Tem que rir

Ontem à tarde, no jornal local, assisti a uma reportagem falando sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. O jornal visitou uma fábrica da indústria automobilística da região e algumas funcionárias desta multinacional falaram a respeito do assunto.

A íntegra da matéria está aqui.

Uma das entrevistadas disse o seguinte:

_ Aqui na empresa, a gente tem um grupo bem diversificado. Principalmente o meu time, é dividido bem meio a meio. A gente tem bastante espaço, bastante respeito. Todo mundo trabalha aqui com o maior esforço possível para alcançar os resultados. Não tem diferenciação se você é mulher, se você é homem, se você é engenheiro, se você é engenheira. Todo mundo aqui está buscando o mesmo resultado e trabalhando junto.

Eu ri.

Eu ri porque fiquei imaginando quantas mulheres em cargo de chefia essa empresa deve ter. Ri porque pensei em quantas mulheres devem ser preteridas quando chega uma oportunidade de promoção. Ri porque fiquei aqui pensando o quão diversificado deve realmente ser esse grupo de trabalho. Aposto como a maioria das mulheres está em cargos de suporte/apoio, enquanto os cargos da área de Engenharia são dominados majoritariamente por homens.

Apenas 37% dos cargos de chefia no Brasil são ocupados por mulheres. No setor público, a presença feminina diminui conforme aumenta o salário dos cargos comissionados, aqueles de confiança. No setor privado, em cargos executivos de empresas no setor financeiro, somos apenas 10% – e existe diferença salarial. Em média, a mulher ganha 76% do salário de um homem na mesma função. Nos cargos de chefia, esse percentual cai para 68%. Não sou eu que estou dizendo: são informações do Pnad/2015, Boletim Estatístico de Pessoal
do Min. do Planejamento, TSE, União Inter-Parlamentar e Consultoria de RH Oliver Wyman.

Eu ri com essa reportagem porque a alternativa era chorar – e eu ando muito passivo-agressiva para chorar pelos outros.

08 de março

beyonce
Fonte: http://www.purebreak.com.br

Quando eu não precisar pensar duas vezes antes de dar minha opinião de forma contundente, sem o temor de ser vista como histérica

Quando eu não precisar atravessar a rua para desviar de um grupo de homens que me olham como um pedaço de carne

Quando eu não precisar pôr uma máscara de subserviência e dizer amém a tudo o que um homem disser

Quando eu não tiver minhas conquistas minimizadas por um homem

Quando eu não sentir mais medo de ser estuprada ao voltar tarde para casa

Quando eu finalmente tiver todos os direitos ao meu corpo respeitados

Quando eu levantar a voz em uma reunião e não for ignorada

Quando eu ganhar um salário equivalente ao de um homem na mesma posição

Quando eu não for julgada pelo comprimento da minha saia ou pela profundidade do meu decote

Quando eu não for julgada por ser gorda demais, ou magra demais, ou musculosa demais, ou feminina demais – ou de menos

Quando eu tiver representação nos espaços públicos equivalente ao número de cidadãs

Quando o meu lugar for onde eu quiser

Aí sim eu vou poder sorrir e dizer:

Feliz Dia Internacional da Mulher.

Não quero flores, nem chocolate. Quero meus direitos respeitados.