Iconoclastia

Compartilho o texto da Flávia Boggio, roteirista de séries de ficção e do núcleo de humor da Globo, escreveu para programas como o ‘Lady Night’, publicado hoje na Folha de São Paulo.

Assim que li o título do texto, lembrei de uma música do BUCK-TICK. Então tô aproveitando a oportunidade pra compartilhar o meu amor por rock japonês também. Aproveita que a letra é toda em inglês e canta junto!


 

Iconoclastia

A humanidade elege ídolos desde o início de sua história. Originalmente, eram objetos de adoração, homens com milagres atribuídos a eles, guerreiros e libertadores de povos.

Até que o sarrafo despencou e começaram a distribuir o título como panfletos de empreendimento imobiliário, transformando em ídolos atores, músicos, políticos, chefs de cozinha e criando até reality shows para elegê-los.

Porém, como uma das características do ser humano é fazer asneira, os ídolos mortais, na maioria das vezes, desapontam seus fãs, que retiram o posto com a mesma velocidade com que os elegem. Eu mesma tive inúmeras frustrações.

Ilustração
Galvão Bertazzi/Folhapress

Ainda pequena, considerava o palhaço Bozo um ídolo a ponto de obrigar minha mãe a comprar um Carnê do Baú porque ele falou “peça para a mamãe” e a me levar no programa. Lá, descobri que o cenário era de isopor, que a Vovó Mafalda era um homem e que ele não cantava as músicas nem era feliz o tempo todo.

Cresci, idealizei novos ídolos e novas frustrações. Adorei a banda Guns N’ Roses até o vocalista se tornar um senhor desafinado com tererês nos cabelos. Amei Michael Jackson, até as fatídicas acusações dos anos 1990. Venerei Woody Allen, mas, com as acusações da filha, o coloquei na categoria “tenho certo ranço”. O último ídolo a partir meu coração foi o comediante Louis C.K., acusado de assédio sexual, mostrando que é exatamente o tipo de pessoa que ele satirizava em seus stand-ups.

Todos nós elegemos heróis na vida e nos decepcionamos. Mas, como adoramos adorar, não aprendemos que é possível, simplesmente, admirar uma pessoa, em vez de içá-la a um altar de adoração.

Não é porque um juiz fez um bom trabalho que precisamos adotar seu sobrenome, usar camiseta com seu rosto estampado, brigar com a família e nos sacrificar em sua defesa.

Isso também vale para políticos, jornalistas, gurus, filósofos, astrólogos, coaches e professores de zumba. Como já disse Tina Turner, nós “não precisamos de um outro herói”. A música, aliás, é trilha do filme que lançou Mel Gibson, mais um que foi eleito ídolo e decepcionou.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s