Oito de Março de 1950?

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Olhem que paz. Fonte: http://social.rollins.edu

Passei este Oito de Março em casa, com um belo torcicolo como companhia há 24 horas – e que possivelmente fará de tudo para estender sua permanência até o fim de semana. Tentei estudar, não consegui; tentei ler, mas foi em vão. Tentei escrever… Pior ainda.

Daí eu leio sobre o discurso que o presidente Temer fez hoje em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

“Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado de Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.”

Pausa para respirar fundo e contar até cem. Outro trecho interessante foi esse aqui ó:

“E hoje, como as mulheres participam em intensamente de todos os debates, eu vou até tomar a liberdade de dizer que na economia também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor.”


 

É de me coçar até as mitocôndrias.

Meninada, voltamos ao passado. Esqueçam a responsabilidade de ambos os genitores/tutores legais pelos filhos: quem pariu a criança, que a carregue. Voltemos a jogar toda a responsabilidade da educação dos filhos às mães. Ah, e a participação feminina na economia se dá pela exímia capacidade das mulheres em saber lidar com o orçamento doméstico.

Mas devo admitir que nem tudo foram espinhos (pun intended):

“[…] É um longo trajeto histórico que vem revelando a presença importantíssima da mulher. Aliás, em função disso, no próprio Plano Nacional de Segurança Pública, um dos primeiros pilares do Plano Nacional de Segurança Pública, lançado muito recentemente, é exatamente o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Nós estamos até cuidando de criar um fundo de combate à violência contra a mulher, e a bancada feminina já esteve comigo, é nós estamos cuidando disso, que é mais um passo no combate à violência contra a mulher. E estamos fortalecendo a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que é o 180.”

Apesar do que devemos nos lembrar que o atendimento nas delegacias de proteção à mulher é péssimo. E quando o presidente fala da bancada feminina, tenha os seguintes números em mente: as mulheres são mais de 50% da população brasileira, mas ocupam menos de 10% das vagas no Congresso Nacional.

Eu não sei em que mundo este homem vive, mas sei quando não é. Não é em 2017.


Para recuperar a sanidade, recomendo ler este artigo sobre o dia Oito de Março de 2017 na história. Recomendo também comer um pedaço de bolo de chocolate ou tomar uma cervejinha gelada.

Tem que rir

Ontem à tarde, no jornal local, assisti a uma reportagem falando sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. O jornal visitou uma fábrica da indústria automobilística da região e algumas funcionárias desta multinacional falaram a respeito do assunto.

A íntegra da matéria está aqui.

Uma das entrevistadas disse o seguinte:

_ Aqui na empresa, a gente tem um grupo bem diversificado. Principalmente o meu time, é dividido bem meio a meio. A gente tem bastante espaço, bastante respeito. Todo mundo trabalha aqui com o maior esforço possível para alcançar os resultados. Não tem diferenciação se você é mulher, se você é homem, se você é engenheiro, se você é engenheira. Todo mundo aqui está buscando o mesmo resultado e trabalhando junto.

Eu ri.

Eu ri porque fiquei imaginando quantas mulheres em cargo de chefia essa empresa deve ter. Ri porque pensei em quantas mulheres devem ser preteridas quando chega uma oportunidade de promoção. Ri porque fiquei aqui pensando o quão diversificado deve realmente ser esse grupo de trabalho. Aposto como a maioria das mulheres está em cargos de suporte/apoio, enquanto os cargos da área de Engenharia são dominados majoritariamente por homens.

Apenas 37% dos cargos de chefia no Brasil são ocupados por mulheres. No setor público, a presença feminina diminui conforme aumenta o salário dos cargos comissionados, aqueles de confiança. No setor privado, em cargos executivos de empresas no setor financeiro, somos apenas 10% – e existe diferença salarial. Em média, a mulher ganha 76% do salário de um homem na mesma função. Nos cargos de chefia, esse percentual cai para 68%. Não sou eu que estou dizendo: são informações do Pnad/2015, Boletim Estatístico de Pessoal
do Min. do Planejamento, TSE, União Inter-Parlamentar e Consultoria de RH Oliver Wyman.

