Agosto, de Rubem Fonseca (trecho)

O homem conhecido pelos seus inimigos como Anjo Negro entrou no pequeno elevador, que ocupou por inteiro com seu corpo volumoso, e saltou no terceiro pavimento do Palácio do Catete. Andou cerca de dez passos no corredor em penumbra e parou em frente a uma porta. Dentro, no modesto quarto, vestido com um pijama de listas, sentado na cama com os ombros curvados, os pés a alguns centímetros do assoalho, estava o homem que ele protegia, um velho insone, pensativo, alquebrado, de nome Getúlio Vargas.

O Anjo Negro, depois de tentar ouvir se algum ruído vinha de dentro do quarto, recuou, apoiando as costas numa das colunas coríntias simetricamente dispostas na balaustrada tetragonal de ferro que cercava o vão central do hall do palácio, àquela hora silencioso e escuro. Deve estar dormindo, pensou.

Depois de certificar-se que não havia anormalidades no andar residencial do palácio, Gregório Fortunato, o Anjo Negro, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, desceu as escadas em direção ao gabinete da assessoria militar, no térreo, verificando, no caminho, se os guardas mantinham-se nos seus postos, se o Palácio das Águias estava em paz.

O major Dornelles conversava com outro assessor, o major Fitipaldi, quando Gregório entrou no gabinete.

O chefe da guarda pessoal, depois de examinar com os dois assessores militares o plano que a segurança adotaria na ida do presidente ao Jockey Club no domingo, dia do Grande Prêmio Brasil, foi para seu quarto.

Tirou o revólver e o punhal que sempre carregava, colocou-os sobre a
mesinha e sentou-se na cama, onde havia vários jornais espalhados.

Leu as manchetes, apreensivo. Aquele ano começara mal. Logo em fevereiro, oitenta e dois coronéis, apoiados pelo então ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, haviam divulgado um manifesto golpista e reacionário criticando as greves dos trabalhadores e falando ardilosamente no custo de vida. O presidente demitira o ministro traidor, sem ter outro general de confiança para colocar no seu lugar. Gregório sabia que o presidente não acreditava na lealdade de mais ninguém das Forças Armadas desde que o general Cordeiro de Farias, que sempre comera pela mão dele como um cachorrinho, o apunhalara pelas costas em 1945. Mas acabara tendo de colocar no Ministério da Guerra um homem em quem também não confiava, o general Zenóbio da Costa, aceito sem restrições pelos militares por ter sido um dos comandantes da Força Expedicionária Brasileira que lutara ao lado dos americanos na guerra. Para apaziguar os milicos fora obrigado a exonerar do Ministério do Trabalho seu amigo Jango Goulart. Isso tudo acontecera antes que fevereiro acabasse. Sim, fora um mau começo de ano, pensou Gregório. Em maio os golpistas haviam tentado o impeachment do presidente e o traidor João Neves ajudara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e Getúlio. Gregório não se esquecia do que João Neves lhe dissera, ainda ministro das Relações Exteriores: “Não meta o nariz aonde não é chamado, seu negro sujo”, tudo porque ele, Gregório, tentara estabelecer um contato direto entre o presidente e o emissário do presidente Perón da Argentina. Ainda em maio, o enterro de um jornalista, morto a socos por um policial conhecido como Coice de Mula, fora usado como pretexto para uma passeata contra o governo pelos seguidores fanáticos do Corvo, os lanterneiros, um bando de golpistas que se reuniam no chamado Clube da Lanterna, apoiados pelas mal-amadas, uma associação de donas de casa histéricas. Em julho, a canalha udenista, sempre com propósitos golpistas, inventara uma conspiração comunista. Por trás de tudo avultava a figura sinistra do Corvo.

Sobre a cama estava um exemplar de Ultima Hora, o único jornal importante que defendia o presidente. Na primeira página, uma caricatura de Carlos Lacerda. O artista, acentuando os óculos de aros escuros e o nariz aquilino do jornalista, desenhara um corvo sinistro trepado num poleiro. O Anjo Negro levantou o braço e cravou com força o punhal no desenho. A lâmina varou o jornal e os lençóis, perfurou o colchão, emitindo um som arrepiante ao raspar em uma das molas de aço.

Gregório colocou o revólver de volta no coldre da cintura e o punhal na bainha de couro. Vestiu o paletó e saiu do seu quarto.

 

Fonte: lelivros

Anúncios

Autor: Lis

A wicked witch.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s