A mosca

mosca

Repousa o ventre sobre puído lençol
– Nas pernas vermelhas, os beijos
De juras apertadas por cinto de couro –
Ela arfa, ronrona – sorri ao rouxinol
Cantante em sua mente adormecida.

Sozinha no quarto, a amante tão bela
Repousa seus castanhos cachos sobre o travesseiro;
No quarto, perdura o insistente cheiro
Do profundo êxtase das almas. A vela
Ao canto, tremeluzia e queimava-se por inteiro.

Zunindo no silêncio, o amante tardio veio.
Guiado pelo tão pungente anseio
Esgueirou-se pela cortina, incerto, matreiro.

Pousou as delicadas patas sobre a coxa morena.
A pele suava, obscena.
Queimava-lhe a visão de tamanha beleza.

Seus muitos olhos admiravam o sumo da vida
Que branco e leitoso pingava.
Queria-lhe sorver sua paixão líquida
Até rebentar-se a barriga inchada.

A mosca chegou-se, zumbindo doce
Esfregou as patas sofregamente
A boca afunilada na boceta encostou
E o sumo feliz ela tomou.

A bela dormia, e dormindo ficou.
Mas trinta e cinco dias depois
De seu ventre arrebentou
Uma nuvem negra, zumbindo em seu louvor.

 

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Virar a página

4283447-the-ancient-book-and-old-goose-featherSou uma escritora amadora. Amadora porque me falta a dedicação e o esforço de um profissional.

Nos meus devaneios pelas estradas da escrita, já adaptei aquela imagem do Livro da Vida a um livro particular – um livro que cada ser humano possui. Nesse livro, cada um escreve o que viveu, como viveu; justifica suas escolhas, se arrepende; grava suas vitórias e derrotas.

Eu já perdi a conta de quantas vezes escrevi garranchos no meu livro da vida particular. Imagino algumas páginas já puídas, manchadas; o conteúdo dos dias quase incompreensíveis de tão emaranhados, as linhas tortas, a tinta falha das palavras. Claro que deve haver algumas passagens bonitas. Infelizmente, estou em um daqueles momentos da vida em que só consigo lembrar dos trechos mais sombrios.

Here I am, on the road again
There I am, up on the stage
Here I go, playin’ star again
There I go, turn the page

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Feud: Bette and Joan

Comentei sobre a série Feud do meu mais novo diretor adorado Ryan Murphy em um post anterior. Terminei toda a primeira temporada e já estou com saudades. Jessica Lange e Susan Sarandon simplesmente davam um show a cada episódio, era de assistir e chorar de tão lindo.

Daí encontrei no YouTube um vídeo feito por alguém abençoadamente paciente, no qual comparam as cenas dos filmes nos quais estrelaram as atrizes originais, Joan Crawford e Bette Davis respectivamente. Vale muito a pena ver.

 

E sobre Ryan Murphy: tô acendendo vela toda semana orando por essa mente brilhante. Que nos traga mais American Horror Story e Feud

Slow like honey

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But my big secret
Gonna hover over your life
Gonna keep you reaching
When I’m gone like yesterday
When I’m high like heaven
When I’m strong like music
‘Cause I’m slow like honey, and
Heavy with mood


Na atual jornada de autoconhecimento, estou redescobrindo minha admiração por Fiona Apple. Umas letras tão boas que chegam a doer no coraçãozim.

 

Mais

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Theda Bara. Fonte: http://www.boweryboyshistory.com

Era como se tivesse acordado de um torpor.

Sentia sede, sempre. A garganta seca, os lábios ávidos. Os olhos vidrados em busca de um cálice, um oásis, uma gota no deserto.

Ela sentia sede sempre. Não sabia o porquê. Naqueles últimos dias, sabia muito pouco sobre tudo: era uma criança desperta, neófita, sorvendo todo o tipo de conhecimento em que conseguia pôr as mãos.

Ela queria mais.


Talvez seja um argumento para uma história de vampiros. Talvez seja autobiográfico. Talvez não 😉

Morfina

Em 2011, quando me inscrevi no curso de Estrutura Literária ministrado pelo Eduardo Spohr, nunca poderia imaginar que dali surgiria uma confraria e uma coletânea de contos. Éramos onze pessoas empolgadas (eu de bendito fruto, única mulher no grupo): tudo era possível, enfrentaríamos os mares bravios, iríamos com tudo, go go team.

