Meu amor por Machadão

Apaixonei-me por Machado de Assis ainda na pré-adolescência.

Resultado de imagem para machado de assis

Enquanto a maioria da turma achava a leitura um hábito sacal, eu e algumas poucas almas nos refugiávamos na biblioteca da escola, procurando por livros raros, cheirando as páginas dos recém-chegados volumes, pesquisando nas enciclopédias gigantes no tempo em que não havia Google.

Em uma dessas tardes, esbarrei em uma coletânea de contos de Machado de Assis. Ele ainda era só um nome na lista de leituras do semestre. Lembrei-me de quando acompanhei minha mãe à papelaria para comprar os materiais necessários para o ano letivo. Associei prontamente seu nome ao retrato daquele homem com óculos de aros finos e barba penteada, olhar distante e pele mulata que vi na capa de um dos livros comprados. Eu ainda não havia lido nada da história, apenas a contracapa na qual constava um breve resumo da trama e falava da importância do autor para a literatura brasileira.

No dia 21 de junho, comemorou-se os 178 anos de nascimento desse autor fenomenal. Totalmente a frente de seu tempo, com estilo único e incomparável, já traduzido para os mais diversos idiomas – sim, pode-se ler Machado de Assis até mesmo em japonês.

Já li crítico espanhol dizendo que Machado é maior até que Balzac ou Charles Dickens. Se fosse autor de origem francesa, inglesa ou americana, talvez fosse ainda mais reverenciado mundialmente. No meu coração, ele já o é ❤

Aproveito para compartilhar algumas citações do grande Bruxo do Cosme Velho.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881)

 

“Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.”
Em “Dom Casmurro” (1899)

“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”
Em “Memorial de Aires” (1908)

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis…”
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881)

“Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir”
Em “Carta a Lucio de Mendonça” (24 de janeiro de 1872)

“Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: ‘A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.'”
Em “Esaú e Jacó” (1904)

“Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é possível; está nas tuas mãos.”
Em “Iaiá Garcia” (1878)

“–Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”
Em “Ressurreição” (1872)

Fonte no site da Folha.

Morfina

Em 2011, quando me inscrevi no curso de Estrutura Literária ministrado pelo Eduardo Spohr, nunca poderia imaginar que dali surgiria uma confraria e uma coletânea de contos. Éramos onze pessoas empolgadas (eu de bendito fruto, única mulher no grupo): tudo era possível, enfrentaríamos os mares bravios, iríamos com tudo, go go team.

A primeira tarefa a ser vencida era, claro, escrever o bendito conto.

Lembro claramente da pressão que eu mesma joguei sobre os ombros. Sobre o que iria escrever? Vou montar o esquema que aprendi no curso, organizar tudinho e seguir à risca a jornada do herói? Ou vamos esperar a Musa tocar meu rosto e me empurrar no caminho certo?

No fim das contas, eu estava com uma página em branco diante de mim. Dentro do ônibus, um calor infernal, as têmporas suando. Fim de mais um dia de trabalho. Eu ainda atravessaria a cidade para chegar em casa.

Então a Musa soprou alguma coisa nos meus ouvidos.

Daí me veio a lembrança desta música e eu comecei a escrever no caderno. A caneta escorregava entre os dedos, rápida, garranchos lindos. A mão tentava acompanhar o pensamento.

 

Resultado de imagem para revista bizz
Fonte: R7.com

Conheci o Morphine por volta de 1998 graças a um cd que veio junto em uma edição da revista Bizz. Nem sei se a revista ainda existe, provavelmente não. Mas ali tinha Morphine, Marianne Faithful e mais um monte de gente boa da qual não me lembro agora. Esse trio ganhou meu coração instantaneamente porque o contrabaixo domina.

 

 

E sim, a minha história acabou sendo um pouco baseada na letra desta música.

Quando desci do ônibus, a história estava praticamente terminada. Eu iria passar a limpo, revisar, inserir mais algumas cenas – mas o coração estava lá, pulsando. A minha pequena diabinha dançava ao som de Morphine, insinuante em seu vestido vermelho.

