Rock nos meus ouvidos

Você, ser humaninho dotado de todos os seus cinco sentidos (alguns podem ter o sexto e o sétimo, mas vá lá), já deve ter se feito a seguinte pergunta: qual dos seus sentidos seria imprescindível para a sua vida?

Em rodas de conversa com amigos, já nos fizemos essa pergunta. A gente sempre esquece do tato – talvez por ser o sentido mais difícil de se perder, digamos; invariavelmente, a disputa fica entre visão e audição.

Pois bem: eu não vivo sem música. Acordo pensando em música. Vou dormir com alguma música tocando no radinho interno do meu cérebro. Minha vida toda tem trilha sonora, e é algo totalmente involuntário. A morte para mim é esquecer o fone de ouvido ou a bateria do mp3 player acabar.

Sim, eu ainda uso meu mp3 player velho de guerra.

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Meus hômi.

E tem aqueles artistas sem os quais eu não vivo – aqueles que eu ouço todo dia. E aproveitando a data de hoje, 13 de julho, dia mundial do Rock, compartilho aqui algumas das minhas faixas favoritas do Metallica.

Eu não teria esse fio de sanidade que me mantém se não fosse por esses caras. Só eu e o céu noturno da Tijuca sabemos…

Creeping Death

 

Senta que lá vem história em proporções bíblicas. São as pragas do Egito, lembra? O Todo Poderoso manda o Anjo da Morte para matar o primogênito do Faraó. Que coisa mais linda. Adoro cantar essa no karaokê.

The Four Horsemen

Continuando nas proporções musicais bíblicas: agora temos os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Adoro a parte em mais ou menos dois minutos quando eles vêm cavalgando… E o baixo dessa música é uma coisa linda. E deve ter uns três andamentos diferentes nisso.

Harvester of Sorrow

I give
You take
This life that I forsake
Been cheated of my youth
You turned this lie to truth

 

One

Eu queria ter escrito esse conto. As melhores músicas deles são aquelas que contam uma história. Essa letra, esse clipe… Não tem como não se arrepiar.

 

Broken, Beat and Scarred

Dei um salto no tempo para compartilhar essa daqui, em homenagem às minhas cicatrizes. Essa música sempre me lembra do seguinte: o que não me mata, me fortalece.

Estou aqui quebrada, abatida e ferida, mas eu não vou morrer tão fácil.

Meu amor por Machadão

Apaixonei-me por Machado de Assis ainda na pré-adolescência.

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Enquanto a maioria da turma achava a leitura um hábito sacal, eu e algumas poucas almas nos refugiávamos na biblioteca da escola, procurando por livros raros, cheirando as páginas dos recém-chegados volumes, pesquisando nas enciclopédias gigantes no tempo em que não havia Google.

Em uma dessas tardes, esbarrei em uma coletânea de contos de Machado de Assis. Ele ainda era só um nome na lista de leituras do semestre. Lembrei-me de quando acompanhei minha mãe à papelaria para comprar os materiais necessários para o ano letivo. Associei prontamente seu nome ao retrato daquele homem com óculos de aros finos e barba penteada, olhar distante e pele mulata que vi na capa de um dos livros comprados. Eu ainda não havia lido nada da história, apenas a contracapa na qual constava um breve resumo da trama e falava da importância do autor para a literatura brasileira.

No dia 21 de junho, comemorou-se os 178 anos de nascimento desse autor fenomenal. Totalmente a frente de seu tempo, com estilo único e incomparável, já traduzido para os mais diversos idiomas – sim, pode-se ler Machado de Assis até mesmo em japonês.

Já li crítico espanhol dizendo que Machado é maior até que Balzac ou Charles Dickens. Se fosse autor de origem francesa, inglesa ou americana, talvez fosse ainda mais reverenciado mundialmente. No meu coração, ele já o é ❤

Aproveito para compartilhar algumas citações do grande Bruxo do Cosme Velho.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881)

 

“Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.”
Em “Dom Casmurro” (1899)

“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”
Em “Memorial de Aires” (1908)

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis…”
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881)

“Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir”
Em “Carta a Lucio de Mendonça” (24 de janeiro de 1872)

“Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: ‘A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.'”
Em “Esaú e Jacó” (1904)

“Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é possível; está nas tuas mãos.”
Em “Iaiá Garcia” (1878)

“–Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”
Em “Ressurreição” (1872)

Fonte no site da Folha.

