A escolha de João

João está preocupado. Olhou no calendário, fez as contas, refez as contas mais de dez vezes. Está atrasado.

Ligou para a namorada, Maria. “Lembra aquele dia aí na sua casa?”, “Que dia?”, “Como assim ‘que dia’, o dia que a gente transou e a camisinha estourou”, “Putz, lembro sim…”

Silêncio.

“Você quer que eu vá ao médico com você?”, Maria diz, compreensiva.

“Não, beleza. Eu vou sozinho, depois do exame a gente conversa.”

João vai ao médico. Exame de sangue no dia seguinte. Resultado em cinco dias.

Deu positivo.

Conversou com Maria. Nunca passaram tanto tempo se olhando nos olhos como naquele momento. Era sua primeira namorada. Os dois estavam no segundo ano de faculdade. Ele, 20 anos; ela, 19. Pensou em todos os sonhos e planos que tinha para o futuro: já quis ser bombeiro, jogador de futebol, médico… Há duas semanas, fizera prova para tentar bolsa de estudos fora do país. Ainda morava com os pais, não tinha emprego.

Maria também tinha seus planos. No momento, ajudava o pai no escritório de advocacia de vez em quando, digitando documentos, atendendo telefones… Mas não era um emprego. Ainda precisava concluir a faculdade, especializar-se, quem sabe um mestrado fora do país também, ou do estado.

“E se essa não for a pessoa certa pra mim?”, os dois pensavam às vezes.

Desde que começaram a vida sexual, tinham tomado todas as precauções.

“A decisão é sua”, Maria disse. “Afinal, quem está gerando essa vida é você.”

“Meu filho, você é quem sabe”, respondeu o pai assim que lhe contou. “Quando eu fiquei grávido, seu avô se opôs porque eu era muito novo; mas sua avó apoiou a nossa decisão. Sua mãe ficou do meu lado e, sem ela, não sei se teria conseguido. Foi difícil no início e eu tive que abrir mão de muita coisa, mas não me arrependo da escolha que fiz.”

Depois de uma semana pensando, ponderando todos os prós e contras, João resolveu: iria fazer um aborto. Conversou com Maria e expôs seus argumentos: não se sentia pronto, ainda era muito novo (e ela também); não tinham como sustentar nem a si próprios, muito menos a uma criança; os dois tinham planos para o futuro nos quais tão cedo não havia essa perspectiva; além disso, com apenas alguns meses de namoro, será que conseguiriam criar um elo tão profundo? Afinal, seria para a vida toda…

Maria entendeu e concordou.

João foi ao médico, acompanhado pelo pai. Fez-se a ultrassonografia, para verificar tempo de gestação. Agendaram o aborto. O procedimento em si seria simples, pois era uma gestação de apenas duas semanas. Seria admitido no hospital pela manhã, operaria à tarde e ficaria em observação por 48 horas. Também haveria disponível atendimento psicológico – tudo com assistência do Sistema de Saúde Público.

João não teve complicações durante o procedimento. O pós-operatório correu normalmente. Teve um pequeno período de resguardo e consultou o psicólogo algumas vezes.

João hoje tem 40 anos e teve duas meninas com sua esposa Ana, muitos anos depois de terminar a faculdade – e o namoro com Maria.

Esta poderia ser uma história real se biologicamente homens fossem capazes de gerar vida. Provavelmente, nesse universo, a legalização do aborto já seria uma realidade há muito tempo.

Sou a favor da descriminalização do aborto porque acredito que devemos ter o direito de escolha. Assim, a mulher tem a opção de gerar o filho se assim o quiser, ou interromper a gestação – seja por motivos de saúde, planejamento familiar, estupro, o que seja. Quantas mulheres morrem no Brasil atualmente por recorrerem à clínicas clandestinas? Pensemos nessa questão.

Espero que um dia possamos ter o poder de escolha.

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#prochoice

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Autor: Lis

A wicked witch.

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