Oito de Março de 1950?

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Olhem que paz. Fonte: http://social.rollins.edu

Passei este Oito de Março em casa, com um belo torcicolo como companhia há 24 horas – e que possivelmente fará de tudo para estender sua permanência até o fim de semana. Tentei estudar, não consegui; tentei ler, mas foi em vão. Tentei escrever… Pior ainda.

Daí eu leio sobre o discurso que o presidente Temer fez hoje em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

“Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado de Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.”

Pausa para respirar fundo e contar até cem. Outro trecho interessante foi esse aqui ó:

“E hoje, como as mulheres participam em intensamente de todos os debates, eu vou até tomar a liberdade de dizer que na economia também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor.”


 

É de me coçar até as mitocôndrias.

Meninada, voltamos ao passado. Esqueçam a responsabilidade de ambos os genitores/tutores legais pelos filhos: quem pariu a criança, que a carregue. Voltemos a jogar toda a responsabilidade da educação dos filhos às mães. Ah, e a participação feminina na economia se dá pela exímia capacidade das mulheres em saber lidar com o orçamento doméstico.

Mas devo admitir que nem tudo foram espinhos (pun intended):

“[…] É um longo trajeto histórico que vem revelando a presença importantíssima da mulher. Aliás, em função disso, no próprio Plano Nacional de Segurança Pública, um dos primeiros pilares do Plano Nacional de Segurança Pública, lançado muito recentemente, é exatamente o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Nós estamos até cuidando de criar um fundo de combate à violência contra a mulher, e a bancada feminina já esteve comigo, é nós estamos cuidando disso, que é mais um passo no combate à violência contra a mulher. E estamos fortalecendo a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que é o 180.”

Apesar do que devemos nos lembrar que o atendimento nas delegacias de proteção à mulher é péssimo. E quando o presidente fala da bancada feminina, tenha os seguintes números em mente: as mulheres são mais de 50% da população brasileira, mas ocupam menos de 10% das vagas no Congresso Nacional.

Eu não sei em que mundo este homem vive, mas sei quando não é. Não é em 2017.


Para recuperar a sanidade, recomendo ler este artigo sobre o dia Oito de Março de 2017 na história. Recomendo também comer um pedaço de bolo de chocolate ou tomar uma cervejinha gelada.

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Tem que rir

Ontem à tarde, no jornal local, assisti a uma reportagem falando sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. O jornal visitou uma fábrica da indústria automobilística da região e algumas funcionárias desta multinacional falaram a respeito do assunto.

A íntegra da matéria está aqui.

Uma das entrevistadas disse o seguinte:

_ Aqui na empresa, a gente tem um grupo bem diversificado. Principalmente o meu time, é dividido bem meio a meio. A gente tem bastante espaço, bastante respeito. Todo mundo trabalha aqui com o maior esforço possível para alcançar os resultados. Não tem diferenciação se você é mulher, se você é homem, se você é engenheiro, se você é engenheira. Todo mundo aqui está buscando o mesmo resultado e trabalhando junto.

Eu ri.

Eu ri porque fiquei imaginando quantas mulheres em cargo de chefia essa empresa deve ter. Ri porque pensei em quantas mulheres devem ser preteridas quando chega uma oportunidade de promoção. Ri porque fiquei aqui pensando o quão diversificado deve realmente ser esse grupo de trabalho. Aposto como a maioria das mulheres está em cargos de suporte/apoio, enquanto os cargos da área de Engenharia são dominados majoritariamente por homens.

Apenas 37% dos cargos de chefia no Brasil são ocupados por mulheres. No setor público, a presença feminina diminui conforme aumenta o salário dos cargos comissionados, aqueles de confiança. No setor privado, em cargos executivos de empresas no setor financeiro, somos apenas 10% – e existe diferença salarial. Em média, a mulher ganha 76% do salário de um homem na mesma função. Nos cargos de chefia, esse percentual cai para 68%. Não sou eu que estou dizendo: são informações do Pnad/2015, Boletim Estatístico de Pessoal
do Min. do Planejamento, TSE, União Inter-Parlamentar e Consultoria de RH Oliver Wyman.

