Dores, amores

O primeiro amor foi uma facada no peito
Uma ferida aberta na água salgada
A embriaguez etérea, a ressaca
O retorno do boêmio ao bar
Inefável, infalível pedestal
E quando acabou, tu juravas que morreria
Que não haveria outro dia
– Mas o dia veio.

O segundo amor foi um estilhaço de vidro
Curando aquela ferida no peito
Um aprendizado tardio, um caminho estreito
Sobre a fina corda bamba do medo
Sobre a cabeça, um Fedora marrom
E quando acabou, tu juravas que morreria
Que não haveria outro dia
– A madrugada entrelaçada ao teu pescoço em agonia.

Que o terceiro seja o amor próprio
Pois assim, quando acabar,
É certo que tu morrerás.

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A mosca

mosca

Repousa o ventre sobre puído lençol
– Nas pernas vermelhas, os beijos
De juras apertadas por cinto de couro –
Ela arfa, ronrona – sorri ao rouxinol
Cantante em sua mente adormecida.

Sozinha no quarto, a amante tão bela
Repousa seus castanhos cachos sobre o travesseiro;
No quarto, perdura o insistente cheiro
Do profundo êxtase das almas. A vela
Ao canto, tremeluzia e queimava-se por inteiro.

Zunindo no silêncio, o amante tardio veio.
Guiado pelo tão pungente anseio
Esgueirou-se pela cortina, incerto, matreiro.

Pousou as delicadas patas sobre a coxa morena.
A pele suava, obscena.
Queimava-lhe a visão de tamanha beleza.

Seus muitos olhos admiravam o sumo da vida
Que branco e leitoso pingava.
Queria-lhe sorver sua paixão líquida
Até rebentar-se a barriga inchada.

A mosca chegou-se, zumbindo doce
Esfregou as patas sofregamente
A boca afunilada na boceta encostou
E o sumo feliz ela tomou.

A bela dormia, e dormindo ficou.
Mas trinta e cinco dias depois
De seu ventre arrebentou
Uma nuvem negra, zumbindo em seu louvor.

 

Mais

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Theda Bara. Fonte: http://www.boweryboyshistory.com

Era como se tivesse acordado de um torpor.

Sentia sede, sempre. A garganta seca, os lábios ávidos. Os olhos vidrados em busca de um cálice, um oásis, uma gota no deserto.

Ela sentia sede sempre. Não sabia o porquê. Naqueles últimos dias, sabia muito pouco sobre tudo: era uma criança desperta, neófita, sorvendo todo o tipo de conhecimento em que conseguia pôr as mãos.

Ela queria mais.


Talvez seja um argumento para uma história de vampiros. Talvez seja autobiográfico. Talvez não 😉

Cena do cotidiano 6: castanhas portuguesas

Tinha sido um começo de semana difícil para mim. Enxaqueca, dúvidas, tentativas em voltar a fazer exercícios físicos e vencer a preguiça de sempre. Tomei um banho frio, troquei de roupa e me convenci a sair de casa naquela tarde, rezando para que a chuva de verão não caísse logo.

Paguei a conta de luz, passei no trabalho de uma amiga e conversei um pouco, depois fui ao mercado. Não estava com a mínima vontade de cozinhar e o menu da noite seria pizza ou comida japonesa. Na cesta de compras havia apenas o básico para sobreviver mais um dia: iogurte, erva mate, suco de uva para o namorado, suco de cevada para mim. Fiquei atrás de uma senhora na fila do caixa rápido. Na cesta dela havia apenas um item: castanhas portuguesas.

Resultado de imagem para castanhas portuguesas_ O que é isso? – a menina no caixa perguntou.

_ São castanhas portuguesas. Você não conhece? – respondeu a senhora, com um olhar incrédulo e doce ao mesmo tempo.

_ Acho que não – ela pega a tabela com os preços dos produtos para conferir o código das castanhas. – Eu sou nova aqui no mercado.

_ Ah, castanhas portuguesas são deliciosas! Você coloca na panela de pressão e espera uns trinta minutos. A casca sai e elas ficam bem macias. Você devia provar.

Fez-se um pequeno silêncio na conversa, enquanto a algazarra ao redor subiu de volume. A menina no caixa manteve o olhar fixo no monitor, conferindo o código que havia digitado.

