Weekend warrior

Em alguns momentos, a gente olha pela janela e tenta colocar todos os acontecimentos de nossa vida em perspectiva. É como se cada fato importante passasse diante de nossos olhos e a gente fosse percebendo os motivos, as falhas, os acertos, as oportunidades aproveitadas – ou desperdiçadas.

Isso costuma acontecer comigo todo dia de manhã, no trajeto para o trabalho. Observo as pessoas a minha volta e fico imaginando quais seriam suas lutas pessoais. Todo mundo é o protagonista de sua própria história e cada um de nós possui uma luta pessoal; isso é tão clichê que sinto até vergonha de dizer. Daí eu volto o olhar para dentro e tento ver quais são as minhas próprias batalhas.

Perceba que, para uma pessoa que se mostra expansiva, sociável e inteligente para o mundo, admitir a derrota é difícil. Mas eu percebo agora que as lições mais valiosas que aprendi foram justamente quando perdi alguma batalha.

Bem, eu estou aqui juntando as armas novamente e tentando me levantar. Vejamos o que virá pela frente.

And the game begins
The adrenalin’s high
Feel the tension maybe someone
Will die

Virar a página

4283447-the-ancient-book-and-old-goose-featherSou uma escritora amadora. Amadora porque me falta a dedicação e o esforço de um profissional.

Nos meus devaneios pelas estradas da escrita, já adaptei aquela imagem do Livro da Vida a um livro particular – um livro que cada ser humano possui. Nesse livro, cada um escreve o que viveu, como viveu; justifica suas escolhas, se arrepende; grava suas vitórias e derrotas.

Eu já perdi a conta de quantas vezes escrevi garranchos no meu livro da vida particular. Imagino algumas páginas já puídas, manchadas; o conteúdo dos dias quase incompreensíveis de tão emaranhados, as linhas tortas, a tinta falha das palavras. Claro que deve haver algumas passagens bonitas. Infelizmente, estou em um daqueles momentos da vida em que só consigo lembrar dos trechos mais sombrios.

Here I am, on the road again
There I am, up on the stage
Here I go, playin’ star again
There I go, turn the page

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Tem que rir

Ontem à tarde, no jornal local, assisti a uma reportagem falando sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. O jornal visitou uma fábrica da indústria automobilística da região e algumas funcionárias desta multinacional falaram a respeito do assunto.

A íntegra da matéria está aqui.

Uma das entrevistadas disse o seguinte:

_ Aqui na empresa, a gente tem um grupo bem diversificado. Principalmente o meu time, é dividido bem meio a meio. A gente tem bastante espaço, bastante respeito. Todo mundo trabalha aqui com o maior esforço possível para alcançar os resultados. Não tem diferenciação se você é mulher, se você é homem, se você é engenheiro, se você é engenheira. Todo mundo aqui está buscando o mesmo resultado e trabalhando junto.

Eu ri.

Eu ri porque fiquei imaginando quantas mulheres em cargo de chefia essa empresa deve ter. Ri porque pensei em quantas mulheres devem ser preteridas quando chega uma oportunidade de promoção. Ri porque fiquei aqui pensando o quão diversificado deve realmente ser esse grupo de trabalho. Aposto como a maioria das mulheres está em cargos de suporte/apoio, enquanto os cargos da área de Engenharia são dominados majoritariamente por homens.

Apenas 37% dos cargos de chefia no Brasil são ocupados por mulheres. No setor público, a presença feminina diminui conforme aumenta o salário dos cargos comissionados, aqueles de confiança. No setor privado, em cargos executivos de empresas no setor financeiro, somos apenas 10% – e existe diferença salarial. Em média, a mulher ganha 76% do salário de um homem na mesma função. Nos cargos de chefia, esse percentual cai para 68%. Não sou eu que estou dizendo: são informações do Pnad/2015, Boletim Estatístico de Pessoal
do Min. do Planejamento, TSE, União Inter-Parlamentar e Consultoria de RH Oliver Wyman.

Eu ri com essa reportagem porque a alternativa era chorar – e eu ando muito passivo-agressiva para chorar pelos outros.

As portas

Há momentos na vida em que nos deparamos com portas fechadas. A maioria das pessoas bate à porta, tenta abri-la de todo jeito – às vezes encolhe-se atrás dessa porta fechada e reclama baixinho (olá, Chico Buarque). Tem aqueles que procuram uma janela, uma fresta na parede, uma outra porta, qualquer coisa para continuar aquele caminho.

