Diálogos com Clarisse: o retorno

Não li o horóscopo ontem, mas pela lua minguante e o período do mês, era certo que receberia a visita de Clarisse por esses dias.

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Fonte: http://www.ganhaquemperde.com.br

Senti isso na sexta-feira. Uma desconfiança no canto dos olhos, um ardor nos ouvidos, uma dorzinha chata debaixo das narinas. Ela ia chegar e meter os dois pés no meu peito, estapear minha autoestima e sentar sobre qualquer nesga de otimismo restante.

_ Que faça isso logo, então.

_ Mas eu já fiz – Clarisse acendeu outro cigarro.

(Eu sempre coloco a palavra “outro” nessa frase porque Clarisse está envolta em uma eterna nuvem de fumaça. Aquele nunca era o primeiro cigarro.)

_ Ah, não precisa fazer tanto drama. Você já teve crises piores.

Era verdade.

_ Eu não te forcei a beber. Não te forcei a ouvir aquelas músicas. Não te forcei a nada.

Isso também era verdade.

_ Não entendo porque não podemos ser amigas.

Eu queria arremessar o travesseiro naquela cara cínica. Queria afogá-la na piscina. Queria bater em sua cabeça com o martelo de amaciar carne. Mas não ia adiantar nada.

_Você me faz mal – disse, mais para dentro que para fora.

_ E eu sou ótima em fazer isso, vamos admitir – sorriu Clarisse.

Espelho

Clarisse está aqui me fazendo companhia. O cheiro de cigarro de canela envolve sua imagem enquanto ela se serve de mais uma xícara de café.

_ Você sabe o que devia estar fazendo, né.
_ Sim – respondo.
_ E mesmo assim não vai fazer?
_ Não tô com cabeça pra isso hoje.
_ É só colocar uma palavra depois da outra. Você sabe. É fácil.
_ Não é tão fácil quanto parece.
_ Ah, que nada! Aposto que eu consigo fazer.
_ … Você já fez, lembra?
_ Huum, é verdade! Viu só? Isso só prova que eu estou certa.
_ Mas não é assim. Eu não posso escrever qualquer coisa. Depois fico frustrada, achando que tudo o que eu faço é um grande pedaço de bosta.
_ Você é muito dramática.

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Ela vai até a varanda. Ela brinca com o gato. Ela belisca a própria perna para ter certeza que está viva. Ela acende mais um cigarro.

_ Vai ficar tudo bem.

Eu me surpreendo com aquelas palavras. É a primeira vez que Clarisse parece demonstrar alguma amizade.

Ou talvez seja eu mesma me olhando no espelho e repetindo essas palavras até que elas se tornem realidade.

Diálogos com Clarisse

_ Já percebeu que às vezes você tem umas atitudes de autopiedade e comiseração?

_ … Da onde veio isso?

_ Não desconversa. Você sabe do que eu tô falando.

(…)

_ Sim, já percebi. Mas acho que estou tão acostumada que já não me incomodam tanto. É como respirar.

_ Não, não. É como as suas crises de sinusite. São esporádicas, totalmente controláveis e você pode evitá-las, mas não quer.

_ É, de repente é isso.

_ Como o seu problema com bebida.

_ Eu não tenho um problema com bebida.

_ É, tá bom.

(…)

(…)

_ Não vai sair hoje, vai?

_ Não, por causa do meu problema com bebida: não tenho dinheiro pra comprar.

La Maison Dieu

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Fonte: paddle8.com

Era terça-feira treze quando Clarisse se jogou na cama ao lado, sujando o branco edredom do hotel com suas botas cheias de lama.

_ Você tentou disfarçar o cheiro de cigarro com incenso, não foi?

 

Ela já estava lá antes de mim, e eu não havia percebido. Claro, eu via as pequenas pistas: a sede constante por cerveja, as músicas tristes nas idas e vindas do trabalho, a vontade de não sair da cama; a insônia apesar do cansaço, o pensamento disforme ao me olhar do espelho. Eu via as pistas, mas decidi ignorá-las.

