Eu sou flicts (?)

Uma das melhores coisas que adquiri com as minhas leituras sobre feminismo, empoderamento e representatividade é o hábito de manter a mente aberta e tentar ver o mundo sob uma nova perspectiva. Isso é bastante difícil até pra mim, que sempre segui por um viés libertário e tranquilo – uma mistura de “faze o que tu queres, pois é tudo da lei” e “a pessoa pode ser tudo, só não pode ser chata”.

Há alguns anos, tirei uma nova carteira de identidade. A antiga tinha vencido (tirada na Aeronáutica, quando eu era dependente de mamãe ainda) e já não me servia também pela assinatura e foto diferentes das atuais. Na fila de espera para entregar os documentos necessários, fiquei analisando a identidade antiga e reparei em uma coisa: nela consta o item cor, e fui descrita como branca.

Branca, eu? Nunca me considerei branca. Mas também, nunca me vi como negra. É tanta mistura de ascendências que eu sinceramente não sei em qual gavetinha me guardar. Negro, índio, português – tudo isso eu tenho. Então, como vou me classificar?

No Brasil, nossa ascendência não tem lá tanto peso quanto a cor da pele em si. Conheço gente engajadíssima no movimento negro e que ouve dos outros “ah, mas você nem é tão negra!” e percebo o quanto é trabalhoso para quem se identifica com a cultura negra ter que desconstruir essa imagem. Desconstruir todo dia os estigmas de moreno, mulatinho, escurinho, esses eufemismos.

O meu contato com estrangeiros me trouxe várias visões diferentes. Para uma parte, eu sou negra; para outra, eu sou latina. Bem, pode-se ser as duas coisas ao mesmo tempo, não? Até parece que na América Latina não há negros. Já me perguntaram se eu era egípcia e eu fiquei muito tentada a dizer que sim, mas sorri e disse que era brasileira. Lembro que o rapaz me disse: ah, a beleza da humanidade está na miscigenação 😉

(Ok, foi uma ótima cantada. Mas isso é outra história…)

A questão é que, pelo que eu me lembre, nunca precisei me encaixar em alguma etnia. Os episódios de discriminação pelos quais passei foram por ser brasileira – ou melhor, por não ser descendente de japoneses – ou por ser gorda. Nunca me seguiram no shopping achando que eu fosse roubar alguma coisa. Nunca me impediram de entrar em algum lugar pela minha cor de pele.

De uns tempos para cá, lendo tantos textos interessantes e relatos dolorosos sobre vários tipos de discriminação, percebi que não consigo me definir em branca ou negra.

Definição de raça, por Hédio Silva Jr (2002, p.14):

Raça, uma categoria da biologia, designa um conjunto de aspectos bio-fisiológicos cambiantes, que diferenciam elementos da mesma espécie. Por exemplo, na espécie dos felinos ou dos caninos, temos as raças de gatos ou cães com aspectos bio-fisiologicamente variáveis, porém, isolados nas suas raças e reciprocamente hostis em ambientes comuns.

Desde os anos de 50, após estudos realizados pela Organização das Nações Unidas, num empreendimento mundial desenvolvido por geneticistas, antropólogos, cientistas sociais, biológicos e biofisiologistas, o termo raça é considerado, ao menos sob o prisma científico, inaplicável a seres humanos. A conclusão destes estudos é de que os seres humanos formam um continuum de variações da aparência, no interior da mesma espécie, sem que estas variações afetem a possibilidade de convivência e reprodução de outros seres humanos.

Definição de raça, por Fabiano Augusto Martins Silveira (2007, p. 88):

(…) a partícula raça  cumpre a função de detectar os grupos aos quais se aplicam os conectores preconceito e discriminação. Tem-se, com efeito, “preconceito de raça” e “discriminação de raça”. Vale dizer, preconceito e discriminação que recaem sobre determinadas parcelas pelo fato de serem apontadas como racialmente inferiores (ou simplesmente como raças).
O essencial, portanto, para caracterizar o racismo (e a raça como sua ideia principal), menos do que as diferenças físicas e/ou culturais eventualmente existentes entre agrupamentos humanos, é a presença de um discurso racializante superficial, verificável do ponto de vista político-histórico e dotado de razoável repercussão social. Esse discurso, calçado no preconceito, é que grava grupos como raças, podendo ser reproduzido por falsas teorias, crenças, narrações místicas, propagandas, etc..

Para mais definições sobre raça, cor, racismo e preconceito, link aqui. Também encontrei um artigo interessante falando sobre raça e etnia, link aqui.

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Flicts. Ziraldo, 1969.

Daí eu me lembrei do livro Flicts, do Ziraldo. Aquele sobre uma cor que não fazia parte do arco-íris, que não tinha lugar na caixa de lápis de cor, que achava que não tinha o seu lugar, sabe? Aí eu fiquei pensando… Será que eu sou flicts? Será que meus futuros filhos também serão flicts? O que isso quer dizer? Será que eu não tenho lugar na caixinha de lápis de cor, nem na bandeira de nenhum país? Será que isso me faz menor do que outros, que conseguem se definir com facilidade?

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Flicts. Ziraldo, 1969.

No final, o poema termina com Neil Armstrong dizendo que “a Lua é flicts” e eu acho isso fenomenal. Então, por mais que às vezes eu sinta que não tenho lugar na caixa de lápis de cor, ou que não consigo me definir como o vermelho, o amarelo ou o violento violeta, sei que não estou só nessa vida. Muita gente também é flicts, muita gente também não consegue se definir em uma única cor/raça/etnia.

E no final, percebemos que sempre haverá espaço para todos.

É importante perceber que se não se admite mais piadas de mau gosto que contenham racismo, discriminação ou misoginia, isto não se deve à falta de bom humor das pessoas, mas sim às conquistas sociais e ao empoderamento ganho de forma árdua. Fazer piada com quem sempre foi oprimido é muito fácil e cômodo. É mais difícil desconstruir nossas amarras sociais e ver o mundo por outro prisma, por outras cores.

 

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Autor: Lis

A wicked witch.

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