Tem gente que se fecha em sua concha, tentando entender onde foi que errou para que aquela porta tenha se fechado.

Na mitologia romana há um Deus chamado Janus. Ele é o deus das portas ou portais, dos começos e fins. Ele é representado com duas faces opostas – muitas vezes, uma face é feminina e a outra masculina. Em uma das mãos, Janus segura uma chave. Janus costumava ser adorado no início da época da colheita e do plantio; também era cultuado em casamentos, nascimentos e outros rituais de iniciação em eventos importantes na vida das pessoas.

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De acordo com algumas lendas, Janus abrigou o deus Saturno (Cronos) quando este estava fugindo de Júpiter (Zeus). Assim, foi agraciado com o dom de enxergar o passado e o futuro. Diz-se que as portas do templo de Janus mantinham-se abertas em tempos de guerra, para que o deus pudesse a intervir quando necessário. Em tempos de paz, os portões eram mantidos fechados. De seu nome originou-se o mês de janeiro.

Desde que iniciei meus estudos na Wicca, tento sempre ver até que ponto se estende o meu poder interno. Há uma certa medida, uma certa distância até onde conseguimos ir por meios próprios. E há também uma distância que não conseguimos percorrer sem ajuda; ou ainda caminhos que não estão prontos para nós naquele momento, por mais que tenhamos a convicção de que devemos segui-lo.

As portas enxergam o passado e o futuro. Quando uma porta encontra-se fechada, temos a chance de refletir, perceber onde estamos e qual o nosso poder interno naquele momento. De repente há uma outra porta aberta bem perto… Basta olhar em volta.

Universos paralelos

Há algumas semanas, no auge da presença de Clarisse (não é minissérie inspirada nos textos do Nelson Rodrigues, não; é como eu chamo a minha TPM), me peguei pensando como teria sido a minha vida se eu não tivesse feito as escolhas que fiz. É, eu caí nessa armadilha terrível. Terrível porque não há “a outra escolha”.

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“Espero que o Eu do universo paralelo esteja indo bem nesse momento”

Nós somos fruto daquilo que escolhemos, todos os dias. Desde que acordamos até a hora de dormir. O curioso nesse pensamento é que não me ocorreria em dias de taxa hormonal estável porque eu sei que esse outro Eu que foi para um caminho diferente não existe.

Isso é reconfortante e desesperador ao mesmo tempo, porque uma parte de mim espera que o meu outro Eu no universo paralelo esteja indo melhor.

Espelho

Clarisse está aqui me fazendo companhia. O cheiro de cigarro de canela envolve sua imagem enquanto ela se serve de mais uma xícara de café.

_ Você sabe o que devia estar fazendo, né.
_ Sim – respondo.
_ E mesmo assim não vai fazer?
_ Não tô com cabeça pra isso hoje.
_ É só colocar uma palavra depois da outra. Você sabe. É fácil.
_ Não é tão fácil quanto parece.
_ Ah, que nada! Aposto que eu consigo fazer.
_ … Você já fez, lembra?
_ Huum, é verdade! Viu só? Isso só prova que eu estou certa.
_ Mas não é assim. Eu não posso escrever qualquer coisa. Depois fico frustrada, achando que tudo o que eu faço é um grande pedaço de bosta.
_ Você é muito dramática.

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Ela vai até a varanda. Ela brinca com o gato. Ela belisca a própria perna para ter certeza que está viva. Ela acende mais um cigarro.

_ Vai ficar tudo bem.

Eu me surpreendo com aquelas palavras. É a primeira vez que Clarisse parece demonstrar alguma amizade.

Ou talvez seja eu mesma me olhando no espelho e repetindo essas palavras até que elas se tornem realidade.

Vizinhos

O único tipo de vida em sociedade que conheço é aquele que se passa dentro de condomínios.

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Prédio vizinho

Não tive a experiência de morar em uma casa independente, ter quintal, brincar com os amiguinhos na porta da rua. A gente brincava no parquinho dentro do condomínio, ou pedia pro porteiro interfonar pro 402, 707, 105 e ia juntando a criançada. Já ralei muito o dedão no estacionamento do prédio brincando de queimado. Também já fui preterida nas brincadeiras porque “você é filha de pais separados e eu não posso brincar com você”. Taí uma coisa dos anos 80 da qual não sinto saudades.