Atlas de Nuvens

Cartas escritas por um viajante percorrendo as ilhas do oceano pacífico,no meio do século XIX. O diário de um jovem músico brilhante e bon-vivant em sua estadia na Bélgica dos anos 1930. Um thriller de suspense e intrigas empresariais passado nos anos 70, tendo como cerne uma jornalista perspicaz. As peripécias de um senhor de quase setenta anos ao ser internado em um asilo na Inglaterra, por volta de 2010. A entrevista de uma clone que despertou de sua inércia em uma sociedade distópica na Coreia, em algum tempo no século XXII. Um velho conta a história de sua juventude a um grupo de jovens no que já foi a ilha do Havaí, alguns séculos adiante.

E de alguma forma sutil e verdadeira, tudo está intrinsecamente conectado.

Resultado de imagem para atlas de nuvensCloud Atlas – ou Atlas de Nuvens, na tradução para o português – é um livro de 2004 escrito por David Mitchell. Recebeu vários prêmios e foi adaptado para o cinema em 2012 contando com um elenco estelar: meu querido Tom Hanks, Hugo Weaving, Halle Berry, Hugh Grant. Foi dirigido pelas irmãs Wachowski (aquelas de Matrix). Aqui no Brasil, a adaptação recebeu o nome de A Viagem. Acho que pros noveleiros se lembrarem daquela novela que passou na Globo há uns anos e falava sobre reencarnação.

O meu primeiro contato com Cloud Atlas foi pela adaptação cinematográfica. Reconheço que faço parte do grupo de 14 pessoas que gostou da história. Não se pode sequer piscar durante o filme, se não você perde alguma informação importante, deixa de ver algo crucial para conectar todos os pontos, ou deixa de entender alguma pista. Assisti no cinema, e muitos anos depois vi novamente na televisão.

Quando descobri que não era roteiro original, saí em busca do livro. Eu precisava ler o original, porque sabia que não podia ter só aquilo que vi no cinema. Ganhei o bendito como presente de Natal ano passado e comecei a ler de imediato. Dito e feito: a experiência do livro é muito mais profunda e intensa. Foi um daqueles volumes que eu demorei a terminar quando cheguei perto do final, simplesmente porque não queria que terminasse.

A capacidade do David Mitchell em adaptar seu próprio modo de escrever a cada trecho da narrativa é impressionante. Parece que várias pessoas diferentes escreveram, mas ao mesmo tempo podemos perceber que foi uma única mente que amarrou tudo. A minha parte favorita é a que conta a história de Sonmi-451, uma clone criada para servir aos seres humanos possuidores de almas (obs: alma aqui tem outro sentido). Várias palavras foram adaptadas, criando novos significados. Eu conseguia visualizar muito bem a distopia proposta pelo autor. Uma passagem no final da entrevista de Sonmi-451 ao arquivista (ou carceceiro) explicita muito bem a linha narrativa do livro inteiro:

Você lamenta a vida que levou?

Como posso lamentar minha vida? Podemos lamentar uma ação escolhida livremente, porém errônea; mas o livre-arbítrio não desempenha nenhum papel na minha istória.

 

Vai logo alugar na locadora do Paulo Coelho!

Atlas de Nuvens é um daqueles raros casos em que eu recomendo assistir a adaptação primeiro e depois ler o livro. Acho que assim a frustração é menor. Acredito que a experiência cinematográfica ficou limitada justamente por causa do tempo de tela: no livro tem história para pelo menos uma minissérie. E eu já falei da trilha sonora?

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

De Ferreira Gullar


 

Desde que David Bowie foi fazer show no Mundo Invisível, logo no início do ano, 2016 tem levado talentos em saraivadas. Hoje, foi-se Ferreira Gullar.

Tá foda viver.

