Artigo: Três negros na noite paulistana

O Jornal do Brasil voltou a ter sua versão impressa. Mesmo com tiragem limitada, a publicação vem fazendo uma bela cobertura dos acontecimentos, em especial sobre as questões da cidade do Rio, seu foco primeiro nesta retomada. Esta semana tive o prazer de ler o texto do economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, que fez uma homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada há uma semana. Abaixo, um trecho:

Começa o interrogatório. Primeiro Cayré, aluno da Fatec, curso profissionalizante de Comércio Exterior. “Aonde vai, moleque”? “P’ra casa da minha avó, logo ali, dois quarteirões pra frente”.

“E vc, menino?”. Yago responde que está na 7 ª Série.

“Também mora na casa da vovó, hein?”. Yago responde com um meneio de cabeça. A voz quase não sai. O meganha insiste. Yago consegue emitir o som do sim.

Os policiais ainda rodam o cassetete. Chegam nos 16 anos de Ygor. O garoto observa os fardados da altura de 1,90m. “E vc, grandão, também vai pra casa da vovó’? Ygor responde que sim, arrastando um sotaque de erres e ss carregados. O meganha tem um esgar de  estranhamento. Os três “investigados” sintonizaram a sensação de perplexidade dos investigadores: um negro com sotaque.  Os olhares e os sestros faciais dos policiais denunciavam febris imaginações. Estariam interrogando um haitiano, um desses negros imigrantes que roubam os empregos dos brasileiros, ou talvez um africano trapaceiro? Ainda, pior, um crioulo venezuelano empenhado em preparar a revolução bolivariana?

Yago percebe os desencontros que atormentavam o cérebro do brazuca, moreno escuro e uniformizado. Rapidamente, completa, “Eu morro em Estocolmo”.

A desconfiança se converte à surpresa. “Estocolmo?” pergunta o mais fortinho e mais simpático.

“Estocolmo, na Suécia”, explica Ygor.

“Você fala inglês?”, atalha o outro, o mais carrancudo. Ygor confessa: “Falo sueco, inglês e espanhol, esjtou aprendendo alemão. Quero esjtudarr engenharria e trabalharr numa empresa alemã.”

Knock-down. Abalroado pelo complexo de vira-lata, o policial apoia a retaguarda na viatura e balbuciando um murmúrio, anuncia: “Ah, então, bem, estão liberados.”

O artigo completo você lê aqui.


Estou tentando  voltar a publicar por aqui. Talvez seja influência do Jornal do Brasil; talvez seja o meu espírito de pseudoescritora tentando sair do hiatus criativo; talvez seja uma angústia, um desalinho, um comichão que não descansa.

Talvez seja hora.

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