O ano dos guerreiros, por Lya Luft

A tia Lya hoje apareceu pra mim na sala de espera da fisioterapia. Esse texto caiu nas minhas mãos assim, de repente, despretensioso e sorrateiro. Ganhou um cantinho aqui dentro e gostaria de compartilhar com vocês.

O ano dos guerreiros

– publicado na Revista Veja em 07 de Janeiro de 2015

Lya LuftLya Luft

Bem complicado começa este ano de 2015. Desejo a todos os meus amigos bons amores, belos projetos, algumas realizações e a esperança à mão, sempre. Sem ela não vivemos, sem ela murchamos, não existimos sem acreditar que coisas boas vão acontecer.
Amigos queridos ficam doentes, pessoas amadas se vão, para muitos o emprego também, nestes tempos de crise tão séria. O amor se perdeu para alguns, traição ou simplesmente desencanto e tédio. Família complicada, e qual delas não tem seus dramas ou dilemas? Mesmo assim, é o chão sobre o qual aprendemos a caminhar, nela se desenha o perfil que buscaremos realizar em nós pelo resto da vida… grave o papel desse grupo, às vezes uma pessoa só, que chamamos “nossa família”: aqueles de quem sabemos – ou de quem esperamos – que, mesmo quando não nos entendem, nos respeitam e nos amam. E assim a gente segue avançando, às vezes com algumas paradas à beira do poço da depressão, tão perigoso: se nos engole, pode não nos devolver mais. E depressão, como neurose, paralisa e emburrece. É péssima conselheira. Não leva a nada, não adianta nada. O jeito é enxotá-la para longe, fazer terapia, respirar fundo, caminhar ao sol, escolher o lado ensolarado da rua da vida, segurando na mão às vezes cansada ou trêmula a bandeira do otimismo. Não delirante, não cor-de-rosa, não ingênuo, mas otimismo de guerreiros, que é o essencial. A gente vive na guerra cotidiana de não apenas sobreviver, mas viver se respeitando, pois só assim respeitaremos os outros.
A vida é para ser vivida, e mais que isso, para ser administrada, para ser domada, com nossas escolhas. Sinto muito: não somos sempre, nem mesmo em geral, vítimas de fatalidades. Às vezes somos, sim. A filha jovenzinha de conhecidos meus foi assaltada, 3 da tarde, entregou bolsa e carro, mas, quando se afastava, o bandido, drogado ou simplesmente perverso, deu-lhe um tiro nas costas. A menina ficou paraplégica. O animal que a trucidou saiu andando, não foi apanhado, deve estar se refocilando no seu mundo diabólico ou sua nuvem de drogas. Isso é fatalidade.
Mas, na grande maioria das vezes, a gente escolhe: de um lado é bom não sermos meros títeres de deuses caprichosos; de outro lado complica, pois somos – ai de nós – responsáveis. Sair da infância, emergir da adolescência, significa muita coisa boa, um toque de liberdade e independência cada vez maior, mas com ele chega essa inefugível senhora Responsabilidade. Escolho o bem, o mal, o torto, o reto? Quem me dirá o que é errado ou certo? Que modelos tenho para seguir, que afetos me fizeram mais seguro ou mais débil, que circunstâncias neste mundo, nesta cidade, neste grupo, nesta família que não escolhi antes de nascer?
Não sou de contabilizar e fazer listas de decisões “para o próximo ano”, pois não acredito nelas. Vou casar, vou separar, vou ter filho, vou emagrecer, vou pedir demissão, vou fazer faculdade, ou aquela ilusão do “vou fazer lipo, o lifting, assim fico feliz, assim vão me amar mais”… Listas pouco produtivas. A escolha melhor é a do momento, qualquer dia do ano: vou parar de beber, e apartir de agora nem uma gota. Grupo de Alcoólicos Anônimos, terapia, seja o que for, a base de tudo será a força de vontade, que assusta e faz querer sair correndo. Vou parar de fumar, aquele de uma hora atrás foi o derradeiro. A grande maioria não consegue. Alguns tentam várias vezes. Um ou outro, enfim, fica firme, e começa a contagem positiva: faz um ano, faz cinco anos, faz dez anos que não bebo, não fumo, não uso drogas.
Guerreiros somos todos nós, também os que simplesmente vivem seu cotidiano sem tragédias. Temos de ser guerreiros para conquistar, cultivar, preservar amores, amizades, trabalho, autoestima, visão de mundo – porque isso também faz parte: uma filosofia de vida, que significa valores. Que valores eu tenho? Boa pergunta para a virada de ano: o que, para mim, é de verdade importante, positivo, bom, o que me faz bem e me ajuda a fazer bem aos outros? Pergunta – e resposta – de guerreiro.
E que a esperança esteja sempre ao alcance da mão.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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