Atlas de Nuvens

Cartas escritas por um viajante percorrendo as ilhas do oceano pacífico,no meio do século XIX. O diário de um jovem músico brilhante e bon-vivant em sua estadia na Bélgica dos anos 1930. Um thriller de suspense e intrigas empresariais passado nos anos 70, tendo como cerne uma jornalista perspicaz. As peripécias de um senhor de quase setenta anos ao ser internado em um asilo na Inglaterra, por volta de 2010. A entrevista de uma clone que despertou de sua inércia em uma sociedade distópica na Coreia, em algum tempo no século XXII. Um velho conta a história de sua juventude a um grupo de jovens no que já foi a ilha do Havaí, alguns séculos adiante.

E de alguma forma sutil e verdadeira, tudo está intrinsecamente conectado.

Resultado de imagem para atlas de nuvensCloud Atlas – ou Atlas de Nuvens, na tradução para o português – é um livro de 2004 escrito por David Mitchell. Recebeu vários prêmios e foi adaptado para o cinema em 2012 contando com um elenco estelar: meu querido Tom Hanks, Hugo Weaving, Halle Berry, Hugh Grant. Foi dirigido pelas irmãs Wachowski (aquelas de Matrix). Aqui no Brasil, a adaptação recebeu o nome de A Viagem. Acho que pros noveleiros se lembrarem daquela novela que passou na Globo há uns anos e falava sobre reencarnação.

O meu primeiro contato com Cloud Atlas foi pela adaptação cinematográfica. Reconheço que faço parte do grupo de 14 pessoas que gostou da história. Não se pode sequer piscar durante o filme, se não você perde alguma informação importante, deixa de ver algo crucial para conectar todos os pontos, ou deixa de entender alguma pista. Assisti no cinema, e muitos anos depois vi novamente na televisão.

Quando descobri que não era roteiro original, saí em busca do livro. Eu precisava ler o original, porque sabia que não podia ter só aquilo que vi no cinema. Ganhei o bendito como presente de Natal ano passado e comecei a ler de imediato. Dito e feito: a experiência do livro é muito mais profunda e intensa. Foi um daqueles volumes que eu demorei a terminar quando cheguei perto do final, simplesmente porque não queria que terminasse.

A capacidade do David Mitchell em adaptar seu próprio modo de escrever a cada trecho da narrativa é impressionante. Parece que várias pessoas diferentes escreveram, mas ao mesmo tempo podemos perceber que foi uma única mente que amarrou tudo. A minha parte favorita é a que conta a história de Sonmi-451, uma clone criada para servir aos seres humanos possuidores de almas (obs: alma aqui tem outro sentido). Várias palavras foram adaptadas, criando novos significados. Eu conseguia visualizar muito bem a distopia proposta pelo autor. Uma passagem no final da entrevista de Sonmi-451 ao arquivista (ou carceceiro) explicita muito bem a linha narrativa do livro inteiro:

Você lamenta a vida que levou?

Como posso lamentar minha vida? Podemos lamentar uma ação escolhida livremente, porém errônea; mas o livre-arbítrio não desempenha nenhum papel na minha istória.

 

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Atlas de Nuvens é um daqueles raros casos em que eu recomendo assistir a adaptação primeiro e depois ler o livro. Acho que assim a frustração é menor. Acredito que a experiência cinematográfica ficou limitada justamente por causa do tempo de tela: no livro tem história para pelo menos uma minissérie. E eu já falei da trilha sonora?