Agosto, de Rubem Fonseca (trecho)

O homem conhecido pelos seus inimigos como Anjo Negro entrou no pequeno elevador, que ocupou por inteiro com seu corpo volumoso, e saltou no terceiro pavimento do Palácio do Catete. Andou cerca de dez passos no corredor em penumbra e parou em frente a uma porta. Dentro, no modesto quarto, vestido com um pijama de listas, sentado na cama com os ombros curvados, os pés a alguns centímetros do assoalho, estava o homem que ele protegia, um velho insone, pensativo, alquebrado, de nome Getúlio Vargas.

O Anjo Negro, depois de tentar ouvir se algum ruído vinha de dentro do quarto, recuou, apoiando as costas numa das colunas coríntias simetricamente dispostas na balaustrada tetragonal de ferro que cercava o vão central do hall do palácio, àquela hora silencioso e escuro. Deve estar dormindo, pensou.

Depois de certificar-se que não havia anormalidades no andar residencial do palácio, Gregório Fortunato, o Anjo Negro, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, desceu as escadas em direção ao gabinete da assessoria militar, no térreo, verificando, no caminho, se os guardas mantinham-se nos seus postos, se o Palácio das Águias estava em paz.

O major Dornelles conversava com outro assessor, o major Fitipaldi, quando Gregório entrou no gabinete.

O chefe da guarda pessoal, depois de examinar com os dois assessores militares o plano que a segurança adotaria na ida do presidente ao Jockey Club no domingo, dia do Grande Prêmio Brasil, foi para seu quarto.

Tirou o revólver e o punhal que sempre carregava, colocou-os sobre a
mesinha e sentou-se na cama, onde havia vários jornais espalhados.

Leu as manchetes, apreensivo. Aquele ano começara mal. Logo em fevereiro, oitenta e dois coronéis, apoiados pelo então ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, haviam divulgado um manifesto golpista e reacionário criticando as greves dos trabalhadores e falando ardilosamente no custo de vida. O presidente demitira o ministro traidor, sem ter outro general de confiança para colocar no seu lugar. Gregório sabia que o presidente não acreditava na lealdade de mais ninguém das Forças Armadas desde que o general Cordeiro de Farias, que sempre comera pela mão dele como um cachorrinho, o apunhalara pelas costas em 1945. Mas acabara tendo de colocar no Ministério da Guerra um homem em quem também não confiava, o general Zenóbio da Costa, aceito sem restrições pelos militares por ter sido um dos comandantes da Força Expedicionária Brasileira que lutara ao lado dos americanos na guerra. Para apaziguar os milicos fora obrigado a exonerar do Ministério do Trabalho seu amigo Jango Goulart. Isso tudo acontecera antes que fevereiro acabasse. Sim, fora um mau começo de ano, pensou Gregório. Em maio os golpistas haviam tentado o impeachment do presidente e o traidor João Neves ajudara a difundir falsidades sobre um acordo secreto entre Perón e Getúlio. Gregório não se esquecia do que João Neves lhe dissera, ainda ministro das Relações Exteriores: “Não meta o nariz aonde não é chamado, seu negro sujo”, tudo porque ele, Gregório, tentara estabelecer um contato direto entre o presidente e o emissário do presidente Perón da Argentina. Ainda em maio, o enterro de um jornalista, morto a socos por um policial conhecido como Coice de Mula, fora usado como pretexto para uma passeata contra o governo pelos seguidores fanáticos do Corvo, os lanterneiros, um bando de golpistas que se reuniam no chamado Clube da Lanterna, apoiados pelas mal-amadas, uma associação de donas de casa histéricas. Em julho, a canalha udenista, sempre com propósitos golpistas, inventara uma conspiração comunista. Por trás de tudo avultava a figura sinistra do Corvo.

Sobre a cama estava um exemplar de Ultima Hora, o único jornal importante que defendia o presidente. Na primeira página, uma caricatura de Carlos Lacerda. O artista, acentuando os óculos de aros escuros e o nariz aquilino do jornalista, desenhara um corvo sinistro trepado num poleiro. O Anjo Negro levantou o braço e cravou com força o punhal no desenho. A lâmina varou o jornal e os lençóis, perfurou o colchão, emitindo um som arrepiante ao raspar em uma das molas de aço.

