Ceder

Entro no vagão de metrô um tanto vazio, pouco depois do meio-dia. Resolvo não me sentar porque a) vou descer daqui a pouco e b) estou tão cansada que sou capaz de cochilar e perder a estação. Suspiro um pouco, olho pro meu tênis sujo e conto mentalmente quantas paradas faltam até o meu destino.

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Fonte: r7.com

A mulher sentada no banco mais próximo começa a acenar para o outro lado do corredor, tentando chamar a atenção de alguém. Percebo pelo reflexo do vidro que seu alvo é uma senhora aparentando uns setenta anos, magra, cabelos brancos em corte chanel – e o que me foi mais impactante: casaco em pleno verão carioca.

Mas bem, cada um sente o clima da cidade como bem quer.

_ Senhora, quer se sentar aqui? – a voz da mulher era quase um sussurro.

_ Eu te pedi alguma coisa?

Sinto minhas sobrancelhas arquearem no esforço de suportar o peso da gravidade que aumentara de súbito. Eu não esperava aquela reação. Acho que ninguém ali esperava.

_ Eu não te pedi nada – a senhora subia o tom a cada palavra. – Eu me sento se eu quiser!

Ela desce na próxima estação, marchando furiosamente, os braços finos cruzados carregando uma bolsa de mercado.

A mulher que tentou lhe ceder o assento busca compreensão nos outros passageiros. Eu olho para ela, um pouco tímida. Ela retribui o olhar e conclui:

_ Da próxima vez, vou pensar duas vezes antes de oferecer o lugar.

O que é educação e respeito? O que é gentileza? O que é empatia?

… Como será que eu reagiria se tivesse meus setenta anos?

 

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Autor: Lis

A wicked witch.

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