Spleen

Naqueles cinzentos dias de inverno carioca, Clarisse era onipresente. Era a senhora soberana em meus domínios, a deusa onisciente; o gélido ar que me doía nos pulmões, a macia colcha que me envolvia à noite; a culpa, o corpo, a alma.

Entre uma baforada e outra de seu cigarro, Clarisse declamava-me poemas cheios de spleen.

Porias o universo em teu bordel,spleen
mulher impura! O tédio que te faz cruel.
Para treinares os dentes neste jogo singular,
Terás a cada dia um coração a devorar,
Teus olhos a girar assim como farândolas,
De festas de fulgor a imitar as girândolas,
Exibem com insolência uma vã nobreza,
Sem conhecer jamais a lei de sua beleza!

Máquina cega e surda e de um cruel fecundo!
Instrumento a beber todo o sangue do mundo,
Já perdeste o pudor e ao espelho não viste
Tua beleza cada vez mais murcha e triste?
A grandeza de um mal que crês saber tanto
Nunca pôde fazer-te retroceder de espanto,
Na hora em que a natureza em desígnios velados,
De ti se serve, mulher, ó deusa dos pecados,
– A ti, vil animal – para um gênio formar?

Ó grandeza da lama! Ó ignomínia exemplar!

_ Baudelaire, Clarisse? Você podia pegar mais leve.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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