quase toque de sua respiração em minha nuca.
Também sei que não sentirei saudades. Ela virá no próximo mês e eu me sentirei horrível, como sempre.
Então, enquanto Clarisse não vem, eu vou vivendo.

PS: Clarisse se foi e resolveu esconder minha criatividade em alguma caixa, a qual não encontro. Infelizmente o texto vai ficar assim, meio à deriva. Tudo culpa daquela danada.
Mês que vem ela me paga.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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