Conversas

Duas mulheres conversam.

A mais velha, acometida por uma doença, encontra-se convalescente e anseia por retomar sua rotina. Nunca lhe foi tão penosa a falta do trabalho – não só financeira mas também psicologicamente. Suas crises de tensão pré-menstrual transformaram-se em uma entidade própria, que a visita em intervalos agora não tão regulares. Dependendo do mês, parece até mesmo que mudou-se em definitivo para dentro da casa. Ela quer sentir-se útil, ativa, saudável novamente.

A mais nova, acometida por uma desilusão amorosa, encontra-se convalescente mas propensa a recaídas. A montanha-russa de emoções é seu veículo constante: uma hora sente-se muito bem, segura de si, um mundo de possibilidades a seus pés; outra hora sente-se fraca, a cicatriz recente no coração parece querer se rasgar. É difícil abrir-se e contar mesmo aos mais íntimos sobre seus pensamentos, medos, anseios. Ela quer sentir-se plena, confiante, feliz novamente.

O que há em comum?
As duas estão acima do peso. Pelos mais diversos motivos. Genéticos, principalmente: os biotipos não são propensos à magreza. As duas cresceram ouvindo que mulher bonita é mulher magra, jovem, cabelo liso. Mulher tem que se cuidar, se não ninguém quer. Mulher tem que se dar o valor. Não pode usar qualquer roupa. Sem maquiagem, nem pensar. Também não pode pintar a cara igual a uma palhaça. Tem que ser magra com corpão: bundão, peitão, coxa malhada.

O que há de diferente?
A mais velha começou a tentar se ver com mais amor e menos cobrança. Está aprendendo a se amar vestindo qualquer tamanho de roupa, desassociar a imagem de magreza à beleza. Não, não tem que ser magro pra se amar. Eu posso deixar de pintar o cabelo a hora que eu quiser. E daí se tenho cabelos brancos? O cabelo é meu e eu faço o que quiser com ele, inclusive deixar de alisar. Tenho que cuidar da minha saúde, sim: física, psicológica, amorosa… Isso nada tem a ver com magreza ou cabelo liso. Uso maquiagem quando estou com vontade. Uso a roupa que eu quiser, a que me faz feliz. Quem dita as regras do meu corpo sou eu, e não uma revista qualquer escrita por outra pessoa. O valor que eu me dou é o meu amor: eu valorizo a minha pessoa por inteiro, com a minha ética, retidão e empatia. A perda de peso será decorrência das mudanças para uma alimentação mais saudável e uma vida menos sedentária – será o resultado, mas não o objetivo. O objetivo é se amar, de qualquer forma.

A mais nova ainda não chegou a esse ponto do caminho: está ainda lambendo as feridas, aprendendo a cuidar do coração. É um eterno aprendizado, na verdade: eu acerto aqui, mas posso errar lá. Não posso ficar parada, remoendo o que se foi. Vou tentar guardar as lembranças boas em uma caixinha e mais tarde, quando quiser, vou revê-las com carinho. Agora é hora de limpar o terreno para o novo que virá. E preciso emagrecer, malhar, me sentir melhor.

Nessa estrada cheia de curvas, a gente nunca sabe qual é a melhor direção a seguir. E o caminho que uma escolheu pode não ser o que é melhor para a outra. O que podemos fazer, de vez em quando, é colocar umas placas pelo caminho e torcer para que quem vem depois consiga enxergar.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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