Vidraças e vidas de vidro

Malvados. Por André Dahmer, 2014.

Em 2013, eu sentia pena de vidraça. Ficava revoltada vendo ônibus queimando, lixeira depredada, muro pichado. Em 2013, eu ainda fazia parte do grupo que pregava o protesto pacífico.

Tem gente morrendo todo dia. Gente morrendo pelo gatilho racista da polícia, que está aí para servir e proteger à elite. Tem gente preta morrendo todo santo dia – e nos não santos também. Mãe enterrando filho. Pai enterrando filha.

Tem gente morrendo de Covid-19 todo dia. No Brasil então, é um dos lugares onde mais se morre desta bactéria filhadaputa, micróbio do caralho. Sistema de saúde em colapso, profissionais da área cansados, doentes, exaustos.

Tem gente morrendo de fome todo dia. Gente morrendo asfixiada. Gente morrendo pela violência doméstica, porque tem macho que se acha no direito de vida ou morte da mulher. Tem criança sendo espancada, abusada, violada.

Enquanto isso, do alto do meu privilégio, eu tento ajudar como posso. E tento me ajudar como posso. Mantenho-me anestesiada o quanto posso – seja com etílicos, seja com música, seja com qualquer outra arte.

Não temos nenhuma certeza. Na verdade, tudo o que sempre tivemos era a ilusão da certeza. Hoje, nem isso temos.

Mas uma coisa é certa: cansei de sentir pena de vidraça.

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