Gregório colocou o revólver de volta no coldre da cintura e o punhal na bainha de couro. Vestiu o paletó e saiu do seu quarto.

 

Fonte: lelivros

Amores de papel

De tempos em tempos eu me apaixono por algum livro. Divido aqui com vocês algumas das minhas paixonites literárias. A lista é longa e interminável, então citarei alguns dos mais queridos.

triboperdida
A Tribo Perdida. Fonte: http://www.gamebooks.org

 

O meu primeiro amor foi um livro da Coleção Enrola e Desenrola da Ediouro. Chamava-se A Tribo Perdida, de autoria da Louise Munro Foley. Foi o meu primeiro contato com algum tipo de role playing game. Você acompanha a história de um garoto em viagem pela Nova Zelândia, junto com seu tio antropólogo. Em todo o fim de página, é necessário fazer uma escolha: seguir para a direita ou esquerda, arriscar falar com alguém ou não, por exemplo. Isso te leva a uma outra página, a um outro desenrolar da trama. Era uma delícia e nunca me cansava de ler.

 

duna frank herbertjpg
Tenho tudo! ❤ Fonte: mercadolivre.com.br

Depois veio Duna, de Frank Herbert. O meu amor se estendeu até os próximos dois volumes da saga do planeta Arrakis (Messias de Duna e Filhos de Duna) e as lutas políticas pelo domínio da especiaria. Tenho citações queridas revolvendo em minha mente e coração: planos dentro de planos; quem controla a especiaria, controla o mundo; você deve trilhar o caminho dourado; aquele que dorme precisa acordar. A minha mais querida citação é a litania Bene Gesserit contra o medo, a qual utilizo regularmente como oração em situações de angústia. Na febre da paixão, comprei também os livros em paperback de autoria do filho do tio Herbert, Brian Herbert, sobre as famílias que aparecem na série. Nota-se que o filho de Tolkien fez um discípulo, hehe.

O_TEMPLO_DO_PAVILHAO_DOURADO_1334353643B
Tem filme também – Fonte: skoob.com.br

 

Também teve O Templo do Pavilhão Dourado, escrito pelo meu autor japonês favorito, Yukio Mishima. Ele sempre foi uma figura controversa: ultramilitar, xenófobo, fiel ao Imperador e a uma visão muito própria do Hagakure, o código samurai. Mishima baseou seu romance na história real do monge que, em 1950, ateou fogo ao Kinkakuji, um famoso templo em Quioto. O questionamento sobre a beleza e sua efemeridade, mesclados com os ensinamentos budistas e a mente perturbada do protagonista, me foram muito impactantes.

 

E agora eu adiciono o maravilhoso livro A Mão Esquerda da Escuridão a este grupo de joias. Levei cerca de dois anos para encontrar esta obra-prima da Ursula K. Le Guin: revirei sebos, procurei em livrarias… Finalmente encontrei o danadinho no Submarino e não pensei duas vezes antes de comprar.

lefthand
A Tribo Perdida. Fonte: http://www.gamebooks.org

Acompanhamos Genly Ai em sua missão como Enviado do Ekumen, uma espécie de guilda entre povos do universo, até o distante Gethen, também conhecido como Inverno. O planeta está passando pelo fim de uma Era Glacial e suas temperaturas são geralmente abaixo dos 20 graus. A sociedade é algo um tanto quanto medievalesca em sua configuração – há um reino e um país que poderíamos definir como parlamentarista – , centrada na sobrevivência. Não são capazes de fazer viagens espaciais, e a chegada de um alienígena por muitas vezes é desacreditada.

Além da natureza adversa, os humanos deste planeta são ambissexuais – ou seja, não se definem nem enquanto homem, nem enquanto mulher. Passam por um período chamado kemmer a cada 26 dias, nos quais sentem-se estimulados sexualmente e seus corpos passam por mudanças. Dependendo do estímulo, o corpo adapta seus órgãos para masculinos ou femininos.