Eu ri com essa reportagem porque a alternativa era chorar – e eu ando muito passivo-agressiva para chorar pelos outros.

Universos paralelos

Há algumas semanas, no auge da presença de Clarisse (não é minissérie inspirada nos textos do Nelson Rodrigues, não; é como eu chamo a minha TPM), me peguei pensando como teria sido a minha vida se eu não tivesse feito as escolhas que fiz. É, eu caí nessa armadilha terrível. Terrível porque não há “a outra escolha”.

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“Espero que o Eu do universo paralelo esteja indo bem nesse momento”

Nós somos fruto daquilo que escolhemos, todos os dias. Desde que acordamos até a hora de dormir. O curioso nesse pensamento é que não me ocorreria em dias de taxa hormonal estável porque eu sei que esse outro Eu que foi para um caminho diferente não existe.

Isso é reconfortante e desesperador ao mesmo tempo, porque uma parte de mim espera que o meu outro Eu no universo paralelo esteja indo melhor.

Vizinhos

O único tipo de vida em sociedade que conheço é aquele que se passa dentro de condomínios.

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Prédio vizinho

Não tive a experiência de morar em uma casa independente, ter quintal, brincar com os amiguinhos na porta da rua. A gente brincava no parquinho dentro do condomínio, ou pedia pro porteiro interfonar pro 402, 707, 105 e ia juntando a criançada. Já ralei muito o dedão no estacionamento do prédio brincando de queimado. Também já fui preterida nas brincadeiras porque “você é filha de pais separados e eu não posso brincar com você”. Taí uma coisa dos anos 80 da qual não sinto saudades.

Agora que vivo no interior, percebo o quão fechado é o ambiente de um condomínio.É muito raro encontrar com alguém no elevador ou no corredor do prédio. Sei que convivemos por causa das vozes que vêm dos apartamentos vizinhos.

No andar de baixo tem um cara que adora cantar. Geralmente são músicas gospel, mas vez ou outra ele solta alguma do Seu Jorge, ou até algumas de charme em inglês, ou Mariah Carey. Eu estava até pensando em tocar a campainha e oferecer umas aulinhas pra melhorar a pronúncia, mas acho que ia parecer pedante, já que nunca fomos apresentados. Além do mais, não sei em qual apartamento ele mora.

Também tem a mãe da L. A L. é uma menina de uns cinco anos que vira e mexe faz alguma coisa que não deve e leva bronca da mãe. No início, quando eu a ouvia gritar com a filha e menina chorava, pensava mal da mãe da L. e dizia a mim mesma: eu nunca vou gritar com os meus futuros filhos. Só que percebi que eu não estou na pele da mãe da L. para saber o quão difícil foi o seu dia, ou que ela deve estar fazendo o seu melhor e mesmo assim não parece suficiente. Parei de julgar a mãe da L. e comecei a desejar que ela conseguisse respirar fundo, se olhar no espelho e dizer a si própria que ela se basta, que ela está indo bem. A mãe da L. me parece precisar de uma semana em um spa, longe de tudo, sendo paparicada. Sair pra dançar e tomar uns drinques cairia bem. Ser mãe e dona de casa 24 horas por dia deve ser realmente desgastante.

A minha vizinha mais misteriosa é uma senhora de idade que nunca vi. Vamos chamá-la de Dona E. Ela praticamente já estava aqui quando a primeira parede foi erigida. Não raro, tocam o meu interfone achando que é o apartamento da Dona E. Pelo pouco que sei, ela não pode sair de casa desacompanhada – acredito que pela idade avançada ou algum motivo de saúde – e sempre tem uma enfermeira ou acompanhante.

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Corredor do meu prédio

Na véspera de Ano Novo aconteceu de tocarem o meu interfone procurando pela Dona E. Na verdade, não foi bem assim: estavam tocando vários interfones, pedindo a alguma alma caridosa que pudesse descer para abrir o portão. Eram parentes da Dona E., e me explicaram que ela estava sozinha em casa e não conseguia se levantar para atender o interfone, e muito menos descer e abrir o portão. Dei um jeito no cabelo, calcei os chinelos e desci para fazer minha última boa ação do ano.
Fui recepcionada por um casal por volta dos seus cinquenta anos, cada um carregando alguma coisa para a ceia de Ano Novo.