Eu ri com essa reportagem porque a alternativa era chorar – e eu ando muito passivo-agressiva para chorar pelos outros.

Americanah, de Chimamanda Adichie

Resultado de imagem para americanah chimamanda trechoOntem, 20 de novembro, terminei de ler o romance Americanah, da Chimamanda Adichie. O título é uma brincadeira com o modo de uma personagem pronunciar a palavra “americana”.

É importante dizer que levei apenas oito dias para terminar essa delícia de história com um pouco mais de quinhentas páginas. O estilo da Chimamanda é muito envolvente, o modo como ela descreve as pessoas, os lugares e as situações é orgânico e direto. Talvez alguns adjetivos a mais aqui e ali (para o meu gosto, meio adepto ao estilo Hemmingway e cortar o supérfluo), mas usando uma imagem clichê, Americanah é como uma brisa soprando do mar, adentrando uma sala fechada.

Eu já era fã da Chimamanda por causa daquele belíssimo discurso Nós Deveríamos Todos Ser Feministas. Sabia que seus livros eram bestsellers e estava muito curiosa para ler algum de seus romances, e acho que escolhi um ótimo ponto de partida.

Americanah é um romance que acompanha a vida de Ifemelu, uma nigeriana que passou muitos anos nos Estados Unidos e volta para seu país natal. Viajamos pela adolescência e vida adulta de Ifemelu, conhecendo sua família e amigos, seus amores, tristezas, alegrias, topadas na quina da mesa, conquistas. Principalmente, viajamos através dos olhos de Ifemelu e a descoberta de um novo país – e de um país familiar que se torna um tanto quanto estranho.

Além das relações pessoais, o que mais me surpreendeu no livro foi a diferença entre o pensamento do negro africano em comparação ao afrodescendente norte-americano. Em certo ponto, Ifemelu diz que apenas se viu como mulher negra quando chegou aos Estados Unidos: até então, na Nigéria, ela não percebia a diferença racial. A autora também faz um belo recorte sobre a época da primeira eleição de Barack Obama, a questão de assumir os cabelos naturais, a visão romantizada da África, a vida cotidiana na Nigéria. É tanta novidade que eu só posso sugerir uma coisa: leiam, para que se possa sair do looping eterno da história única.

PS: Ontem vi este vídeo muito interessante de um senhor que veio de Gana para o Brasil há 30 anos. Ele fala sobre a diferença entre as palavras negro e preto. Recomendo para continuar a reflexão.

Feminismo Didático, por Ana Paula Lisboa

Tomo a liberdade de reproduzir aqui a ótima coluna da Ana Paula Lisboa, publicada hoje no Segundo Caderno do jornal O Globo. Folhear as notícias atrás de matérias me deu esta lindeza de presente. A primeira parte da série está aqui.

Feminismo Didático Parte 2- As Mães Pretas

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Balé das Iyabás – Fonte: http://www.facebook.com

“Pensando a arte de forma política, trabalhamos com as questões de gênero e raça tendo como missão o fortalecimento, a emancipação e o empoderamento de mulheres, sobretudo Mulheres Negras, por compreendermos as demandas diferenciadas desse grupo e a consequente necessidade de iniciativas que deem a atenção necessária para este segmento da população”.

O texto acima é parte do manifesto do Balé das Iyabás, grupo de Mulheres Negras que propõe a reflexão sobre o protagonismo da mulher na sociedade a partir da mitologia dos Orixás. Sinara Rúbia e Ludmilla Almeida guiam, uma vez por mês, uma tarde inteira de discussão sobre o feminino e sobretudo sobre a estética negra feminina.

Aprendi com elas que os mitos, ou itans (como são chamados no candomblé), são narrativas das histórias vividas por nossas ancestrais, que se manifestam nas nossas práticas cotidianas, que se personificam nos nossos fazeres diários, justificando e dando sentido a estes fazeres.

