Frio pequeno coração

 

Did you ever want it?
Did you want it bad?
Oh, my
It tears me apart
Did you ever fight it?
All of the pain, so much power
Running through my veins
Bleeding, I’m bleeding
My cold little heart
Oh I, I can’t stand myself

And I know
In my heart, in this cold heart
I can live or I can die
I believe if I just try
You believe in you and I
In you and I

Did you ever notice
I’ve been ashamed
All my life
I’ve been playing games
We can try and hide it
It’s all the same
I’ve been losing you
One day at a time
Bleeding, I’m bleeding
My cold little heart
Oh I, I can’t stand myself

And I know
In my heart, in this cold heart
I can live or I can die
I believe if I just try
You believe in you and I

Maybe this time I can be strong
But since I know who I am
I’m probably wrong
Maybe this time I can go far
But thinking about where I’ve been
Ain’t helping me start


Abertura de Big Little Lies, série da HBO. Música muito apropriada para este momento.

Universos paralelos

Há algumas semanas, no auge da presença de Clarisse (não é minissérie inspirada nos textos do Nelson Rodrigues, não; é como eu chamo a minha TPM), me peguei pensando como teria sido a minha vida se eu não tivesse feito as escolhas que fiz. É, eu caí nessa armadilha terrível. Terrível porque não há “a outra escolha”.

universo-paralelo
“Espero que o Eu do universo paralelo esteja indo bem nesse momento”

Nós somos fruto daquilo que escolhemos, todos os dias. Desde que acordamos até a hora de dormir. O curioso nesse pensamento é que não me ocorreria em dias de taxa hormonal estável porque eu sei que esse outro Eu que foi para um caminho diferente não existe.

Isso é reconfortante e desesperador ao mesmo tempo, porque uma parte de mim espera que o meu outro Eu no universo paralelo esteja indo melhor.

Espelho

Clarisse está aqui me fazendo companhia. O cheiro de cigarro de canela envolve sua imagem enquanto ela se serve de mais uma xícara de café.

_ Você sabe o que devia estar fazendo, né.
_ Sim – respondo.
_ E mesmo assim não vai fazer?
_ Não tô com cabeça pra isso hoje.
_ É só colocar uma palavra depois da outra. Você sabe. É fácil.
_ Não é tão fácil quanto parece.
_ Ah, que nada! Aposto que eu consigo fazer.
_ … Você já fez, lembra?
_ Huum, é verdade! Viu só? Isso só prova que eu estou certa.
_ Mas não é assim. Eu não posso escrever qualquer coisa. Depois fico frustrada, achando que tudo o que eu faço é um grande pedaço de bosta.
_ Você é muito dramática.

c4f4de3153252083a9d0ea6ab3808526

Ela vai até a varanda. Ela brinca com o gato. Ela belisca a própria perna para ter certeza que está viva. Ela acende mais um cigarro.

_ Vai ficar tudo bem.

Eu me surpreendo com aquelas palavras. É a primeira vez que Clarisse parece demonstrar alguma amizade.

Ou talvez seja eu mesma me olhando no espelho e repetindo essas palavras até que elas se tornem realidade.

Blue monday

Resultado de imagem para blue monday

No hemisfério norte, a terceira segunda-feira de janeiro é considerada a data mais triste do calendário. Deve ser por causa do inverno – o frio, a vontade de não sair de casa, não fazer nada, esperar o dia terminar.
Tem até nome para a data: blue monday. Em inglês, o azul é a cor da tristeza. Faz sentido, principalmente se você ouve um blues numa segunda-feira triste.

Não sei se foi a lua cheia, invisível no céu nublado; ou a melancolia de verão; ou a saudade dos dias na praia, de sentir que a água salgada me ajudava a purificar a alma. Sei que ontem a segunda-feira estava bem azul. Azul escuro, petróleo, profundo, índigo. Íntimo.