Mais

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Theda Bara. Fonte: http://www.boweryboyshistory.com

Era como se tivesse acordado de um torpor.

Sentia sede, sempre. A garganta seca, os lábios ávidos. Os olhos vidrados em busca de um cálice, um oásis, uma gota no deserto.

Ela sentia sede sempre. Não sabia o porquê. Naqueles últimos dias, sabia muito pouco sobre tudo: era uma criança desperta, neófita, sorvendo todo o tipo de conhecimento em que conseguia pôr as mãos.

Ela queria mais.


Talvez seja um argumento para uma história de vampiros. Talvez seja autobiográfico. Talvez não 😉

Morfina

Em 2011, quando me inscrevi no curso de Estrutura Literária ministrado pelo Eduardo Spohr, nunca poderia imaginar que dali surgiria uma confraria e uma coletânea de contos. Éramos onze pessoas empolgadas (eu de bendito fruto, única mulher no grupo): tudo era possível, enfrentaríamos os mares bravios, iríamos com tudo, go go team.

A primeira tarefa a ser vencida era, claro, escrever o bendito conto.

Lembro claramente da pressão que eu mesma joguei sobre os ombros. Sobre o que iria escrever? Vou montar o esquema que aprendi no curso, organizar tudinho e seguir à risca a jornada do herói? Ou vamos esperar a Musa tocar meu rosto e me empurrar no caminho certo?

No fim das contas, eu estava com uma página em branco diante de mim. Dentro do ônibus, um calor infernal, as têmporas suando. Fim de mais um dia de trabalho. Eu ainda atravessaria a cidade para chegar em casa.

Então a Musa soprou alguma coisa nos meus ouvidos.

Daí me veio a lembrança desta música e eu comecei a escrever no caderno. A caneta escorregava entre os dedos, rápida, garranchos lindos. A mão tentava acompanhar o pensamento.

 

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Fonte: R7.com

Conheci o Morphine por volta de 1998 graças a um cd que veio junto em uma edição da revista Bizz. Nem sei se a revista ainda existe, provavelmente não. Mas ali tinha Morphine, Marianne Faithful e mais um monte de gente boa da qual não me lembro agora. Esse trio ganhou meu coração instantaneamente porque o contrabaixo domina.

 

 

E sim, a minha história acabou sendo um pouco baseada na letra desta música.

Quando desci do ônibus, a história estava praticamente terminada. Eu iria passar a limpo, revisar, inserir mais algumas cenas – mas o coração estava lá, pulsando. A minha pequena diabinha dançava ao som de Morphine, insinuante em seu vestido vermelho.

Ishtar

Ishtar
Fonte: goddess-ishtar.tumblr.com

Ishtar, deusa babilônica – ou Inanna, deusa dos sumérios. Ou ainda Astarte, no oriente médio. Deusas da Fertilidade.

Conforme a representação dos deuses nas religiões politeístas, Ishtar possui uma ambivalência. É ao mesmo tempo maternal e sensual; benevolente e maléfica; carinhosa e impiedosa. Enquanto criadora de todas as bênçãos terrenas, também sofria com as tristezas humanas. Protetora do casamento e da maternidade. Deusa do amor, da fertilidade, da sexualidade – mas também deusa da guerra e das tempestades.

Uma das histórias sobre Ishtar que me é mais querida é sobre a sua descida ao submundo.

Ishtar teve que passar por sete portas e remover um símbolo do seu poder – como uma peça de roupa ou um pedaço de joia – em cada um. No último portão, nua e privada de todos os seus poderes, a deusa conheceu sua irmã Ereshkigal, que anunciou que Ishtar deve morrer. Ela morreu imediatamente e seu corpo foi pendurado em uma estaca.
Enquanto isso, o deus Enki soube que Ishtar estava desaparecida, e enviou dois mensageis para lhe restaurar a vida. Porém, para deixar o submundo, Ishtar precisaria substituir seu corpo por outro. A deusa ofereceu então seu jovem marido, Tamuz, para tomar seu lugar.

