Pesadelos reais

O Pesadelo, de John Henry Fuseli.
O Pesadelo, de John Henry Fuseli.

Hoje acordei de um pesadelo horrível.

Um cara alto e forte me perseguia. Ele usava um boné e eu não conseguia ver seu rosto direito. Não importava onde eu ia, ele vinha atrás de mim. Não importava com quem eu estava, ele tentava se aproximar. Eu ameaçava chamar a polícia, jogava o que encontrasse nele – sapato, pedra, o que fosse – mas não adiantava.

Eu tentava me esconder em um lugar seguro, mas ele conseguiu entrar lá. Sorrindo, pôs uma das mãos no meu rosto e me puxou para junto de si.

Acordei dizendo “não, não” e quase chorando. Ainda podia sentir a pressão de sua mão próxima ao meu pescoço.

Costumo sonhar as coisas mais diversas. Geralmente quando é um pesadelo, no fundo eu percebo que não é verdade: sempre tem algo fantástico, algo irreal demais para me fazer acreditar que aquilo possa acontecer. Este não foi o caso.

Na vida real, já tive dois casos de perseguidores. “Aaaah até parece que tu é gostosa pacas, né”, alguns podem dizer. Só que se esquecem do seguinte: quem assedia quer exercer o seu poder sobre o outro. Quer tirar a liberdade de escolha do outro – seja quem for. Para o assediador, não importa altura, peso, idade, fenótipo, beleza. Ele escolhe um alvo – seja por algum motivo, seja por nenhum em especial – e pronto.

Estou tentando me acalmar, mas não sei se vou conseguir sair da minha concha hoje. Tenho a impressão de que esse perseguidor do sonho pode estar me esperando ali na esquina.

Eu do futuro

Eu me vi no futuro. Não, não foi assim: eu vim do futuro e me visitei aqui, no passado. Ainda sinto um fio de consciência me puxando para lá.

Eu do futuro sou plena. Não há palavra melhor que possa me descrever. Eu sabia que sabia. É estranho, não? Eu sabia – mesmo quando não tinha a resposta para alguma pergunta, eu sabia disso e não me incomodava.

Eu do futuro sei feitiços que eu mesma criei. São os mais poderosos possíveis, porque são feitos da sua própria essência, da sua magia. Tem uma parte de mim aqui, em cada palavra, eu me disse. E voltei o olho da mente para o eu do passado e me ensinei o primeiro feitiço que preciso saber.

E então eu acordei.

Era o fim do mundo

Uma tempestade me acordou.

Ouvi o miado do gato, quase um general, ordenando-me a levantar, fechar as janelas, secar a água da chuva que molhava o chão.

Adormeci com o rádio ligado. Estava mal sintonizado, mas ainda conseguia ouvir a melodia.

Steal away in the morning
Love’s already history to you
It’s a habit you’re forming
This body’s desperate for something new
Just A Matter of Feeling
These moments of madness are sure to pass
And tears will dry as you’re leaving
Who knows, you might find something to last…

A janela do quarto parecia que ia se quebrar a cada rajada de vento. Fechei o basculante e travei os vidros. Corri para a sala, o gato nos meus calcanhares. Rápido, ele miava. Rápido, repetia.

O céu era um mar revolto em noite sem estrelas. Algumas vezes iluminava-se com raios. Eu podia sentir os trovões no meu estômago. No prédio da frente, as pessoas aglomeravam-se nas varandas. Gritavam, horrorizadas, apontando para baixo.

No lugar da rua, havia um rio. Os carros flutuavam. Tudo estava tomado pela água.

Fechei a janela da sala, rezando para que o vidro já trincado pudesse manter a tempestade lá fora.

Um trovão, e outro, e mais um. Um raio caiu no prédio da frente e pude ver uma grande rachadura no concreto. O que pensei serem trovões era, na verdade, o som do prédio ruindo. Pessoas caíam das varandas; algumas voavam por alguns metros antes de sumir na água lá em baixo.

Ajoelhei no chão. O gato sentou-se ao meu lado.

O que vamos fazer?, ele miou.

Então eu acordei.