Clarisse compõe

Eu tinha me enganado. Pensei que ela já tivesse ido embora, sorrateira como sempre, deixando os cacos de minha consciência pelo chão. Ela sempre pisa nos menores, e o doce rastro de sangue acompanha seus passos como um véu de noiva.

Não, ela não tinha ido embora.

Clarisse ainda estava ali, me espreitando com seus olhos cínicos, o sorriso no canto da boca tão linda, tão minha.

_ Vai, escreve alguma coisa – ela me provocava enquanto acendia um cigarro.

Você sabe que eu não estou conseguindo escrever nada desde que você chegou.

_ Lembra aquele curso de escrita criativa?

Aquele que eu não terminei?

_ Esse mesmo.

É, lembro sim. Ainda tenho os arquivos guardados em algum lugar.

_ Pois lá dizia que era pra você tentar escrever todos os dias. Qualquer coisa, uma cena que fosse. Lembra?

chuva rio de janeiroEu lembro. Claro que lembro. Mas tenho me sentido tão exausta que não consigo nem fazer um maldito haicai.

Eu viro minha atenção para a paisagem. Clarisse suspira, entediada. De súbito, abre a boca:

Mar de inverno;
Descubro outra desgraça
Em cinza de jornal.

… Eu não acredito nisso.

_ Viu? – a fumaça do cigarro sobe graciosamente de suas narinas. – Nem é tão difícil assim.

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