A ascensão e o declínio do Projeto Vampira

Desde os meus tenros quinze anos, sempre quis fazer loucuras no cabelo. Queria pintar de mil cores, fazer penteados diferentes, cortes assimétricos e tal. Já cortei bem curtinho pelos motivos mais variados: quando criança, por causa de piolho; agora adulta, fiz o chamado big chop para voltar ao cabelão ondulado e cheio. Já fiz muito alisamento, escova de tratamento; já usei mil cremes e misturinhas que prometiam mundos e fundos. Já pintei de vermelho, preto azulado, castanho, bordô. Enfim, já pintei e bordei com o meu picumã.

xmenl35De uns anos para cá, estava obcecada pela ideia de ter o mesmo cabelo da personagem Vampira, dos X-Men. “Poxa, o volume e as ondas no cabelo eu já tenho… Então, por que não?”, pensei. Aí começaram as pesquisas para saber como conseguir o resultado. Como desde o início do ano, após o último corte, iniciei o tratamento com produtos sem sulfatos e parabenos (sou agora adepta do método low poo), fui tentar conferir se seria possível mudar a cor e manter o tratamento. Encontrei canal de gente que faz low poo e pinta o cabelo de mil cores. Li, reli e treli as resenhas dos produtos. Conversei com a minha cabeleireira, pedi opinião.

“Olha, vai ter que descolorir”, ela disse.

Bem, disso eu já sabia, né. E tava preparadona pra cuidar depois.

Ah, vai ressecar um pouco. Mas eu tô tratando, comprei os produtos certos, vamos pensar positivo e pôr as mãos nesse projeto!

 

 

Durou dois dias e umas treze horas.

Não ficou como eu esperava e eu, sinceramente, não tenho paciência para esperar que tome jeito. Impulsiva (com as minhas coisas) do jeito que sou, já fui comprar a henna e estou aqui, esperando tonalizar.

cyndiClaro que eu sempre vou ter a lembrança em vídeo da expressão no rosto de mamãe quando me viu com o cabelo descolorido, meio branco, meio loiro. Isso será eterno. Ter sido comparada a Cyndi Lauper também. Os amigos mentindo pra mim e dizendo que tinha ficado legal, também. Prova que vocês me amam até quando eu faço merda ❤

Mas eu me olhava no espelho e não gostava, e a minha autoestima não me permite isso muitas vezes ao dia. Eu preciso pelo menos tolerar o meu reflexo.

Isso só me fez admirar ainda mais pessoas que pintam o cabelo de fúcsia, raspam a cabeça, fazem tatuagem definitiva, colocam piercing onde bem entendem. Eu tentei, mas não sou forte o suficiente.

Ou então sou forte o suficiente para perceber quando faço merda, e adulta o bastante para tentar consertá-la.

Confortavelmente entorpecida

Momentos de clareza e sublime felicidade me vêm de tempos em tempos, no auge da intoxicação. Já tive maravilhosas epifanias nas quais, no meio da mais tenebrosa tempestade, sentia as mãos invisíveis dos Deuses afastarem as nuvens e soprarem no meu ouvido:

_ Não, garota. Você é melhor do que isso.

Ultimamente, a rotina e o trabalho me tomam todo o espaço-tempo. Sinto-me gasta, empoeirada, sem perspectivas; sinto-me sobrevivendo, e não vivendo. Isso já não me assusta – e por não me assustar, sinto medo.

_ E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão.

Aos 15 anos, eu tinha absoluta certeza que morreria aos 20 e poucos anos. Não chegaria aos 30, ah não. Como poderia? Não me via pagando contas, voltando cansada do trabalho, tendo responsabilidades. Não que eu não quisesse; simplesmente achava que não era para mim. Considerando que foi por volta dos 15 anos que despertei para The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e afins, era claro para mim que eu morreria cedo – por acidente ou overdose, ou engasgaria com meu próprio vômito, ou dormiria numa banheira para nunca mais acordar.

Mas aqui estou, trinta e quatro primaveras idas. Aqui estou, confortavelmente entorpecida. Esperando o relógio tocar para me chamar ao trabalho. Esperando o salário cair na conta. Esperando o trem. Esperando o fim de semana. Esperando o arquivo baixar. Esperando outubro chegar. Esperando o beijo doce da Morte.

Esperando.

The child is grown
The dream is gone
And I have become
Comfortably numb.

Em dias cinzas

 

Meu amor, não mais deixes escapar
Nenhum desejo no teu olhar
De pecados proibidos, esquecidos

Minha flor,
Não mais deixes o azul dos dias nos calar
Pois nesse mundo algo há
De valer a pena, pequena

Meu amor, me faça acreditar
Que tudo é possível,
Pois eu temo que não amanheça
Se você se for

Nos dias amanhecidos de saudade
Coberta pelo áspero lençol da distância
Espero impaciente que o dia se esvaia.

Admirando gatos alheios – mas pensando nele

Estou tentando voltar aos bons hábitos de exercícios físicos, além da reeducação alimentar. A meta, como falei para o professor da academia, é melhorar a qualidade de vida.