A enxurrada de e-mails e mensagens após a publicação da coluna “Os Golpeados” me fez pensar muito nesses fazeres cotidianos, ou melhor, nessas escritas quinzenais. Eu, como boa filha de Oxum, estou por aqui cortando caminho na terra para as águas passarem. E não se engane, as águas sempre encontram um caminho. Mulheres e homens de longe e perto me escreveram para declarar sua “infelicidade” ao terminarem de ler a coluna e sua partilha de sofrimento, seja pela perda de um ente querido, seja pela dor em saber das estatísticas de jovens negros que morrem neste país todos os dias. Ainda assim, mesmo as mensagens que elogiavam a escrita e o conteúdo declararam que o fato de eu ter escrito que “mães não deveriam enterrar seus filhos, menos ainda as mães pretas” os deixou chocados.

“Você acha então que as mães brancas valem menos?”

“Se minha mulher tiver um filho e ele morrer nosso sofrimento será menor?”

“Você está incitando uma guerra racial!”

“Você está praticando racismo reverso!”

Sejamos didáticos: RA-CIS-MO-RE-VER-SO-NÃO-E-XIS-TE. Racismo envolve poder, privilégio, preconceito e, principalmente, estrutura institucional. Por isso, calma!

Dito isto, é também importante deixar claro que há coisas neste mundo que não precisam de divulgação: a heterossexualidade, a branquitude, o homem, o cabelo comprido e liso, o corpo magro. Elas não precisam de divulgação pois são a regra desde que me entendo por gente. É só ligar a TV, ver a capa de uma revista, procurar a imagem dos ícones de beleza, de sucesso.

Meu ativismo não é contra as mulheres brancas – nunca seria, nunca será! – , é a favor das mulheres pretas. O motivo da minha escrita, Audre Lorde (mulher preta maravilhosa e ativista dos direitos civis americanos), escureceu antes mesmo de eu nascer:

“Como mulheres, alguns de nossos problemas são comuns, outros não. Vocês, brancas, temem que seus filhos ao crescerem se juntem ao patriarcado e testemunhem contra vocês. Nós, em contrapartida, tememos que tirem os nossos filhos de um carro e disparem contra eles à queima-roupa, no meio da rua.”

tumblr_n9jyilzIzp1smc2qao1_1280Mas falemos de nossa terra, de nossa contemporaneidade. O “Mapa da Violênca 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil“, realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a pedido da ONU Mulheres, identificou que o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking global de homicídios de mulheres, entre 83 países pesquisados. Em 2013, a taxa de mortes de mulheres por assassinato para cada cem mil habitantes foi de 4,8 casos. A média mundial foi de dois casos. Foram 4.762 mulheres mortas violentamente no país naquele ano: 13 vítimas fatais por dia.

Mas vamos às pretas: a década 2003-2013 teve aumento de 54,2% no total de assassinatos desse grupo étnico, saltando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Aproximadamente mil mortes a mais em dez anos. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 no mesmo período. Outra pesquisa, dessa vez do IBGE, mostrou que entre todos os segmentos da população, a mulher negra é a que se sente mais insegura em todos os ambientes, até mesmo em suas próprias casas.

A taxa de analfabetismo entre mulheres negras é duas vezes maior que entre mulheres brancas, e isso, claro, se reflete nos números do desemprego, que entre as brancas é de 9,2%, enquanto entre as mulheres negras, ultrapassa os 12%. E digamos que ambas estejam empregadas: as mulheres negras recebem, em média, 40% a menos. Talvez por isso 70% das famílias que recebem o Bolsa Família sejam chefiadas por mulheres, mulheres pretas.

Não busco divisões, eu amo todo mundo: branco, loiro, ruivo, oriental, mas quem foi arrastada pelo camburão foi a mulher de pele preta, quem foi espancada até a morte pela polícia na frente do filho foi a mulher preta, quem morre porque faz um aborto é a mulher preta, quem perde a relação com a família porque tem que cuidar da família dos outros é a mulher preta. Então dizer que a intensidade no tom da pele não importa é hipocrisia demais pro meu coração.

