Amores de papel

De tempos em tempos eu me apaixono por algum livro. Divido aqui com vocês algumas das minhas paixonites literárias. A lista é longa e interminável, então citarei alguns dos mais queridos.

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A Tribo Perdida. Fonte: http://www.gamebooks.org

 

O meu primeiro amor foi um livro da Coleção Enrola e Desenrola da Ediouro. Chamava-se A Tribo Perdida, de autoria da Louise Munro Foley. Foi o meu primeiro contato com algum tipo de role playing game. Você acompanha a história de um garoto em viagem pela Nova Zelândia, junto com seu tio antropólogo. Em todo o fim de página, é necessário fazer uma escolha: seguir para a direita ou esquerda, arriscar falar com alguém ou não, por exemplo. Isso te leva a uma outra página, a um outro desenrolar da trama. Era uma delícia e nunca me cansava de ler.

 

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Tenho tudo! ❤ Fonte: mercadolivre.com.br

Depois veio Duna, de Frank Herbert. O meu amor se estendeu até os próximos dois volumes da saga do planeta Arrakis (Messias de Duna e Filhos de Duna) e as lutas políticas pelo domínio da especiaria. Tenho citações queridas revolvendo em minha mente e coração: planos dentro de planos; quem controla a especiaria, controla o mundo; você deve trilhar o caminho dourado; aquele que dorme precisa acordar. A minha mais querida citação é a litania Bene Gesserit contra o medo, a qual utilizo regularmente como oração em situações de angústia. Na febre da paixão, comprei também os livros em paperback de autoria do filho do tio Herbert, Brian Herbert, sobre as famílias que aparecem na série. Nota-se que o filho de Tolkien fez um discípulo, hehe.

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Tem filme também – Fonte: skoob.com.br

 

Também teve O Templo do Pavilhão Dourado, escrito pelo meu autor japonês favorito, Yukio Mishima. Ele sempre foi uma figura controversa: ultramilitar, xenófobo, fiel ao Imperador e a uma visão muito própria do Hagakure, o código samurai. Mishima baseou seu romance na história real do monge que, em 1950, ateou fogo ao Kinkakuji, um famoso templo em Quioto. O questionamento sobre a beleza e sua efemeridade, mesclados com os ensinamentos budistas e a mente perturbada do protagonista, me foram muito impactantes.

 

E agora eu adiciono o maravilhoso livro A Mão Esquerda da Escuridão a este grupo de joias. Levei cerca de dois anos para encontrar esta obra-prima da Ursula K. Le Guin: revirei sebos, procurei em livrarias… Finalmente encontrei o danadinho no Submarino e não pensei duas vezes antes de comprar.

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A Tribo Perdida. Fonte: http://www.gamebooks.org

Acompanhamos Genly Ai em sua missão como Enviado do Ekumen, uma espécie de guilda entre povos do universo, até o distante Gethen, também conhecido como Inverno. O planeta está passando pelo fim de uma Era Glacial e suas temperaturas são geralmente abaixo dos 20 graus. A sociedade é algo um tanto quanto medievalesca em sua configuração – há um reino e um país que poderíamos definir como parlamentarista – , centrada na sobrevivência. Não são capazes de fazer viagens espaciais, e a chegada de um alienígena por muitas vezes é desacreditada.

Além da natureza adversa, os humanos deste planeta são ambissexuais – ou seja, não se definem nem enquanto homem, nem enquanto mulher. Passam por um período chamado kemmer a cada 26 dias, nos quais sentem-se estimulados sexualmente e seus corpos passam por mudanças. Dependendo do estímulo, o corpo adapta seus órgãos para masculinos ou femininos.

Imagine uma sociedade onde as pessoas se respeitam por serem pessoas, é não há diferença de valor pelo gênero ao qual ela pertence. Imagine o nó que dá na cabeça de Genly Ai, um homem cisgênero, heterossexual, ao se deparar com uma sociedade tão diferente, com valores tão únicos. Imagine o nó na cabeça dos humanos de Gethen: muitos consideram o recém-chegado uma aberração, pois está “sempre no kemmer“.

Imagine um protagonista negro. Imagine os outros personagens como pessoas de cor. Um mundo onde não há distinção entre gêneros. Onde não há estupro, apenas sexo consensual.

Ursula também nos apresenta algumas religiões dos povos de Gethen, sua forma de ver o mundo e o universo, mitos e lendas. É um livro de ficção-científica no sentido humano da palavra: a autora não se apega às parafernálias ou tecnicismos, mas mantém seu foco no fator social do choque entre culturas.