Quem é aquela que vejo no espelho?

_ Eu devia ter desconfiado assim que fiz o check-in – a voz soou um tanto decepcionada.

_ É sério que você achou que eu não viria? – Clarisse gargalhava, a mão buscando o isqueiro no bolso da calça. – Chega a ser engraçada essa tua esperança.

E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
– Eu sou a tua morte
Vim conversar contigo
Vim te pedir abrigo
Preciso do teu calor
Eu sou
Eu sou

 

Spleen

Naqueles cinzentos dias de inverno carioca, Clarisse era onipresente. Era a senhora soberana em meus domínios, a deusa onisciente; o gélido ar que me doía nos pulmões, a macia colcha que me envolvia à noite; a culpa, o corpo, a alma.

Entre uma baforada e outra de seu cigarro, Clarisse declamava-me poemas cheios de spleen.

Porias o universo em teu bordel,spleen
mulher impura! O tédio que te faz cruel.
Para treinares os dentes neste jogo singular,
Terás a cada dia um coração a devorar,
Teus olhos a girar assim como farândolas,
De festas de fulgor a imitar as girândolas,
Exibem com insolência uma vã nobreza,
Sem conhecer jamais a lei de sua beleza!

Máquina cega e surda e de um cruel fecundo!
Instrumento a beber todo o sangue do mundo,
Já perdeste o pudor e ao espelho não viste
Tua beleza cada vez mais murcha e triste?
A grandeza de um mal que crês saber tanto
Nunca pôde fazer-te retroceder de espanto,
Na hora em que a natureza em desígnios velados,
De ti se serve, mulher, ó deusa dos pecados,
– A ti, vil animal – para um gênio formar?

Ó grandeza da lama! Ó ignomínia exemplar!

_ Baudelaire, Clarisse? Você podia pegar mais leve.

Clarisse compõe

Eu tinha me enganado. Pensei que ela já tivesse ido embora, sorrateira como sempre, deixando os cacos de minha consciência pelo chão. Ela sempre pisa nos menores, e o doce rastro de sangue acompanha seus passos como um véu de noiva.

Não, ela não tinha ido embora.

Clarisse ainda estava ali, me espreitando com seus olhos cínicos, o sorriso no canto da boca tão linda, tão minha.

_ Vai, escreve alguma coisa – ela me provocava enquanto acendia um cigarro.

Você sabe que eu não estou conseguindo escrever nada desde que você chegou.

_ Lembra aquele curso de escrita criativa?

Aquele que eu não terminei?

_ Esse mesmo.

É, lembro sim. Ainda tenho os arquivos guardados em algum lugar.

_ Pois lá dizia que era pra você tentar escrever todos os dias. Qualquer coisa, uma cena que fosse. Lembra?

chuva rio de janeiroEu lembro. Claro que lembro. Mas tenho me sentido tão exausta que não consigo nem fazer um maldito haicai.

Eu viro minha atenção para a paisagem. Clarisse suspira, entediada. De súbito, abre a boca:

Mar de inverno;
Descubro outra desgraça
Em cinza de jornal.

… Eu não acredito nisso.

_ Viu? – a fumaça do cigarro sobe graciosamente de suas narinas. – Nem é tão difícil assim.

Terror noturno

Acordei no meio da madrugada sentindo uma dor intensa no peito. Tateei em busca do telefone celular, imaginando que horas deveriam ser. Semicerrei os olhos, sensíveis por causa da fria luz do aparelho.

Cinco e meia da manhã, murmurei. Soltei o celular novamente à cabeceira.

Deitei-me de costas, pondo a mão direita no peito. Era muito jovem para ter qualquer doença coronária, e não me lembrava de ninguém sofrer disso na família.

Mas também não conheço todo mundo, pensei.