Termino essa série esperançosa de que todas as mães tenham tido um feliz Dia das Mães, mas principalmente as mães pretas.

08 de março

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Fonte: http://www.purebreak.com.br

Quando eu não precisar pensar duas vezes antes de dar minha opinião de forma contundente, sem o temor de ser vista como histérica

Quando eu não precisar atravessar a rua para desviar de um grupo de homens que me olham como um pedaço de carne

Quando eu não precisar pôr uma máscara de subserviência e dizer amém a tudo o que um homem disser

Quando eu não tiver minhas conquistas minimizadas por um homem

Quando eu não sentir mais medo de ser estuprada ao voltar tarde para casa

Quando eu finalmente tiver todos os direitos ao meu corpo respeitados

Quando eu levantar a voz em uma reunião e não for ignorada

Quando eu ganhar um salário equivalente ao de um homem na mesma posição

Quando eu não for julgada pelo comprimento da minha saia ou pela profundidade do meu decote

Quando eu não for julgada por ser gorda demais, ou magra demais, ou musculosa demais, ou feminina demais – ou de menos

Quando eu tiver representação nos espaços públicos equivalente ao número de cidadãs

Quando o meu lugar for onde eu quiser

Aí sim eu vou poder sorrir e dizer:

Feliz Dia Internacional da Mulher.

Não quero flores, nem chocolate. Quero meus direitos respeitados.

Conversas

Duas mulheres conversam.

A mais velha, acometida por uma doença, encontra-se convalescente e anseia por retomar sua rotina. Nunca lhe foi tão penosa a falta do trabalho – não só financeira mas também psicologicamente. Suas crises de tensão pré-menstrual transformaram-se em uma entidade própria, que a visita em intervalos agora não tão regulares. Dependendo do mês, parece até mesmo que mudou-se em definitivo para dentro da casa. Ela quer sentir-se útil, ativa, saudável novamente.

A mais nova, acometida por uma desilusão amorosa, encontra-se convalescente mas propensa a recaídas. A montanha-russa de emoções é seu veículo constante: uma hora sente-se muito bem, segura de si, um mundo de possibilidades a seus pés; outra hora sente-se fraca, a cicatriz recente no coração parece querer se rasgar. É difícil abrir-se e contar mesmo aos mais íntimos sobre seus pensamentos, medos, anseios. Ela quer sentir-se plena, confiante, feliz novamente.

O que há em comum?
As duas estão acima do peso. Pelos mais diversos motivos. Genéticos, principalmente: os biotipos não são propensos à magreza. As duas cresceram ouvindo que mulher bonita é mulher magra, jovem, cabelo liso. Mulher tem que se cuidar, se não ninguém quer. Mulher tem que se dar o valor. Não pode usar qualquer roupa. Sem maquiagem, nem pensar. Também não pode pintar a cara igual a uma palhaça. Tem que ser magra com corpão: bundão, peitão, coxa malhada.

O que há de diferente?
A mais velha começou a tentar se ver com mais amor e menos cobrança. Está aprendendo a se amar vestindo qualquer tamanho de roupa, desassociar a imagem de magreza à beleza. Não, não tem que ser magro pra se amar. Eu posso deixar de pintar o cabelo a hora que eu quiser. E daí se tenho cabelos brancos? O cabelo é meu e eu faço o que quiser com ele, inclusive deixar de alisar. Tenho que cuidar da minha saúde, sim: física, psicológica, amorosa… Isso nada tem a ver com magreza ou cabelo liso. Uso maquiagem quando estou com vontade. Uso a roupa que eu quiser, a que me faz feliz. Quem dita as regras do meu corpo sou eu, e não uma revista qualquer escrita por outra pessoa. O valor que eu me dou é o meu amor: eu valorizo a minha pessoa por inteiro, com a minha ética, retidão e empatia. A perda de peso será decorrência das mudanças para uma alimentação mais saudável e uma vida menos sedentária – será o resultado, mas não o objetivo. O objetivo é se amar, de qualquer forma.