_ São noventa e oito reais e noventa e cinco centavos. É isso mesmo?

_ Sim, sim – a senhora tira uma nota de cem da bolsa. – Castanhas portuguesas são uma delícia! Na minha ceia de Natal nunca pode faltar.

A menina do caixa pega a nota, atônita. Verifica se é verdadeira. digita no teclado o valor de entrada. A gaveta se abre, ela entrega o troco à senhora, que pega as moedas, me sorri e vai embora.

_ Boa tarde – cumprimentei, enquanto tirava os itens da cesta.

_ Boa tarde – a menina do caixa respondeu num quase sussurro. – Noventa e oito reais e noventa e cinco centavos.

Geralmente não converso com estranhos, mas a expressão no rosto dela era de uma descrença tão grande que eu me senti na obrigação de conversar. Era isso ou dar um abraço, palmadinhas nas costas e um chocolate quente.

_ Castanhas portuguesas são caras. Lembro que meu avô adorava, sempre tínhamos na mesa de Natal. Depois que ele faleceu, minha mãe passou a comprar apenas uns cem gramas – e mesmo assim, espera até o último dia para comprar, porque aí o preço fica mais barato.

_ Gente, é muita castanha! A senhora viu? Foi mais de um quilo. Era praticamente o preço de uma cesta básica – ela apontou para a prateleira às suas costas. Havia um mostruário com cinco cestas básicas embaladas e o preço era bem próximo.

Eu olhei para as minhas compras e me julguei mentalmente.

_ Bem… Cada um sabe como gasta seu dinheiro, não é mesmo?

_ É verdade – ela respondeu, passando meus produtos pelo leitor de código de barras.

Caravançará

This glancing life is like a morning star
A setting sun, or rolling waves at sea
A gentle breeze or lightning in a storm
A dancing dream of all eternity

The sand was shimmering in the morning light
And dancing off the dunes so far away
The night held music so sweet, so long
And there we lay until the break of day

We woke that morning at the onward call
Our camels bridled up, our howdahs full
The sun was rising in the eastern sky
Just as we set out to the desert’s cry

Calling, yearning, pulling, home to you

The tents grew smaller as we rode away
On earth that tells of many passing days
The months of peace and all the years of war
The lives of love and all the lives of fears

Calling, yearning, pulling, home to you

We crossed the river beds all etched in stone
And up the mighty mountains ever known
Beyond the valleys in the searing heat
Until we reached the caravanserai

Calling, yearning, pulling, home to you
Calling, yearning, pulling, home to you

What is this life that pulls me far away
What is that home where we cannot reside
What is that quest that pulls me onward
My heart is full when you are by my side

Calling, yearning, pulling, home to you

Tradução:

Esta brilhante vida é como uma estrela da manhã
Um sol poente, ou as ondas no mar
Uma briza suave ou um raio numa tempestade
Um sonho dançante de toda eternidade

A areia cintilava na luz da manhã
E dançava para longe das dunas tão distantes
A noite continha música tão doce, tão longa
E lá nos deitamos até o raiar do dia

Acordamos naquela manhã pelo grito de chamada
Nossos camelos amarrados, nossas bolsas cheias
O sol subia no céu oriental
Assim que partimos em direção ao grito do deserto

Chamando, desejando, puxando o lar para ti

As tendas diminuíam conforme nos afastávamos
Na terra que contava sobre muitos dias passados
Os meses de paz e todos os anos de guerra
As vidas de amor e todas as vidas de medo

Chamando, desejando, puxando o lar para ti

Atravessamos os leitos dos rios, todos gravados na rocha
E acima das poderosas montanhas conhecidas
Através dos vales, no abrasador calor
Até chegarmos ao caravançará

Chamando, desejando, puxando o lar para ti

Que é esta vida que me empurra para longe
Que é esta casa, onde não podemos morar
Que é esta busca, que me empurra adiante
Meu coração está pleno quando estás ao meu lado

Chamando, desejando, puxando o lar para ti


Onde está o mensageiro de terras distantes,

Aquele que lerá a minha sorte

E contará as novas que o vento oeste sopra?

Onde estão seu cavalo e seu chapéu,

Seu sorriso largo e seu pulso firme?

E onde encontrar agora o canto

Que há muito os ouvidos esqueceram?