Já estou me programando para reler A Mão Esquerda da Escuridão em um futuro muito, muito próximo.

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30 Dias de Amor Próprio 2/30: a escritora preguiçosa se rebela

A partir do dia 24 de Outubro comecei a participar de um curso de escrita criativa online pela Universidade de Iowa. Li sobre essa oportunidade no Facebook, acho que um dos meus amigos com quem publiquei o Contos da Confraria mencionou – ou foi alguém no grupo de Literatura Fantástica?

Enfim, eu resolvi embarcar nessa aventura com a cara, a coragem, a preguiça e o meu inglês mal-acabado. Lembro-me de escrever algumas poucas linhas em inglês quando era adolescente, mas nunca mostrei a ninguém. Primeiro porque tinha a consciência de que era ruim. Segundo que, sei lá, eram pensamentos românticos de mal-de-século demais para que qualquer outra pessoa pudesse apreciar. E terceiro que era tudo muito ruim.

g6y3c1x9dn1jdcxr-Ban2O curso começou e eu estou empolgadíssima. Todos os dias temos tarefas para escrever e enviar no fórum, ou então algum texto para ler e comentar.

Compartilhar as minhas criações vêm sendo um ótimo exercício de aceitação para mim. As tarefas são curtas (até agora o máximo pedido foi de 500 palavras) e as diretrizes são acessíveis. Saber que algum desconhecido irá ler e avaliar me deu um pouco de medo a princípio, mas parei e pensei: você gosta de escrever, não é mesmo? Se você quer continuar a fazer isso, precisa se permitir, colocar a cara à tapa e aceitar as críticas.

E vencer esta maldita preguiça, pelo amor da Deusa.

Terry Pratchett e Patrick Rothfuss falam de fantasia

A linda da Camila Fernandes nos fez a todos o grande favor de traduzir parte de uma belíssima entrevista dada pelo Terry Pratchett, e eu me sinto no dever de republicar e dividir mais um pouquinho com o mundo.
Eu escrevo fantasia. Minha mente revolve em fantasia – urbana e de terror, algumas um pouco psicológicas; mas tudo é fantasia – e não há nada que me complete mais que isso. Meus livros favoritos são deste gênero. Meu sonho, a Musa e a minha diligência permitindo, é um dia publicar um romance de fantasia. E Terry Pratchett é meu pastor, junto com vários outros. Sim, nós somos Legião.

Camila Fernandes

Patrick Rothfuss desenterrou uma entrevista que Terry Pratchett deu em 1995 ao jornal TheOnion. Para quem não sabe, Rothfuss é um proeminente escritor de fantasia, autor da série A Crônica do Matador do Rei, cujos primeiros dois volumes, o premiado O Nome do Vento e O Temor do Sábio, foram publicados no Brasil pela Editora Sextante. Já Sir Terry Pratchett, que morreu em março deste ano, é considerado um dos maiores nomes da fantasia de todos os tempos, autor de vasta obra, com destaque para os 40 livros da série Discworld, alguns dos quais foram lançados aqui pela Conrad e pela Bertrand Brasil.

Mas você nem precisa conhecer tais livros para se deliciar com a entrevista com Pratchett que Rothfuss desencavou (e que mudou a vida dele). Traduzi o trecho que mais me interessava e alguns comentários do próprio Rothfuss. Também tomei a liberdade de colocar…

Ver o post original 1.105 mais palavras

E-book: Deserto dos Desejos

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Party people, o e-book do meu confrade Pablo nasceu! Clique aqui para prestigiar e comprar, tá com um precinho camarada. Aproveitem para ir lá no boteco dele comentar, criticar (de forma construtiva e respeitosa, por favor) e encher a casa do rapaz com hit de visitas 🙂

Enfeitou-se com poesia e abriu a porta

Colega no Facebook pediu pra gente citar nossa poesia favorita em língua portuguesa. Tive dificuldade tremenda em escolher apenas uma, e obviamente não consegui. Como os dias têm sido torturantes desde a chegada de Clarisse (não a Lispector, mas a minha TPM, que tem nome e personalidade própria), quero fazer o exercício de pôr aqui algumas das minhas poesias favoritas.