A mais nova ainda não chegou a esse ponto do caminho: está ainda lambendo as feridas, aprendendo a cuidar do coração. É um eterno aprendizado, na verdade: eu acerto aqui, mas posso errar lá. Não posso ficar parada, remoendo o que se foi. Vou tentar guardar as lembranças boas em uma caixinha e mais tarde, quando quiser, vou revê-las com carinho. Agora é hora de limpar o terreno para o novo que virá. E preciso emagrecer, malhar, me sentir melhor.

Nessa estrada cheia de curvas, a gente nunca sabe qual é a melhor direção a seguir. E o caminho que uma escolheu pode não ser o que é melhor para a outra. O que podemos fazer, de vez em quando, é colocar umas placas pelo caminho e torcer para que quem vem depois consiga enxergar.

A difícil arte do amor próprio (acima do peso)

Nunca fui magra.

Eu. Abril/2013
Eu. Abril/2013

Minto: fui uma criança magra até uns 7, 8 anos. Depois veio a puberdade e eu engordei. Gorda, baleia, saco de areia. Cansei de ser chamada assim. Sempre me incomodou o julgamento de valor reservado às pessoas acima do peso. Você é menos que qualquer um: menos interessante, capaz, bonita. Suas conquistas são tidas como menores. Os papéis reservados a você são poucos – e se você não se encaixa, te ignoram. Você pode ser a gorda cdf (eu fui parar aí). Pode ser a palhaça da turma. Pode ser a gordinha fácil, corrimão de escada. Pode ser a gorda freak que não fala com ninguém (eu quase fui parar aí). Lembro que uma vez, visitando minha avó paterna, ela me abraçou, me olhou de cima a baixo e disse: parece a

Wilza Carla como Dona Redonda.
Wilza Carla como Dona Redonda.

Wilza Carla. Eu não sabia quem era. Perguntei ao meu pai e ele desconversou. Depois fui saber que era a atriz que interpretou a Dona Redonda, personagem da novela Saramandaia. O fim da Dona Redonda? Ela explodiu no último capítulo.

Aos 14 anos eu tinha por volta de 1,56m e estava acima dos 80kg. Foi aí que eu resolvi que não queria mais me olhar no espelho e ver aquela pessoa. Um ano de dieta ferrenha e algum exercício (nunca fui fã), consegui chegar aos 52kg. Vocês não têm ideia da alegria que foi entrar numa loja e encontrar fácil uma roupa que lhe caiba. É mágico: como cair na toca do coelho e ir ao País das Maravilhas.

Obviamente, não consegui manter meus sonhados 52kg. Estou no efeito sanfona sempre – acredito que principalmente por ter asco à academia. Vocês sabem como era o ambiente de academia nos anos 90? Pessoal malhado, corpo perfeito, meninas maquiadas, menosprezo ao diferente. Com uns 20 e poucos anos, entrei em uma academia uma única vez para perguntar sobre matrícula e horários. A atendente me julgou meticulosamente, com um sorrisinho no canto da boca. Senti-me humilhada, a pior da espécie por estar acima do peso. Nunca mais entrei em academia desde então.

Eu. Agosto/2014.
Eu. Agosto/2014.

Agora já balzaquiana, como diz uma grande amiga, é só ladeira abaixo: o metabolismo desacelera e é muito mais difícil perder – ou melhor, eliminar – os quilos a mais. Ano passado, procurei uma endocrinologista e comecei mais uma dieta. Comecei a fazer caminhadas; já estava até engrenando numa corridinha. Houve uma espécie de olimpíadas entre empresas e eu participei em duas categorias: handebol e peteca. Era ótimo! Assim eu até consigo praticar algum esporte. Lembrei-me de quando era criança e fazia natação. Estava até pensando em voltar a nadar.

Aí veio a tenossinovite e eu fiquei doente. E eu ainda estou doente.

A pior parte em ficar tanto tempo afastada do trabalho é me sentir inútil. Eu poderia ainda caminhar, porque a doença afeta a mão e não os pés. Mas há dias de dor, e dias de muita dor. E dias em que tudo o que eu quero é me esconder dentro de casa e nem olhar o mundo pela janela. Conclusão óbvia: engordei novamente.

