Tudo é política

Por Nelson Werneck Sodré

Há uma certa confusão, até certo ponto natural e só em alguns casos devida à má-fé, em torno do problema da política em literatura, da posição do escritor em face da política. O grande escritor democrático Gottfried Keller disse, certa vez: “Tudo é política”. Ele não queria significar, entretanto, que tudo fosse diretamente política; mas que as forças sociais que determinaram, no seu desenvolvimento, os fatos políticos, influem também nas decisões da vida cotidiana, no trabalho, no amor, na amizade, na criação artística. Tais forças se traduzem em tipos humanos, que surgem em todos os campos, e em cuja conduta o conteúdo político é transparente. Tais tipos são diversos, conforme a atividade a que se dedicam e conforme a efetividade de sua influência. O escritor, que vive debruçado sobre a vida, recolhe em sua obra, se lhe não falta o talento, os traços da influência política que estão por toda a parte. Toda ação, todo pensamento, todo sentimento do homem – tenha ele disso consciência ou não – estão fundidos com a vida, com a sociedade em que trabalha, com a política. Tudo deriva da vida social, e a ela retorna e a vida social é eminentemente política.

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Fonte: dedindeproza.wordpress.com

Está claro que isso nada tem a ver com política, na significação vulgar, partidária. Por outro lado, a influência que tem a participação política do escritor é importante, mas não decisiva: escritores valem pelas suas criações. E muito mais característico, nesse sentido, o que o autor revela em seus livros, do que o que ele revela em sua vida. Escritores que tiveram participação intensa em movimentos políticos importantes, – Tolstoi, na emancipação dos camponeses, por exemplo, – enriqueceram a sua obra importante com a experiência prática. Mas isso não é o caminho obrigatório, nem é mesmo o único caminho. E acontece até casos, como o de Balzac, em que a honestidade artística salva os preconceitos pessoais do autor: Balzac, monarquista, descreve com fidelidade exemplar o drama da classe que estima e que agoniza. E nem é a escolha do tema que define a honestidade e a posição política: Hamsum, que descreveu a miséria e romanceou a fome, revelava, desde o princípio, a degradação que o levou ao fascismo. A intenção de fazer ficção revolucionária tem produzido, por vezes, aberrações na literatura. E nem há dúvida de que a qualidade artística é a característica fundamental; sem ela, não há intenção que salve.

O que se afirma, assim, é que todos os homens têm uma posição política, mesmo os que a negam, e que o escritor, além disso, atento à vida, reflete necessariamente as forças sociais em sua obra, reflete-as intencionalmente ou não, e toma posição, na vida e na obra, ou apenas em uma delas. Não há obrigação de seguir determinadas ideias, para chegar a ser grande em literatura, mas é também verdade que a receptividade aos anseios do seu meio e do seu tempo ajuda enormemente a conquista da grandeza literária. Todos os criadores autênticos, no campo artístico, foram participantes, realizaram uma opção e escolheram certo, dentro do quadro em que viveram seja na existência que levaram, seja na obra que elaboraram, mas principalmente nesta, e eles é o aspecto importante.

Última Hora, Rio de Janeiro, 11 de abril de 1957.

Fonte: SODRÉ, Nelson Werneck. TUDO É POLÍTICA: 50 anos do pensamento de Nelson Werneck Sodré em textos inéditos em livro e censurados. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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