Cena do cotidiano 6: castanhas portuguesas

Tinha sido um começo de semana difícil para mim. Enxaqueca, dúvidas, tentativas em voltar a fazer exercícios físicos e vencer a preguiça de sempre. Tomei um banho frio, troquei de roupa e me convenci a sair de casa naquela tarde, rezando para que a chuva de verão não caísse logo.

Paguei a conta de luz, passei no trabalho de uma amiga e conversei um pouco, depois fui ao mercado. Não estava com a mínima vontade de cozinhar e o menu da noite seria pizza ou comida japonesa. Na cesta de compras havia apenas o básico para sobreviver mais um dia: iogurte, erva mate, suco de uva para o namorado, suco de cevada para mim. Fiquei atrás de uma senhora na fila do caixa rápido. Na cesta dela havia apenas um item: castanhas portuguesas.

Resultado de imagem para castanhas portuguesas_ O que é isso? – a menina no caixa perguntou.

_ São castanhas portuguesas. Você não conhece? – respondeu a senhora, com um olhar incrédulo e doce ao mesmo tempo.

_ Acho que não – ela pega a tabela com os preços dos produtos para conferir o código das castanhas. – Eu sou nova aqui no mercado.

_ Ah, castanhas portuguesas são deliciosas! Você coloca na panela de pressão e espera uns trinta minutos. A casca sai e elas ficam bem macias. Você devia provar.

Fez-se um pequeno silêncio na conversa, enquanto a algazarra ao redor subiu de volume. A menina no caixa manteve o olhar fixo no monitor, conferindo o código que havia digitado.

_ São noventa e oito reais e noventa e cinco centavos. É isso mesmo?

_ Sim, sim – a senhora tira uma nota de cem da bolsa. – Castanhas portuguesas são uma delícia! Na minha ceia de Natal nunca pode faltar.

A menina do caixa pega a nota, atônita. Verifica se é verdadeira. digita no teclado o valor de entrada. A gaveta se abre, ela entrega o troco à senhora, que pega as moedas, me sorri e vai embora.

_ Boa tarde – cumprimentei, enquanto tirava os itens da cesta.

_ Boa tarde – a menina do caixa respondeu num quase sussurro. – Noventa e oito reais e noventa e cinco centavos.

Geralmente não converso com estranhos, mas a expressão no rosto dela era de uma descrença tão grande que eu me senti na obrigação de conversar. Era isso ou dar um abraço, palmadinhas nas costas e um chocolate quente.

_ Castanhas portuguesas são caras. Lembro que meu avô adorava, sempre tínhamos na mesa de Natal. Depois que ele faleceu, minha mãe passou a comprar apenas uns cem gramas – e mesmo assim, espera até o último dia para comprar, porque aí o preço fica mais barato.

_ Gente, é muita castanha! A senhora viu? Foi mais de um quilo. Era praticamente o preço de uma cesta básica – ela apontou para a prateleira às suas costas. Havia um mostruário com cinco cestas básicas embaladas e o preço era bem próximo.

Eu olhei para as minhas compras e me julguei mentalmente.

_ Bem… Cada um sabe como gasta seu dinheiro, não é mesmo?

_ É verdade – ela respondeu, passando meus produtos pelo leitor de código de barras.

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Autor: Lis

A wicked witch.

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