Mas é como se esse período, na verdade, me trouxesse um despertar inesperado. Além de me perceber feminista (graças a Deusa!), descobri o movimento de aceitação do corpo, e comecei a pensar pela primeira vez que eu não preciso ser magra para ser bonita: posso e devo me amar do jeito que for, com 52kg ou 82kg.

Foto do facebook da Ju Romano
Foto do facebook da Ju Romano

Esse aqui é um ponto delicado da minha autoestima. Eu nunca me achei bonita. Nunca. Isso não me impediu de conhecer os carinhas e tals, mas me impediu (e impede) de me olhar no espelho e me sentir bem. E agora eu estou aprendendo aos poucos a mudar isso, a me ver de forma mais positiva. E tem tanta gente, mas tanta gente nessa internet que me inspira! A Ju Romano, por exemplo. Ela é confiante, charmosa, exala beleza em tudo. Você vê que ela se ama. Eu vejo isso e penso: por que não eu também?

Já me disseram que o meu feminismo funciona muito bem para os outros, mas eu não o aplico para mim. A partir de agora, eu quero amadurecer dentro de mim todos os ensinamentos positivos que venho apreendendo.

Assim que o médico liberar, eu quero voltar aos exercícios: caminhar, correr, voltar a jogar handebol, peteca… Voltar a nadar. Encarar o exercício como uma melhoria da qualidade de vida, e não uma busca cega pela magreza. Isso não é saudável. Ter amor próprio e buscar uma boa saúde, sim.

Maravilhosas Mulheres!

Desejem-me sorte. Ou melhor: desejem-me força de vontade, porque eu vou precisar.

Cena do cotidiano 2

Em um fast food, mãe e tia compram um lanche para uma pequena. A mãe mostra quais os brinquedos disponíveis na loja. Da coleção do Batman, tinha o próprio, o Robin, o Coringa e a Mulher-Gato. A Batgirl estava em falta.

_ Qual você quer? – pergunta a mãe.

_ Eu quero esse aqui! – a menina aponta para o Robin.

_ Ah, mas esse é de menino – a mãe argumenta.

_ Você não prefere essa aqui? Essa é a gatinha, é menina – complementa a tia.

_ … Eu quero esse e essa aqui – a menina aponta para o Robin e a Mulher-Gato.

_ Mas só pode escolher um – responde a mãe.

_ Então eu quero esse aqui! – ela aponta novamente para o Robin.

Mãe e tia continuam argumentando que aquele é um brinquedo de menino, mas a pequena está irredutível. A mãe cede, mas proclama que depois a filha iria querer trocar o brinquedo. A menina sorria, feliz.

Voltando para casa, passo pela avenida beira-rio, ponto tradicional de fotos de debutantes e noivas. Vejo um fotógrafo, uma noiva e seus fiéis ajudantes. Ela sorridente que só, irradiando uma felicidade que contagia. Vestido tomara-que-caia, meio drapeado, véu e grinalda. Ela não era uma noiva dita tradicional: estava acima do peso. Mas isso não a impediu de se casar, sentir-se linda no seu dia especial, amar-se.

_ Pega o vestido assim na altura da coxa e mostra as pernas! Joga os ombros! – um dos ajudantes, certamente um amigo próximo, dá algumas dicas.

Ela sorri, posa de lado, levanta o vestido e a câmera é dela.

Não precisamos de outro herói, mas sim de uma Imperatriz Furiosa

FURIOSA <3Finalmente assisti a Mad Max: Fury Road ontem. Pela primeira vez depois de um longo tempo, fui ao cinema com as expectativas na estratosfera. Não costumo fazer isso porque geralmente acabo saindo perdendo, mas depois de ter lido tantas resenhas e comentários, não pude evitar.