Tentei me lembrar dos seriados de tevê sobre medicina e fiz um autoexame mentalmente.

Não sinto dor no braço esquerdo. Ou era no direito que se via isso?
Não tenho comido nada gorduroso. Não fumo. Não acabei de subir trinta lances de escada. Até deveria, mas…
Não estou com taquicardia, mas não sinto palpitação.

Levantei-me de súbito, os olhos arregalados na escuridão.

Não sinto palpitação!

Meu lado hipocondríaco acordou na mesma hora. Devo chamar uma ambulância? Devo chamar por socorro? Devo chamar minha mãe? E se eu morrer aqui, nesse quarto, e ninguém perceber? E se eu desmaiar?

_ E se não for nada e você só dormiu de mau jeito?

Era Clarisse do outro lado da janela. O zumbido do ar condicionado deixava sua voz distante e abafada, mas ainda perceptível. Ela jogou uma baforada de cigarro no vidro.

_ Há quanto tempo – sorriu. Uma linha tênue de fumaça saía pelo canto de sua boca.

E eu achando que tinha me dado férias permanentes dessa diabinha.

Bugs

Fonte: blog.oregonlive.com
Fonte: blog.oregonlive.com

Eu via formigas andando pela cozinha. Pela sala. Pelo meu corpo.

Se tem uma coisa que aprendi com filmes do Chan-wook Park é que ver formigas é um mal sinal – principalmente quando as outras pessoas não veem.

_ Café, finalmente! – Clarisse encheu uma caneca com o líquido fumegante.

Não entendia porque ela ainda estava lá. Dessa vez, parece que tinha passado o mês inteiro comigo. Isso também não era bom.

_ Por que você ainda está aqui? – perguntei, os olhos ainda remelentos de sono.

_ Porque você não me deixa ir embora.

30 Dias de Amor Próprio 3/30: bolo de bolo

Era quinta-feira, o dia de passar roupa. É claro que eu iria postergar aquela tarefa até que fosse extremamente necessário completá-la. O dia transcorria como qualquer outro: meio dengoso, meio mulambento. Eu estava tentando focar em produzir alguma coisa, como a terapeuta recomendara.
Milagrosamente, Clarisse estava quieta e observava a rua, sentada de frente para a janela. A chama de seu último cigarro tinha morrido há alguns minutos.
O meu problema em receber algum tipo de tarefa, seja ela qual fosse, é que eu iria querer completá-la com perfeição. Para meu terror, os meus textos já começados me soavam horríveis – por mais que eu os achasse incríveis meses depois. De repente era isso: eu produzia tonéis de texto como quem faz vinho, e eles precisavam maturar.

_ Você podia produzir um bolo – ela me disse, lendo meus pensamentos.
_ Essa foi uma das coisas mais inteligentes que você já disse.

Então eu fui para a cozinha e fiz um bolo de bolo.

Curioso pensar nas pequenas coisas que venho aprendendo. Cozinhar, por exemplo, nunca foi minha tarefa favorita dentro de casa. Adoro lavar banheiro, lavar cozinha… Mas pôr a mão na massa e preparar algo para comer não constava nessa lista. Aí eu descobri a propriedade terapêutica, praticamente alquímica, de cozinhar. Juntar elementos diferentes que irão se completar e dar à luz algo completamente novo. E quando esse algo é fofinho e vem acompanhado de café com leite, hum… É melhor ainda 🙂

bolo

Perguntas

Naqueles dias em que o céu está cinza e a sua mente também, o que é que você faz? Se entoca debaixo do edredom e dorme, esperando as horas escorrerem pelo ralo? Sai assim mesmo, põe a cara à tapa e reza aos Deuses pedindo proteção?

Ou fica na corda bamba de sombrinha, sentindo pena de si mesmo?

Eu sinto o hálito quente de Clarisse sussurrando ao pé do meu ouvido.

_ Eu já cheguei tem tempo e você nem notou.