Agora que vivo no interior, percebo o quão fechado é o ambiente de um condomínio.É muito raro encontrar com alguém no elevador ou no corredor do prédio. Sei que convivemos por causa das vozes que vêm dos apartamentos vizinhos.

No andar de baixo tem um cara que adora cantar. Geralmente são músicas gospel, mas vez ou outra ele solta alguma do Seu Jorge, ou até algumas de charme em inglês, ou Mariah Carey. Eu estava até pensando em tocar a campainha e oferecer umas aulinhas pra melhorar a pronúncia, mas acho que ia parecer pedante, já que nunca fomos apresentados. Além do mais, não sei em qual apartamento ele mora.

Também tem a mãe da L. A L. é uma menina de uns cinco anos que vira e mexe faz alguma coisa que não deve e leva bronca da mãe. No início, quando eu a ouvia gritar com a filha e menina chorava, pensava mal da mãe da L. e dizia a mim mesma: eu nunca vou gritar com os meus futuros filhos. Só que percebi que eu não estou na pele da mãe da L. para saber o quão difícil foi o seu dia, ou que ela deve estar fazendo o seu melhor e mesmo assim não parece suficiente. Parei de julgar a mãe da L. e comecei a desejar que ela conseguisse respirar fundo, se olhar no espelho e dizer a si própria que ela se basta, que ela está indo bem. A mãe da L. me parece precisar de uma semana em um spa, longe de tudo, sendo paparicada. Sair pra dançar e tomar uns drinques cairia bem. Ser mãe e dona de casa 24 horas por dia deve ser realmente desgastante.

A minha vizinha mais misteriosa é uma senhora de idade que nunca vi. Vamos chamá-la de Dona E. Ela praticamente já estava aqui quando a primeira parede foi erigida. Não raro, tocam o meu interfone achando que é o apartamento da Dona E. Pelo pouco que sei, ela não pode sair de casa desacompanhada – acredito que pela idade avançada ou algum motivo de saúde – e sempre tem uma enfermeira ou acompanhante.

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Corredor do meu prédio

Na véspera de Ano Novo aconteceu de tocarem o meu interfone procurando pela Dona E. Na verdade, não foi bem assim: estavam tocando vários interfones, pedindo a alguma alma caridosa que pudesse descer para abrir o portão. Eram parentes da Dona E., e me explicaram que ela estava sozinha em casa e não conseguia se levantar para atender o interfone, e muito menos descer e abrir o portão. Dei um jeito no cabelo, calcei os chinelos e desci para fazer minha última boa ação do ano.
Fui recepcionada por um casal por volta dos seus cinquenta anos, cada um carregando alguma coisa para a ceia de Ano Novo.

_ Minha filha, muito obrigada mesmo! A Dona E. está sozinha, veja você. E é uma senhorinha de muita idade, é difícil para ela fazer qualquer coisa sem ajuda… E nós viemos pra fazer companhia.

Fico imaginando se eu deveria fazer um bolo e ir lá visitar a Dona E. Mas daí eu lembro que sou tímida e me fecho no meu casulo, protegida dos vizinhos pelas paredes e unida a eles pelas janelas.

Eu, essencialmente cigarra

essencial
adjetivo de dois gêneros
  1. 1.
    que é inerente a algo ou alguém.
    “a magnanimidade é sua qualidade essencial.”
  2. 2.
    que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental.
    “as questões essenciais de uma situação”
supérfluo
adjetivo substantivo masculino
  1. 1.
    que ou o que ultrapassa a necessidade, que é mais do que se necessita.
    “riqueza supérflua”
  2. 2.
    p.ext. que ou o que é redundante; desnecessário.
    “palavras supérfluas”

Ultimamente, venho pensando muito sobre o significado dessas duas palavras. Claro que a atual situação financeira me obriga a isso também, mas o antagonismo desses termos vem e volta já há algum tempo para mim. Lembro-me daquela frase d’O Pequeno Príncipe: o essencial é invisível aos olhos.