_ Minha filha, muito obrigada mesmo! A Dona E. está sozinha, veja você. E é uma senhorinha de muita idade, é difícil para ela fazer qualquer coisa sem ajuda… E nós viemos pra fazer companhia.

Fico imaginando se eu deveria fazer um bolo e ir lá visitar a Dona E. Mas daí eu lembro que sou tímida e me fecho no meu casulo, protegida dos vizinhos pelas paredes e unida a eles pelas janelas.

Tá tudo bem

O telefone toca.

_ Oi, fulana!
_ Oi, há quanto tempo! Tudo bem?

Em um milésimo de segundo, o silêncio. Passa um filme longo dentro da mente. A falta de perspectiva diante da atual situação financeira. As notícias de assassinato porque algum homem não aceitou fim de namoro. Olhar-se no espelho e não sentir alegria. O presidente dos EUA que acabou de tomar posse. Contar as moedas para comprar pão. O legado dos Jogos Olímpicos, já palpável pelo abandono do Maracanã. Procurar emprego e não achar. Carnaval chegando.

Enfim, você respira fundo e responde, num meio sorriso:

_ Tá tudo bem.

Eu, essencialmente cigarra

essencial
adjetivo de dois gêneros
  1. 1.
    que é inerente a algo ou alguém.
    “a magnanimidade é sua qualidade essencial.”
  2. 2.
    que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental.
    “as questões essenciais de uma situação”
supérfluo
adjetivo substantivo masculino
  1. 1.
    que ou o que ultrapassa a necessidade, que é mais do que se necessita.
    “riqueza supérflua”
  2. 2.
    p.ext. que ou o que é redundante; desnecessário.
    “palavras supérfluas”

Ultimamente, venho pensando muito sobre o significado dessas duas palavras. Claro que a atual situação financeira me obriga a isso também, mas o antagonismo desses termos vem e volta já há algum tempo para mim. Lembro-me daquela frase d’O Pequeno Príncipe: o essencial é invisível aos olhos.

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Fonte: Níquel Nausea

Faz lembrar também aquela fábula da cigarra e da formiga, do Esopo. A cigarra só queria tocar seu violão, curtir o solzinho e farrear por aí. Enquanto isso, a formiga trabalhava dia e noite, diligentemente, preparando-se para o inverno que iria vir. Acabou que a cigarra vida-boa foi bater à porta da formiga, implorando por comida e abrigo durante o inverno. O final da história varia de acordo com cada autor. Na versão que li quando criança, a formiga ajuda a cigarra e esta promete trabalhar com afinco quando chegar a primavera. Em outras versões, mais antigas à essa e provavelmente mais fiéis, a formiga dá-lhe com a porta na cara e manda um “você que se vire, quem mandou ser vagabunda” na cara da cigarra.

Imagem relacionadaPois bem, eu sempre fui essencialmente (significado primeiro acima) uma cigarra. Não sei economizar. Não sei planejar. Não sei medir. Não sei prever o futuro. Um raio pode cair na minha cabeça; posso ser atropelada por um ônibus; ou vai vir o tão sonhado meteoro/planeta gigante que vai colidir com a Terra e nos livrar de toda a nossa comiseração. Então, eu vivo o carpe diem. Sempre vivi e nunca me arrependi disso.

Isso até sair de casa e ir morar sozinha. Daí eu comecei a ter de escolher entre o que é essencial e o que é supérfluo – mas entenda, isso varia de pessoa para pessoa. Eu costumava sair para dançar todo final de semana, religiosamente. Para mim, isso era essencial. Confesso que sinto falta dessa época, porque além do exercício aeróbico, era também catártico e funcionava como uma bela terapia. Considerava aquelas horas como válvula de escape para exorcizar os demônios da semana e limpar o corpo para os desafios seguintes.

Voltando à fabula: já pararam pra pensar que, de repente, as formigas conseguiram trabalhar melhor porque a cigarra estava lá, cantando e tocando seu violão, para alegrar o dia?

