Somos todos Lady Macbeth

Retirado do texto original do Guilherme Balança-lança, também conhecido como William Shakespeare.


lady-macbeth
Lady Macbeth. Por Charles Soubre, 1877.

(Entra Lady Macbeth, com uma vela.)
A CAMAREIRA – Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.
O MÉDICO – Como conseguiu essa luz?
A CAMAREIRA – Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.
O MÉDICO – Como vedes, está com os olhos bem abertos.
A CAMAREIRA – É certo; mas os sentidos estão fechados.
O MÉDICO – Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.
A CAMAREIRA – É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos. Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.
LADY MACBETH – Aqui ainda há uma mancha.
O MEDICO – Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.
LADY MACBETH – Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando. Um dois… Sim, já é tempo de fazê-lo. O inferno é sombrio… Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?
O MÉDICO – Ouvistes o que ela disse?
LADY MACBETH – O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacilação.
O MÉDICO – Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.
A CAMAREIRA – Ela falou o que não devia, tenho certeza. Só Deus sabe o que ela sabe.
LADY MACBETH – Aqui ainda há odor de sangue. Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha. Oh! Oh! Oh!
O MÉDICO – Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.
A CAMAREIRA – Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.
O MÉDICO – Bem, bem, bem.
A CAMAREIRA – Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.
O MÉDICO – Esta doença ultrapassa minha arte. No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.
LADY MACBETH – Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir. Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.
O MÉDICO – Também isso?
LADY MACBETH – Para o leito! Para o leito! Estão batendo no portão. Vinde, vinde! Dai-me a mão. O que está feito não está por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito!

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