A mosca

mosca

Repousa o ventre sobre puído lençol
– Nas pernas vermelhas, os beijos
De juras apertadas por cinto de couro –
Ela arfa, ronrona – sorri ao rouxinol
Cantante em sua mente adormecida.

Sozinha no quarto, a amante tão bela
Repousa seus castanhos cachos sobre o travesseiro;
No quarto, perdura o insistente cheiro
Do profundo êxtase das almas. A vela
Ao canto, tremeluzia e queimava-se por inteiro.

Zunindo no silêncio, o amante tardio veio.
Guiado pelo tão pungente anseio
Esgueirou-se pela cortina, incerto, matreiro.

Pousou as delicadas patas sobre a coxa morena.
A pele suava, obscena.
Queimava-lhe a visão de tamanha beleza.

Seus muitos olhos admiravam o sumo da vida
Que branco e leitoso pingava.
Queria-lhe sorver sua paixão líquida
Até rebentar-se a barriga inchada.

A mosca chegou-se, zumbindo doce
Esfregou as patas sofregamente
A boca afunilada na boceta encostou
E o sumo feliz ela tomou.

A bela dormia, e dormindo ficou.
Mas trinta e cinco dias depois
De seu ventre arrebentou
Uma nuvem negra, zumbindo em seu louvor.

 

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