Cidade Calamitosa

Tentando voltar a escrever. Tentando ser mais que um amontoado de células, uma massa viva a base de carbono, bípede, pensante e que respira oxigênio. Os dias têm sido difíceis de digerir. Sufocantes.

Que país é esse toca na minha rádio mental quase todos os dias. A música é de 1987 e, aparentemente, nunca vai sair de moda. Também lembro da versão de Cidade Maravilhosa repensada pelo Casseta & Planeta. Essa é de, sei lá, 1993. Também não fica desatualizada. Tá lá pro final do vídeo, mas recomendo investir os 3:40 nesta pérola sem arrependimentos.

Cidade Calamitosa
Quase guerra civil
Cidade Calamitosa
Da escopeta e do fuzil

A cidade submersa não é de hoje. Lima Barreto que o diga. O historiador Luiz Antonio Simas resumiu o histórico de tempestades trágicas no Rio de Janeiro, recomendo a leitura.

Às vezes, dói viver.


Compartilho aqui o texto do jornalista e escritor Ruy Castro, publicado na Folha de São Paulo de hoje.

A tragédia é Crivella

O Rio está pagando por tê-lo como prefeito. Quando ele pagará?

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, durante reunião no Palácio do Planalto
O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, durante reunião no Palácio do Planalto – Pedro Ladeira – 7.mar.18/Folhapress

Muito antes da chuva de segunda-feira, o prefeito Marcelo Crivella já estava devastando o Rio com seus ventos de zero quilômetro por hora. O carioca sabe do que estou falando. A cada rua esburacada, calçada imunda, lixo por recolher, equipamento urbano destruído, sinal de trânsito quebrado, carros do VLT e do BRT parados e vigilância zero nas ruas, a cidade se desfaz aos seus olhos. E estes são apenas alguns itens a confirmar um diagnóstico cometido há dias pelo próprio Crivella: “O Rio é uma esculhambação”. O mesmo Rio do qual ele é prefeito há três anos.

Se fosse uma autocrítica, haveria uma remota possibilidade de tolerância. Mas Crivella não se vê como parte do problema e muito menos como razão do problema. Ele não quer saber se os bueiros, rios e galerias estão entupidos e que consequências isso trará. Os órgãos públicos que lhe são subordinados estão paralisados por sua inércia —uma árvore caída leva semanas para ser retirada. Diante desse quadro, pode-se imaginar como não estarão a educação e a saúde. E, para desespero do comércio que lhe paga impostos e sustenta a sua inoperância, os camelôs e os ambulantes se tornaram donos da cidade —sim, mas tente vender Bíblias na porta de suas igrejas.

Crivella não gosta do Rio e nem de ser prefeito. Seu ódio às tradições da cidade, como o Carnaval, e seu descaso pelo nosso patrimônio histórico têm reflexos até econômicos ao afastar turistas e negócios, mas ele não está nem aí. E sua aversão ao cargo para o qual foi eleito se manifesta a cada chuva que desgraça a cidade.

Ele já não disfarça o cinismo. Suas explicações para a tragédia desta semana são as mesmas que deu sobre a chuva do mês passado e a do Carnaval de 2018. Só que, a cada chuva, a tragédia aumenta —principalmente a de tê-lo como prefeito.

O Rio está pagando por isto —foram dez mortos desta vez. Quando chegará a vez de Crivella pagar?

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