Diário da Assistente

Data estelar 46-2/10

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Tentarei documentar neste diário todas as informações coletadas a respeito do espécime jornalista e seus grupos, utilizando-me de observações in loco de suas atividades. Não pretendo analisar, pois não me sinto capaz de aprofundar tais estudos durante minha imersão neste universo.

Jornalistas sobrevivem de coletivas de imprensa, eventos, coberturas extraordinárias, pronunciamentos de expoentes políticos ou famosos. Sobrevivem no sentido quase biológico: servem-se de  água, café, biscoitinhos amanteigados e outras iguarias postas em mesas ao seu dispor, numa tentativa lúgubre de apaziguar fome e sede crescentes durante as horas de espera pelo único objetivo deste espécime: A PAUTA.

Costumam aguardar muitas horas – às vezes somente para ouvir cinco minutos de algum comentário. Exemplifico: um evento agendado previamente para às 16h pode começar a qualquer minuto entre 16h e 22h59m. 16h em qual fuso horário? O aviso de PAUTA é sempre dúbio com relação a horários.

As informações coletadas durante a PAUTA nem sempre são usufruídas da mesma forma

jornalista
Que foi que ele falou mesmo? – Fonte: http://www.fiamfaam.br

pelas muitas variedades de espécime. Exemplifico: o Jornal X divulgou que tal e tal coisa aconteceu. O Jornal Y diz que na verdade foi blá-blá-blá. Na verdade, pode ter acontecido tal e tal e blá-blá-blá. Ou não foi bem assim. Ou ainda vai ser. Ou nunca será.

As espécimes femininas pertencentes ao núcleo televisivo utilizando absurdas quantidades de maquiagem tribal em seus rostos, transformando-os em máscaras ritualísticas, para que as câmeras operadas (na maiorida das vezes) por espécimes masculinos possam captar com clareza a palavra da PAUTA.

Os espécimes masculinos pertencentes ao núcleo de rádio preocupam-se apenas na captação de som, reclamando com os outros do grupo a respeito de barulhos estridentes, ou abafados, ou externos, ou o fulano que está respirando como se fosse um asmático. Eles cultuam a mítica SONORA PERFEITA.

Alguns espécimes pertencentes à agências internacionais tendem a desenvolver a incrível capacidade de captar A PAUTA em um idioma estrangeiro e decodificá-la prontamente para seu idioma natal. Impressionante. Outros se valem de gravações, dicionários e assistentes bilíngues (ou trilíngues) para decodificar a mensagem.

Jornalistas conseguem sobreviver dentro de qualquer ambiente: salas ermeticamente fechadas, com pouca ventilação, sem lugares para que possam se sentar e esperar pela chegada da PAUTA; ou salas com clima de montanha, quase a graus negativos, para que sua extensa parafernália possa sobreviver até que A PAUTA se inicie. Apenas a integridade dos equipamentos importa. A sobrevivência do jornalista não interessa.

Para fins documentais, reproduzo abaixo a fala de um desses curiosos espécimes:

“Amanhã está agendada PAUTA às 06h. Mas pode ser a qualquer momento entre 06h e 17h59m. A gente almoça esse biscoito aí meio sem gosto que está na bolsa. Água deve ter lá. Só vou ter folga na outra semana. Ou talvez não. Depende. Em 20 segundos qualquer coisa pode acontecer…”.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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