Este conto claramente representa o eterno ciclo de vida, morte e renascimento pelo qual passamos.

Ishtar era celebrada no hemisfério norte próximo do equinócio de primavera – bem próximo das festividades de Páscoa… Que coincidência, não? Nesta época, as pessoas decoravam ovos – símbolos de fertilidade – e os escondiam pelos campos, participando de uma brincadeira para encontrá-los depois.

Fonte: http://portal-dos-mitos.blogspot.com.br/2013/03/ishtar.html


Bem, como eu sigo a roda do ano equivalente ao meu hemisfério, estou aqui me preparando pra o Samhain que está chegando. Boa Páscoa para quem é de Páscoa 😉

Casa

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This little light of mine

Eu não me apego a lugares.

Da minha primeira casa, não lembro de muita coisa. Eu era só um bebê, um ano, um ano e pouco. Tenho umas lembranças de chuva caindo depois de uma tarde quente, e o cheiro de jasmim na calçada.

Da casa onde morei por mais tempo me lembro de todos os detalhes. Inclusive, quando sonho que estou em casa, é sempre lá. O apartamento pequeno mas cheio de vida, as tardes de sábado fazendo faxina e escutando música; brigar com a irmã, fazer as pazes, fazer cócegas em mamãe até ela quase chorar. Encenar peças de teatro improvisadas para o Dia das Mães. Árvore de Natal de papel. Disputar a única televisão numa sexta-feira à noite. Ajudar minha avó a fazer bolo.

Depois, teve o meu primeiro cantinho. Era um apê tão pequeno que a geladeira ficava escondida em um vão entre o banheiro e o quarto. Eu tomava café na área, apoiando a perna no tanque enquanto via o mundo apressado lá embaixo. Tardes divertidas com amigas; o sofá-cama vermelho; a mesa redonda; a pilha de roupa suja. O fim e o recomeço.

Quando tive que abrir mão desse meu canto e voltar a morar com minha família, me senti um lixo. Derrotada, acabada. Que pessoa é essa que não consegue pagar as próprias contas aos vinte e tantos anos? Como pode isso? Eu me sentia uma estranha naquela nova casa – sim, a família também já havia se mudado. Houve mais lembranças tristes também naquela nova casa quando minha avó se foi. Era difícil não relembrar o quanto ela sofreu no fim da vida.

Então houve a mudança. Vamos todos para um apartamento maior. Um quarto imenso, para mim e minha irmã do meio. É temporário, eu disse a mim mesma. Logo, logo, eu vou ter um canto para chamar de meu novamente.

E assim foi. Eu percorri quilômetros, subi a serra, encontrei um canto meu. Um canto para dois. Um canto para dois e um gato – quem sabe, filhos? Mas o Destino não quis assim.

Depois de cinco anos neste canto, uma estranha em uma terra de estranhos, eu faço a viagem de volta ao ninho. Mais madura, muito mais consciente de mim mesma, do meu valor e da minha capacidade. Incapaz de me encolher dentro da jaula, eu voo na direção de casa feliz. Feliz por saber que terei a melhor acolhida, e por compreender que o Destino é inexorável.

Tudo será como deve ser.


Há alguns dias, estava conversando com uma grande amiga e ela me lembrou de uma passagem de O Senhor dos Anéis muito memorável, na qual Aragorn conversa com Éowyn:

— O que teme, senhora? — perguntou ele.

— Uma gaiola — disse ela. — Ficar atrás de grades, até que o hábito e a velhice as aceitem e todas as oportunidades de realizar grandes feitos estejam além de qualquer lembrança ou desejo.

O que terá acontecido a Baby Jane?

(Ou: aqui vai uma tentativa de romper o hiatus criativo que minha mente anda sofrendo)

Desde que fiquei sabendo sobre a nova série que irá contar a história da rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, estabeleci a mim mesma que precisava ver (e rever, em alguns casos) os filmes dessas grandes estrelas de Hollywood.