Agora, neste período de vacas magras, eu preciso medir, planejar, economizar. Não vou mentir: é muito difícil. Eu tento encontrar abrigo no que considero essencial: família, poucos amigos, meu companheiro, meu gato. Nos livros, filmes e séries que me servem de companhia. Nas histórias que brotam da minha cabeça. Nas músicas que ouço e fazem com que eu me sinta viva.

O essencial é invisível aos olhos, mas às vezes se materializa em alguma forma surpreendente.

Pensamento positivo

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Elvis, meu urso gigante de pelúcia, sempre pronto para pensar positivo (y)

O pensamento positivo é algo curioso.

No meu caso, funciona muito bem quando me refiro aos outros. Sempre confio que tudo vai dar certo para os meus amigos. Calma, é só uma fase, tudo vai melhorar; você é linda, não tem porquê se sentir insegura; tenha paciência e confie em si mesmo, você vai ver que vai dar tudo certo.

O problema é quando eu viro o espelho para mim. Ah, aí é que tudo vai por água abaixo. Isso se dá graças à autoestima flutuante. Há dias em que tudo é muito belo; mas há aqueles dias em que nada pode dar certo. Eu olho para a bagunça aos meus pés e não consigo ver saída, não tem como me esgueirar pela borda e sair de fininho, fingindo que tudo está bem.

Provavelmente, todo mundo se sente assim. Alguns mais do que outros. Então, nesses dias, eu faço uma lista das coisas positivas (e simples) pelas quais devo esperar:

 

Ah, eu falei de Trainspotting e deu saudades.

Blue monday

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No hemisfério norte, a terceira segunda-feira de janeiro é considerada a data mais triste do calendário. Deve ser por causa do inverno – o frio, a vontade de não sair de casa, não fazer nada, esperar o dia terminar.
Tem até nome para a data: blue monday. Em inglês, o azul é a cor da tristeza. Faz sentido, principalmente se você ouve um blues numa segunda-feira triste.

Não sei se foi a lua cheia, invisível no céu nublado; ou a melancolia de verão; ou a saudade dos dias na praia, de sentir que a água salgada me ajudava a purificar a alma. Sei que ontem a segunda-feira estava bem azul. Azul escuro, petróleo, profundo, índigo. Íntimo.

Vida

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“A vida encontra um caminho”. Jurassic Park, 1993.

Percebi que temos mais um morador neste pequeno apartamento.

Bem, primeiro de tudo, vamos contar em ordem cronológica:

Antes de me mudar para cá, parece que havia ninho de passarinhos na área de serviço. Depois da grande faxina feita pelo namorado e seus amigos, uma feliz carioca finalmente se mudou de mala e cuia. O namorado do interior visitava com frequência, mas ainda não se podia chamá-lo de morador… Mas com o passar do tempo, o namoro ficando sério e o amor mais forte, dois humanos e suas neuroses passaram a ocupar este espaço.

Aí veio o presente da mãe: um jarro de planta. Porque tem que ter planta na casa! Como assim não tem planta? Toma aqui uma mudinha de Espada de São Jorge e Comigo-ninguém-pode. É bom pra espantar más energias.

Depois, diretamente de Vulcano, adotamos o nosso gato intergaláctico, Spock. Eu queria tomar crédito pelo nome, mas ele já havia sido batizado assim – e perdoem-me os outros gatinhos da ninhada, mas ele era o mais bonito. E ainda é 😉

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Algumas espadinhas estão meio secas, seja pelo seu efeito milagroso ou pelo calor. Mas dá pra ver o brotinho ali no meio, né 🙂

Alguns anos se passaram e a carioca inventou de tentar plantar arruda. Até que a mudinha estava crescendo bem, mas acho que murchou de saudades quando eu tive que ir trabalhar fora da cidade – e acabei voltando a morar com mamãe temporariamente.

Na raspa do tacho de 2016, tomando uma cervejinha aqui em casa e ouvindo música, eu dou uma olhada no vaso de planta. Aquela planta que mamãe me deu.

Pois bem: está nascendo um brotinho sabe-se lá de que planta, e eu estou achando o máximo. Pelo menos alguma coisa boa está germinando. Só preciso arranjar logo um outro vaso para fazer o transplante. Não quero arriscar perder essa vidinha verde que surgiu de surpresa.