 

O velho pacientemente mascava seu fumo e admirava os muitos barcos que atracavam na enseada. Seus olhos fitavam o azul, e nada mais eram que dois finos traços em seu rosto marcado pelo tempo.

O jovem olhou a sua volta: mais ninguém parecia ter ouvido o que o velho acabara de declamar. Ninguém a não ser ele; e aquelas palavras o atraíram de tal maneira que se sentiu impelido a ficar ali, e ouvir tudo que o velho poderia lhe contar.

O sol baixava suave e vermelho por trás do farol, e gaivotas brigavam pelos restos de peixe deixados no píer. A rua parecia tranquila e não o era ao mesmo tempo: pessoas iam e vinham, e seus olhos não poderiam ver o velho ali agachado, com suas roupas surradas e já desbotadas.

O jovem sentou-se em frente ao velho, juntando as mãos e baixando a cabeça, numa forma de cumprimento.

_ Que palavras são essas, peregrino? – disse ele. – Pois são como mistérios e maravilhas aos meus ouvidos. Diga: és um sábio perdido por estas terras?

O velho não pareceu ter ouvido: continuou mascando o fumo, e olhava para além do rosto do jovem. Mas este não parecia intimidado pelo descaso do outro: queria ouvir mais daquelas mágicas e antigas palavras.

O velho cuspiu o fumo num canto e, sorrindo, respondeu por fim:

_ Se agradam ao jovem mestre as histórias deste velho tolo, então, que poderei fazer?

De um saco puído, o velho tirou uma garrafa do que parecia ser vinho e sorveu um bom gole, estalando a língua.

O sol acabara de se pôr. O velho sorriu e, por fim, disse:

_ Eis que encontro ouvidos de ouvir!

Diário da assistente

Data estelar 1966-9/10

Entrada 0010010001-6

Lições aprendidas:

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Brenda Starr, repórter. Fonte: http://www.artwanted.com
  • A Assessoria de Comunicação não está ali para te ajudar, mas sim para fazer truques de ilusionismo e confundir a plateia, ao mesmo tempo em que tenta te passar mensagens criptografadas sobre o que você perguntou;
  • Emails serão respondidos na velocidade inversa da sua necessidade;
  • Em caso de despressurização da cabine, cinegrafistas têm prioridade à frente de crianças, idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo;
  • Verificou a informação? Cinco minutos depois vão te pedir para verificar de novo. E sim, você vai ficar com fama de maluca desmemoriada que não lembra o que acabou de perguntar;
  • Não acredite nas manchetes da grande imprensa: elas se parecem muito com aqueles sites caça-cliques que colocam chamadas sensacionalistas, mas o conteúdo não corresponde;
  • Quando começar a sonhar com trabalho, saiba que é hora de descansar. Sério, tira este maldito pé do acelerador, abra uma cerveja e vá ouvir uma música;
  • Dá pra sobreviver uns bons 20 dias jantando biscoito, cerveja e água;
  • A melhor coisa que você vai levar dessa experiência são os contatos. E claro, as histórias já lendárias, que irão render pelo menos um livro de memórias e um roteiro de filme de comédia.

 

01h33min

Sete de Setembro, quarta-feira, 01h33min. Eu imagino o que você está fazendo agora.

Estaria dormindo? Talvez lendo algum livro de gosto duvidoso, as mãos ávidas buscando a próxima página. Ou ainda, buscando por algum filme interessante no próximo canal, apertando freneticamente os botões do controle remoto.

Talvez esteja sentado à mesa de um bar, imaginando o que poderia ter feito para que tudo acontecesse como aconteceu.

Talvez esteja sonhando com um mundo perfeito – um mundo onde o que é meu também é seu.

Talvez a dor não o acorde – ou posso ser eu a acordá-lo.

Ou eu nunca estive aqui, e tudo isso é um sonho infantil.

Talvez ainda estejamos em agosto, desejando por um vindouro abril.

Diário da assistente

brendastarr
Fonte: http://www.badgirlchats.com

Data estelar 1902-7/10

Entrada 0010001011-5

Tema: Mantras antes da tempestade

  • Vai dar tudo certo.
  • Vamos dar um jeitinho.
  • Estamos fazendo o melhor que podemos.
  • Se não der, não deu.
  • Obrigada!
  • Por favor…
  • Por gentileza…
  • Poderia me ajudar?
  • Eu consigo.
  • Fique calma.