Que filme. Que filme! Cenas de ação de tirar o fôlego e um roteiro simples (ir do ponto A ao ponto B, basicamente), o visual, a fotografia, a música… Tudo ótimo. O clima de seita religiosa toda vez que um dos meninos nascidos para a guerra dizia “eu vivo, eu morro; eu vivo de novo”. Valhalla, a Estrada da Fúria, os nomes!

Quero me casar com Charlize Theron. Que performance!

Há quanto tempo não havia um filme de ação que elevasse a moral feminina. Um filme dirigido por um cara declaradamente feminista – não sou eu que estou dizendo, mas o próprio George Miller, criador do universo diesel punk de Mad Max.  Vale a pena ler o post sobre o filme aqui no site blogueiras feministas, que apresenta uma análise muito pertinente e mais aprofundada.

E para quem reclamou da falta de protagonismo do Max nesta película, vale lembrar: o choro é livre. Deixem de ser egoístas e deem uma olhada em quantos filmes com protagonistas machos botando pra quebrar existem por aí. Deixem a gente bater palma pra Furiosa em paz 🙂

As mulheres da minha vida

Com minha mãe, aprendi o valor da educação, independência, integridade. Estude, minha filha, para que você tenha instrução, e para que tenha um bom trabalho e não dependa de ninguém – ela sempre me dizia. Aprendi também que, por mais torta e obscura fossem as minhas escolhas, ela sempre estará ao meu lado – para me parabenizar ou me consolar, para me fazer perceber onde acertei e onde errei. Com a minha mãe, aprendi a amar.

Com minha avó, aprendi a dar carinho e fazer cafuné. E com ouvidos atentos, passei a escutar as histórias de sabedoria de sua vida humilde. Aprendi História, Música e Culinária – mesmo que essa última em menor escala. Aprendi que por mais diferentes sejam as nossas crenças e religiosidades, o respeito e o amor não vestem nenhuma doutrina. Com minha avó, aprendi a amar.

Com minhas irmãs, aprendi a dividir – e que é muito melhor somar e multiplicar do que dividir a atenção. Aprendi que por mais que sejamos diferentes, somos frutos de uma árvore única e estamos sempre tentando florescer o melhor que há em nós. Aprendi a tentar ser um exemplo, a ensinar a lição de casa e algumas lições da vida. Com minhas irmãs, aprendi a amar.

Com minhas amigas, aprendi a rir de mim mesma, a dançar como se estivesse sozinha no mundo, a ler livros novos, a falar outras línguas. Com minhas amigas, chorei muitas vezes, senti ciúmes outras. Com minhas amigas, aprendi que há irmãs que nos vêm de árvores diferentes – e são lindas. Com minhas amigas, aprendi a amar.

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O Dia da Mulher é todo dia. É quando você a respeita, quando a trata da mesma forma que gostaria de ser tratado. A luta feminina para adquirir esse respeito precisa ser reconhecida e entendida por aqueles que ainda não a compreendem. Neste link há um resumo sobre a importância histórica d0 8 de Março.

Em 1917, passeatas comemorando o Dia da Mulher em São Petesburgo iniciaram a Revolução de Fevereiro. As mulheres entraram em greve exigindo “Pão e Paz”, o fim da Primeira Guerra Mundial, o fim do racionamento de comida na Rússia e o fim do Czarismo. Isso tudo aconteceu no último domingo de Fevereiro – 8 de Março no calendário gregoriano. Esta revolução deu início à primeira fase da Revolução Russa de 1917, derrubou a autocracia do Czar Nicolau II e tentou estabelecer uma república de cunho liberal.

Independente da nossa simpatia política por qualquer ismo, é importante ressaltar que historicamente mulheres vêm sofrendo discriminação de gênero e violência. No Brasil, entre 2001 e 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios (assassinato de mulheres). Isso equivale a aproximadamente 5 mil mortes por ano.

shirtÉ sempre bom lembrar que feminismo não é o antônimo de machismo ou masculinismo. O feminismo objetiva direitos iguais entre homens e mulheres, libertando-nos da opressão patriarcal baseada em normas de gênero. Resumindo: feminismo é a noção radical de que mulheres são pessoas.