Cena do cotidiano

Ontem eu vi um homem conversando com seus demônios. Ele caminhava diletante – ora pela rua, ora pela calçada – gesticulando muito, a voz embargada em cachaça barata. Manteve-se afastado das outras pessoas de uma forma quase consciente, como se estivesse, na verdade, nos protegendo dos demônios insaciáveis por uma boa briga.

Se tem uma coisa que diabinhos adoram é brigar.

O homem atravessou a rua em zigue-zague. Em frente à tabacaria da esquina, encontrou um pedaço de madeira, como um cabo de vassoura. Virou-se em direção ao trânsito preguiçoso da tarde em desafio aos carros, as mãos experimentando a arma improvisada. Não tinha como não lembrar de Don Quixote e os moinhos de vento. Ele levantou o pedaço de madeira, gritou, esbravejou. Carros desviavam, duas estudantes que passavam à pé riam.

Depois, como se uma fada lhe soprasse uma oração ao ouvido, sua fúria diminuiu. O homem seguiu trôpego em direção à rua do rio, apoiando o corpo nas grades de proteção de um prédio próximo.

Os demônios tinham finalmente adormecido.

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