Autora: Cecília Meireles (1901 – 1964)

Tia Cecília é uma lindeza só. Gosto tanto dela que tentava (em vão) escrever parecido, quando tinha lá os meus 15, 16 anos. Seguem duas pérolas em forma de poesia:

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

– – –

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Divulgando: Deserto dos Desejos

Meu confrade Pablo Amaral, com quem tive a honra de participar na minha primeira empreitada publicada, está preparando um e-book. Estou dando aquela mãozinha revisora, sendo a chata que acrescenta vírgulas e verifica concordâncias, enchendo a caixa de email, essas coisas.

A divulgação de seu e-book, intitulado Deserto dos Desejos, será feita pelo blog Boteco do Pablo. Por enquanto podemos acompanhar seus comentários sobre o trabalho de polimento do texto, saber como surgiu a ideia para o livro e afins. Eu, enquanto madrinha coruja, também estou ajudando a espalhar a boa nova.

Assim como eu, Pablo adora histórias de terror. Ele inclusive fala sobre isso lá no Boteco. Preparem seus corações…

Machado, livros e apólogos

Eu tenho TOC com os meus livros.

Empresto numa boa, sem problemas: mas eles vão cheios de ressalvas e premissas:

– Não arregace os meus queridos. Abra-os em ângulo de 90º no máximo;

– Não faça anotações;

– Em hipótese alguma use as orelhas pra marcar as páginas. Pra isso existe marcador de páginas;

– Vai saracotear por aí? Tudo bem, mas coloque-o dentro de uma bolsinha, pra que não amasse a capa.

Se eu sou assim com meus livros, imagine com meus autores favoritos!…

… Nah, eu aceito críticas aos meus queridos, sim. Estou exagerando. Mas fiquei possessa ao ler este absurdo aqui:

ESCRITORA MUDA OBRA DE MACHADO DE ASSIS PARA FACILITAR A LEITURA

Eu sou fã de Machadão desde criancinha. Claro, sempre fui exceção, eu sei disso. Mas eu também percebi logo cedo o porquê de ser exceção. Se no tempo em que eu, agora balzaca, tinha 15 anos e era morena e linda (também gosto muito do Joaquim MachadãoManuel de Macedo), já era difícil fazer alguém ler Dom Casmurro, por exemplo, imagina a dificuldade agora de alguém pegar um livro com – absurdo! – mais de 100 páginas e ler. E vejam só, absurdo maior: usar um dicionário para procurar palavras desconhecidas.

Era assim que eu fazia. E tinha momentos em que estava tão envolvida pelo texto que deixava pra lá e tentava entender pela história, pelo contexto mesmo. É assim que a gente vai adquirindo vocabulário: lendo. Depois, o próximo passo é utilizar, é escrever. Assim aprendemos o modo apropriado do uso das palavras, o modo apropriado de escrever, as regras de acentuação, e antes de P e B só se usa M e por aí vai…

Quer “facilitar” pra garotada? Passa os contos do Machado. Ali não tem erro. Passa o apólogo. Ah pô, mas o que é um apólogo? Meu filho, tomaqui este link e vai ser feliz.

E tomaqui este texto também.

– – –

Um Apólogo

Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Texto extraído do livro “Para Gostar de Ler – Volume 9 – Contos“, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 59.

Virei gente grande e publiquei! – – Lançamento do livro “Contos da Confraria”

Party people, IT’S ALIVE!!! *________________________*

O fruto de onze mentes insólitas está finalmente maduro e fará sua estreia no mês que vem. Já posso dizer que sou “escritoura” 😛

Ano passado participei do curso de Estrutura Literária ministrado por Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse e Filhos do Éden. O curso me abriu a mente para a tal Jornada do Herói e em como ela se aplica nas mais diversas áreas – literatura e cinema, principalmente; mas também na história de vida de todos nós – e também me trouxe várias ótimas surpresas: entre elas, esses dez guris que se empolgaram em unir suas mentes doidas para juntos nos lançarmos na aventura de publicar.

Um oceano de emails trocados, reuniões, discussões acaloradas e conversas de bar… E eis que nasceu! Convido a todos os interessados por literatura fantástica, fantasia, ficção científica e terror para ler nossas páginas.

LANÇAMENTO DO LIVRO CONTOS DA CONFRARIA

DATA: 08 DE AGOSTO DE 2012

HORÁRIO: 19HS

LOCAL: BLOOKS LIVRARIA – PRAIA DE BOTAFOGO, 316

Link do lançamento no Facebook: https://www.facebook.com/events/335105089909087/

Página: https://www.facebook.com/contosdaconfraria