A série que irá estrear este ano pelo canal FX chama-se Feud: Bette and Joan, e é do mesmo criador de American Horror Story, Ryan Murphy. No elenco teremos Jessica Lange como Joan Crawford e Susan Sarandon como Bette Davis.

Reconheço que assisti menos filmes em preto e branco americanos do que gostaria, mas dentre eles tem pelo menos dois estrelando Bette Davis. Eu já a adorava simplesmente por causa da música Bette Davis’ Eyes

Imagem relacionadaMas enfim, neste fim de semana assisti a O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane), filme de 1962. Eu já havia assistido a algumas cenas, mas nunca ao filme todo. Minhas expectativas estavam altas e eu não me decepcionei.

Baby Jane Hudson (Bette Davis) é uma antiga estrela mirim de teatro vaudeville que, como costumava acontecer, perdeu sua fama conforme foi envelhecendo. Sua irmã Blanche (Joan Crawford) acaba crescendo e se tornando uma grande estrela de cinema. Porém, após um misterioso acidente de automóvel do qual Jane é tida como culpada, Blanche acaba ficando paraplégica e recolhe-se do mundo e passa a depender de sua irmã Jane para tudo. O trailer do filme é uma delícia.

Baby Jane é uma vilã formidável: alcoólatra, mentalmente desequilibrada, totalmente apegada à sua infância gloriosa, ela odeia a irmã e a maltrata física e psicologicamente sempre que pode. Todas as tentativas de Blanche para pedir ajuda são frustradas. Ela se encontra totalmente à mercê de sua irmã.

Gostei muito da trilha sonora, é bem característica dos filmes da época, com temas de fundo grandiosos e em compasso com as cenas. Tem uma canção específica que está na minha cabeça até agora: I’ve written a letter to daddy, que é cantada várias vezes e tem um tema instrumental também. A minha cena favorita com esta canção é quando Baby Jane canta, já mais velha:

 

A Blanche interpretada por Joan Crawford é bastante introspectiva, acuada, medrosa, representando bem como alguém passa a se comportar ao sofrer abusos psicológicos. Reconheço que adoro todas as cenas em que Jane fala alguma coisa para ferir Blanche (eu tenho um fraco por vilãs). São duas grandes atrizes aproveitando suas contendas fora das telas para nos dar representações memoráveis. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar, entre elas Melhor Atriz (Bette Davis) e Fotografia Preto e Branco e Figurino, ganhando apenas este último. Tanto Joan Crawford quanto Bette Davis foram indicadas ao BAFTA de Melhor Atriz Estrangeira.

Encontrei no Medium um texto (em inglês) muito interessante sobre o filme e o diretor Robert Aldrich. Vale a pena a leitura 😉

 

Atlas de Nuvens

Cartas escritas por um viajante percorrendo as ilhas do oceano pacífico,no meio do século XIX. O diário de um jovem músico brilhante e bon-vivant em sua estadia na Bélgica dos anos 1930. Um thriller de suspense e intrigas empresariais passado nos anos 70, tendo como cerne uma jornalista perspicaz. As peripécias de um senhor de quase setenta anos ao ser internado em um asilo na Inglaterra, por volta de 2010. A entrevista de uma clone que despertou de sua inércia em uma sociedade distópica na Coreia, em algum tempo no século XXII. Um velho conta a história de sua juventude a um grupo de jovens no que já foi a ilha do Havaí, alguns séculos adiante.

E de alguma forma sutil e verdadeira, tudo está intrinsecamente conectado.

Resultado de imagem para atlas de nuvensCloud Atlas – ou Atlas de Nuvens, na tradução para o português – é um livro de 2004 escrito por David Mitchell. Recebeu vários prêmios e foi adaptado para o cinema em 2012 contando com um elenco estelar: meu querido Tom Hanks, Hugo Weaving, Halle Berry, Hugh Grant. Foi dirigido pelas irmãs Wachowski (aquelas de Matrix). Aqui no Brasil, a adaptação recebeu o nome de A Viagem. Acho que pros noveleiros se lembrarem daquela novela que passou na Globo há uns anos e falava sobre reencarnação.