A primeira tarefa a ser vencida era, claro, escrever o bendito conto.

Lembro claramente da pressão que eu mesma joguei sobre os ombros. Sobre o que iria escrever? Vou montar o esquema que aprendi no curso, organizar tudinho e seguir à risca a jornada do herói? Ou vamos esperar a Musa tocar meu rosto e me empurrar no caminho certo?

No fim das contas, eu estava com uma página em branco diante de mim. Dentro do ônibus, um calor infernal, as têmporas suando. Fim de mais um dia de trabalho. Eu ainda atravessaria a cidade para chegar em casa.

Então a Musa soprou alguma coisa nos meus ouvidos.

Daí me veio a lembrança desta música e eu comecei a escrever no caderno. A caneta escorregava entre os dedos, rápida, garranchos lindos. A mão tentava acompanhar o pensamento.

 

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Fonte: R7.com

Conheci o Morphine por volta de 1998 graças a um cd que veio junto em uma edição da revista Bizz. Nem sei se a revista ainda existe, provavelmente não. Mas ali tinha Morphine, Marianne Faithful e mais um monte de gente boa da qual não me lembro agora. Esse trio ganhou meu coração instantaneamente porque o contrabaixo domina.

 

 

E sim, a minha história acabou sendo um pouco baseada na letra desta música.

Quando desci do ônibus, a história estava praticamente terminada. Eu iria passar a limpo, revisar, inserir mais algumas cenas – mas o coração estava lá, pulsando. A minha pequena diabinha dançava ao som de Morphine, insinuante em seu vestido vermelho.

Ishtar

Ishtar
Fonte: goddess-ishtar.tumblr.com

Ishtar, deusa babilônica – ou Inanna, deusa dos sumérios. Ou ainda Astarte, no oriente médio. Deusas da Fertilidade.

Conforme a representação dos deuses nas religiões politeístas, Ishtar possui uma ambivalência. É ao mesmo tempo maternal e sensual; benevolente e maléfica; carinhosa e impiedosa. Enquanto criadora de todas as bênçãos terrenas, também sofria com as tristezas humanas. Protetora do casamento e da maternidade. Deusa do amor, da fertilidade, da sexualidade – mas também deusa da guerra e das tempestades.

Uma das histórias sobre Ishtar que me é mais querida é sobre a sua descida ao submundo.

Ishtar teve que passar por sete portas e remover um símbolo do seu poder – como uma peça de roupa ou um pedaço de joia – em cada um. No último portão, nua e privada de todos os seus poderes, a deusa conheceu sua irmã Ereshkigal, que anunciou que Ishtar deve morrer. Ela morreu imediatamente e seu corpo foi pendurado em uma estaca.
Enquanto isso, o deus Enki soube que Ishtar estava desaparecida, e enviou dois mensageis para lhe restaurar a vida. Porém, para deixar o submundo, Ishtar precisaria substituir seu corpo por outro. A deusa ofereceu então seu jovem marido, Tamuz, para tomar seu lugar.

Este conto claramente representa o eterno ciclo de vida, morte e renascimento pelo qual passamos.

Ishtar era celebrada no hemisfério norte próximo do equinócio de primavera – bem próximo das festividades de Páscoa… Que coincidência, não? Nesta época, as pessoas decoravam ovos – símbolos de fertilidade – e os escondiam pelos campos, participando de uma brincadeira para encontrá-los depois.

Fonte: http://portal-dos-mitos.blogspot.com.br/2013/03/ishtar.html


Bem, como eu sigo a roda do ano equivalente ao meu hemisfério, estou aqui me preparando pra o Samhain que está chegando. Boa Páscoa para quem é de Páscoa 😉

Você não sabe amar

Você não sabe amar, meu bem
Não sabe o que é o amor
Nunca viveu, nunca sofreu,
E quer saber mais que eu

O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Você esperava e eu também
Que esse fosse seu fim

O nosso amor não teve ferida
As coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim.


Gostei da versão com o Chico Buarque por motivos óbvios, mas quis compartilhar essa da Nana Caymmi – por razões óbvias também.