Imagem relacionada
Fonte: Níquel Nausea

Faz lembrar também aquela fábula da cigarra e da formiga, do Esopo. A cigarra só queria tocar seu violão, curtir o solzinho e farrear por aí. Enquanto isso, a formiga trabalhava dia e noite, diligentemente, preparando-se para o inverno que iria vir. Acabou que a cigarra vida-boa foi bater à porta da formiga, implorando por comida e abrigo durante o inverno. O final da história varia de acordo com cada autor. Na versão que li quando criança, a formiga ajuda a cigarra e esta promete trabalhar com afinco quando chegar a primavera. Em outras versões, mais antigas à essa e provavelmente mais fiéis, a formiga dá-lhe com a porta na cara e manda um “você que se vire, quem mandou ser vagabunda” na cara da cigarra.

Imagem relacionadaPois bem, eu sempre fui essencialmente (significado primeiro acima) uma cigarra. Não sei economizar. Não sei planejar. Não sei medir. Não sei prever o futuro. Um raio pode cair na minha cabeça; posso ser atropelada por um ônibus; ou vai vir o tão sonhado meteoro/planeta gigante que vai colidir com a Terra e nos livrar de toda a nossa comiseração. Então, eu vivo o carpe diem. Sempre vivi e nunca me arrependi disso.

Isso até sair de casa e ir morar sozinha. Daí eu comecei a ter de escolher entre o que é essencial e o que é supérfluo – mas entenda, isso varia de pessoa para pessoa. Eu costumava sair para dançar todo final de semana, religiosamente. Para mim, isso era essencial. Confesso que sinto falta dessa época, porque além do exercício aeróbico, era também catártico e funcionava como uma bela terapia. Considerava aquelas horas como válvula de escape para exorcizar os demônios da semana e limpar o corpo para os desafios seguintes.

Voltando à fabula: já pararam pra pensar que, de repente, as formigas conseguiram trabalhar melhor porque a cigarra estava lá, cantando e tocando seu violão, para alegrar o dia?

Agora, neste período de vacas magras, eu preciso medir, planejar, economizar. Não vou mentir: é muito difícil. Eu tento encontrar abrigo no que considero essencial: família, poucos amigos, meu companheiro, meu gato. Nos livros, filmes e séries que me servem de companhia. Nas histórias que brotam da minha cabeça. Nas músicas que ouço e fazem com que eu me sinta viva.

O essencial é invisível aos olhos, mas às vezes se materializa em alguma forma surpreendente.

Ano novo, vida nova

A minha resolução para 2017 é apenas uma: tentar ser uma pessoa melhor para poder ter um ano melhor.

Com isso em mente, comecei a escrever uma listinha de projetos a curtíssimo prazo: todo início de semana vou me propôr algumas tarefas e tentar concluí-las em sete dias. Comecei com nove itens e já eliminei um hoje, mas dada a minha crescente preguiça e tendência a procrastinação, tem bastante coisa que não vou conseguir fazer em apenas um dia.

Um desses miniprojetos é atualizar o meu currículo. Sim, eu faço parte dos 12 milhões de desempregados neste momento – e vamos ser realistas: a perspectiva para 2017 não é lá muito animadora. De qualquer forma, coloquei na cabeça que precisava reescrever o danadinho. Talvez um currículo de cara nova me ajude a encontrar um emprego novo.

Imagem relacionadaO modelo que escolhi é um daqueles no qual a gente precisa detalhar quais eram as atividades realizadas nos empregos anteriores, e nossa, nunca pensei que fosse tão difícil. Como vou resumir tudo o que eu fazia? Como condensar tudo de forma atrativa, correta e justa? E eu posso estar me esquecendo de anotar tudo. Vai passando um filme na minha cabeça: é como se eu estivesse rebobinando a fita (eita que coisa velha), pausando em alguma cena específica do trabalho e tentando resumir o que vejo.

Aí eu me pego pensando nas escolhas que já fiz. Mudar totalmente de área, vir para outra cidade, longe da minha família, recomeçar. Eu não me arrependo, porque acho sinceramente que me tornei uma pessoa melhor. Sair da nossa zona de conforto é bom. Faz com que a gente se depare com novas facetas de nossa própria personalidade.

Eu só preciso aprender a colocar isso tudo no papel, distribuir por aí e torcer para que alguém queira me dar uma chance.


E vejam só: com esse post-diário lá se foi mais um item concluído da lista 😉

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

De Ferreira Gullar


 

Desde que David Bowie foi fazer show no Mundo Invisível, logo no início do ano, 2016 tem levado talentos em saraivadas. Hoje, foi-se Ferreira Gullar.

Tá foda viver.