O meu primeiro contato com Cloud Atlas foi pela adaptação cinematográfica. Reconheço que faço parte do grupo de 14 pessoas que gostou da história. Não se pode sequer piscar durante o filme, se não você perde alguma informação importante, deixa de ver algo crucial para conectar todos os pontos, ou deixa de entender alguma pista. Assisti no cinema, e muitos anos depois vi novamente na televisão.

Quando descobri que não era roteiro original, saí em busca do livro. Eu precisava ler o original, porque sabia que não podia ter só aquilo que vi no cinema. Ganhei o bendito como presente de Natal ano passado e comecei a ler de imediato. Dito e feito: a experiência do livro é muito mais profunda e intensa. Foi um daqueles volumes que eu demorei a terminar quando cheguei perto do final, simplesmente porque não queria que terminasse.

A capacidade do David Mitchell em adaptar seu próprio modo de escrever a cada trecho da narrativa é impressionante. Parece que várias pessoas diferentes escreveram, mas ao mesmo tempo podemos perceber que foi uma única mente que amarrou tudo. A minha parte favorita é a que conta a história de Sonmi-451, uma clone criada para servir aos seres humanos possuidores de almas (obs: alma aqui tem outro sentido). Várias palavras foram adaptadas, criando novos significados. Eu conseguia visualizar muito bem a distopia proposta pelo autor. Uma passagem no final da entrevista de Sonmi-451 ao arquivista (ou carceceiro) explicita muito bem a linha narrativa do livro inteiro:

Você lamenta a vida que levou?

Como posso lamentar minha vida? Podemos lamentar uma ação escolhida livremente, porém errônea; mas o livre-arbítrio não desempenha nenhum papel na minha istória.

 

Vai logo alugar na locadora do Paulo Coelho!

Atlas de Nuvens é um daqueles raros casos em que eu recomendo assistir a adaptação primeiro e depois ler o livro. Acho que assim a frustração é menor. Acredito que a experiência cinematográfica ficou limitada justamente por causa do tempo de tela: no livro tem história para pelo menos uma minissérie. E eu já falei da trilha sonora?

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Eu ando muito atrasada em tudo: nas minhas leituras (de livros e quadrinhos), nos meus escritos, na minha volta aos exercícios físicos, nas minhas séries e filmes… Daí semana passada dei um pause na maratona de Absolutely Fabulous  e resolvi ver um filminho de terror. Só pra relaxar, sabe.

O Babadook é um filme australiano de 2014, muito bem dirigido e com um roteiro bem amarrado. Acompanhamos a vida de uma mulher, viúva e com um filho prestes a fazer sete anos. Ela vive sob o trauma da morte do marido: ele morreu em um acidente de automóvel enquanto os dois seguiam para a maternidade. O relacionamento dela com o filho é conturbado, e o guri está naquela idade de ver monstros embaixo da cama, dentro do armário, nos cantos escuros do quarto…

À noite, quando ela vai pôr o filho para dormir, ele pede que ela leia uma história. Ela encontra na estante do quarto um livro de capa vermelha e uma figura sinistra desenhada. O título do livro: O Babadook.

If it’s in a word, or if it’s in a book
you can’t get rid of the Babadook
If you’re a really clever one
You’ll know just what to see
And you can be friends with a special one
A friend of you and me
His name is Mister Babadook
And this is his book
A rumbling sound then 3 sharp knocks
Ba BA-ba dook, dook, DOOK

Se está numa palavra, ou se está num livro
Você não pode se livrar do Babadook
Se você for esperto
Vai saber o que ver
E você pode ser amigo de alguém especial
Um amigo meu e seu
Seu nome é Senhor Babadook
E este é o seu livro
Um som estrondoso, e depois 3 batidas fortes
Ba BA-ba dook, dook, DOOK

 

Medo, angústia, depressão pós-trauma, solidão… Tem tudo isso neste filme. O melhor de tudo é ver o uso maravilhoso de som e sugestão do terror. Ótima pedida para quem gosta do gênero. Recomendo também o vídeo do canal Entre Planos sobre o filme – mas cuidado, tem spoilers:

Metallica, Lady Gaga e o purismo musical

*Ouvindo Hardwired… to Self-Destruct, álbum novo do Metallica*

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Vou tirar uma fotinha na mesma posição e substituir a Gaga, foi mals aê

Domingo passado aconteceu a premiação do Grammy 2017. Não acompanhei a cerimônia, mas sabia de alguns dos indicados e depois li sobre os vencedores e as apresentações musicais. É claro que, dentro da minha bolha quase 100% roqueira no Facebook, o que mais apareceu foram comentários sobre a apresentação do Metallica com a Lady Gaga.

(Inclusive, na semana passada eu estava preocupada com o James. Parece que tiveram que cancelar uma apresentação porque ele estava com problemas de saúde, um lance na garganta. Parecia sério… E assistindo a apresentação deles no Grammy, fiquei ainda com mais pulgas atrás da orelha. Mas enfim…)

Então, vocês viram a apresentação? Não? Então peraí:

O que primeiro me preocupou foi o problema no microfone do James. Ele mexia os lábios e nenhum som saía. Primeiro eu lembrei do lance na garganta e imaginei que o problema fosse com ele; meio segundo depois descartei essa possibilidade, porque o Lars não ia ser maluco de concordar em se apresentar se alguém ali estivesse com a saúde debilitada (ou iria? Sei lá, é o Lars, né). Aí o James faz o mais óbvio: canta um pedaço junto com a Lady Gaga em outro microfone. Lá por 1:53 de apresentação, parece que consertam o problema no microfone. Mesmo assim, senti a voz do James bem mais baixa e às vezes meio fraca. Daí me voltou a paranoia do problema na garganta. O cara não devia estar 100% mesmo.

Pausa para apreciação do visual Steve Zissou do Lars.

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Juro que só me lembrava do Bill Murray e esse gorrinho

Visivelmente chateado no final, James derruba o pedestal do microfone e vai-se embora pro camarim. Ô dó!

*Mudando a música de fundo para Lady Gaga – Joanne*

Só quem é surdo não percebe o quanto a Lady Gaga é uma ótima cantora. Você pode não gostar do estilo musical, das peripécias no palco e da persona que ela criou para si, mas dizer que aquela mulher não sabe cantar, ah, isso não. Não sou fã de tudo o que ela faz, longe disso; mas eu consigo perceber que ela tem potência, afinação e sabe muito bem o que está fazendo. Ela tem formação musical e deve conseguir cantar praticamente qualquer coisa. E cara, que invejinha dela cantando com uma das minhas bandas favoritas…

Desde aquele fiasco que foi o Saint Anger (desculpe aí quem gosta, máximo respeito), o Metallica vem ora acertando, ora titubeando. Eu gosto muito do Death Magnetic (2008): tem pelo menos sete músicas ali que eu adoro. Esse álbum é bem mais pesado que os últimos, as letras são boas, o baixo tá delicioso (o James também, mas pra mim isso é sempre hehe). Sobre o novo trabalho, Hardwired… to Self-Destruct, tenho ainda minhas ressalvas. Acho que por ser grandioso demais ainda não consegui ouvi-lo inteiro – e isso pra mim é meio que um defeito. Mas eu sempre espero ouvir os mesmos caras tocando alguma coisa diferente, sabe? Não espero que um trabalho do Metallica seja igual ao anterior. Talvez por isso eu não me considero uma fã purista de música.

O purista é aquele cara que repete por aí que bom mesmo era o Kill ‘em All, o resto é tudo musiquinha pra dormir. É aquele cara que não permite uma firula diferente na apresentação ao vivo – tem que estar IGUAL ao álbum, tô aqui pra isso. É aquele serumaninho que desconsidera participação de outros artistas, PRINCIPALMENTE quando não são do mesmo estilo musical.

Eu acho que todo mundo pode ser feliz: basta o purista ficar só com os trabalhos “de raiz” e nem sequer dar uma chance ao que foge disso, enquanto o não-purista tem a experiência total e gosta – ou não. Também não precisa bater palma pra tudo.