Um dos desafios é acordar mais cedo que de costume e ir caminhar. Estou alternando estes dias com a musculação – imaginem só, a balzaquiana frequentando academia pela primeira vez! Não escondo que os dias em que vou dar uma volta na vizinhança são menos doloridos que os outros. Principalmente porque posso ver vários gatinhos.

IMG-20160119-WA0000
Spock ❤

Adultos, filhotes; pretos, brancos, malhados, cor de burro quando foge; ainda em amamentação ou já velhinhos; machos e fêmeas. Assim eu acalmo um pouco o meu coração cheio de saudades do meu Spock, que ficou lá no alto da serra.

Essa vida meio que na ponte aérea é muito difícil. Eu agora tenho duas casas – claro, a casa da minha mãe sempre será minha também, sei que sempre serei bem-vinda. Mas sabe aquele sentimento de que o meu cantinho é lá? Os móveis que eu escolhi, a cor sem graça das paredes, a cozinha, a confusão dentro do armário… Tem o meu cheiro, a minha forma, a minha marca.

Tem o meu gato. Tem o meu amor.

Conversas

Duas mulheres conversam.

A mais velha, acometida por uma doença, encontra-se convalescente e anseia por retomar sua rotina. Nunca lhe foi tão penosa a falta do trabalho – não só financeira mas também psicologicamente. Suas crises de tensão pré-menstrual transformaram-se em uma entidade própria, que a visita em intervalos agora não tão regulares. Dependendo do mês, parece até mesmo que mudou-se em definitivo para dentro da casa. Ela quer sentir-se útil, ativa, saudável novamente.

A mais nova, acometida por uma desilusão amorosa, encontra-se convalescente mas propensa a recaídas. A montanha-russa de emoções é seu veículo constante: uma hora sente-se muito bem, segura de si, um mundo de possibilidades a seus pés; outra hora sente-se fraca, a cicatriz recente no coração parece querer se rasgar. É difícil abrir-se e contar mesmo aos mais íntimos sobre seus pensamentos, medos, anseios. Ela quer sentir-se plena, confiante, feliz novamente.

O que há em comum?
As duas estão acima do peso. Pelos mais diversos motivos. Genéticos, principalmente: os biotipos não são propensos à magreza. As duas cresceram ouvindo que mulher bonita é mulher magra, jovem, cabelo liso. Mulher tem que se cuidar, se não ninguém quer. Mulher tem que se dar o valor. Não pode usar qualquer roupa. Sem maquiagem, nem pensar. Também não pode pintar a cara igual a uma palhaça. Tem que ser magra com corpão: bundão, peitão, coxa malhada.

O que há de diferente?
A mais velha começou a tentar se ver com mais amor e menos cobrança. Está aprendendo a se amar vestindo qualquer tamanho de roupa, desassociar a imagem de magreza à beleza. Não, não tem que ser magro pra se amar. Eu posso deixar de pintar o cabelo a hora que eu quiser. E daí se tenho cabelos brancos? O cabelo é meu e eu faço o que quiser com ele, inclusive deixar de alisar. Tenho que cuidar da minha saúde, sim: física, psicológica, amorosa… Isso nada tem a ver com magreza ou cabelo liso. Uso maquiagem quando estou com vontade. Uso a roupa que eu quiser, a que me faz feliz. Quem dita as regras do meu corpo sou eu, e não uma revista qualquer escrita por outra pessoa. O valor que eu me dou é o meu amor: eu valorizo a minha pessoa por inteiro, com a minha ética, retidão e empatia. A perda de peso será decorrência das mudanças para uma alimentação mais saudável e uma vida menos sedentária – será o resultado, mas não o objetivo. O objetivo é se amar, de qualquer forma.

A mais nova ainda não chegou a esse ponto do caminho: está ainda lambendo as feridas, aprendendo a cuidar do coração. É um eterno aprendizado, na verdade: eu acerto aqui, mas posso errar lá. Não posso ficar parada, remoendo o que se foi. Vou tentar guardar as lembranças boas em uma caixinha e mais tarde, quando quiser, vou revê-las com carinho. Agora é hora de limpar o terreno para o novo que virá. E preciso emagrecer, malhar, me sentir melhor.

Nessa estrada cheia de curvas, a gente nunca sabe qual é a melhor direção a seguir. E o caminho que uma escolheu pode não ser o que é melhor para a outra. O que podemos fazer, de vez em quando, é colocar umas placas pelo caminho e torcer para que quem vem depois consiga enxergar.