Imagine uma sociedade onde as pessoas se respeitam por serem pessoas, é não há diferença de valor pelo gênero ao qual ela pertence. Imagine o nó que dá na cabeça de Genly Ai, um homem cisgênero, heterossexual, ao se deparar com uma sociedade tão diferente, com valores tão únicos. Imagine o nó na cabeça dos humanos de Gethen: muitos consideram o recém-chegado uma aberração, pois está “sempre no kemmer“.

Imagine um protagonista negro. Imagine os outros personagens como pessoas de cor. Um mundo onde não há distinção entre gêneros. Onde não há estupro, apenas sexo consensual.

Ursula também nos apresenta algumas religiões dos povos de Gethen, sua forma de ver o mundo e o universo, mitos e lendas. É um livro de ficção-científica no sentido humano da palavra: a autora não se apega às parafernálias ou tecnicismos, mas mantém seu foco no fator social do choque entre culturas.

Já estou me programando para reler A Mão Esquerda da Escuridão em um futuro muito, muito próximo.

Os Pilares da Terra

Este ano forçadamente sabático tem me aberto os horizontes sobre filmes, livros e séries.

O livro, edição do Círculo do Livro em dois volumes. É esta que eu tenho
O livro, edição do Círculo do Livro em dois volumes. É esta que eu tenho.

Depois de desistir de acompanhar Game of Thrones porque já não é mais adaptação, e sim deturpação – hey, minha opinião; eu fiz exatamente o que os incomodados fazem, reclamei e parei de assistir – comecei a procurar séries novas para preencher o vazio dos meus dias. Nisso conheci a adaptação de Os Pilares da Terra, livro de Ken Follett, romance sobre a construção de uma catedral e suas implicações. No pano de fundo maior temos o período conhecido como Anarquia durante o século XII, na Inglaterra, quando houve a disputa pelo trono. Há muita trama política entre pequena nobreza e clero, a questão da religiosidade medieval e o papel da mulher. A inspiração veio da real catedral de Salisbury.

A minissérie é de 2010 e tem oito capítulos de uma hora cada. Eu os devorei em dois dias. A principal responsável por isso é Aliena, representada pela Hayley Atwell. Ela é tudo o que você não espera de uma filha de conde: inteligente, orgulhosa sem ser pedante, e com um senso de responsabilidade muito forte. A história começa com Aliena se negando a um casamento arranjado com o jovem William Hamleigh, que é um vilão completo. O conde, pai de Aliena, havia lhe prometido que permitiria seu casamento apenas se ela concordasse. Esse é o estopim para o início da história. Além da minha querida Hayley (sou fã da Agente Carter ❤ ), também temos no elenco o Eddie Redmayne como Jack, um jovem que vive na floresta com sua mãe. Ele vem a se apaixonar por ela e… Bem, vá ver a série!

Catedral de Salisbury. Fonte: www.pbase.com
Catedral de Salisbury. Fonte: http://www.pbase.com

É importante repetir: vá ver a série. DEPOIS leia o livro. Fiquei muito grata por só ter lido o livro depois, porque de outra forma, não teria assistido – por mais que adore a Hayley e o Redmayne. O livro é muito, muito diferente. Eles condensaram muito a história, que segue ainda durante muitos anos até que a catedral esteja terminada e o grande mistério sobre quem é o pai de Jack se resolva. O tio Follett consegue nos prender em sua narrativa muito bem e eu só senti cansaço mesmo em uma parte do livro, logo no início. Cada capítulo é escrito pelo ponto de vista de um personagem, o que nos ajuda a entender as motivações e desejos de cada um. Porém, a minha única ressalva é sobre o uso desse recurso

Capa do dvd da série. Fonte: cinegarimpo.com.br
Capa do dvd da série.
Fonte: cinegarimpo.com.br

com relação às personagens femininas. Há apenas três personagens de destaque: Aliena, obviamente a heroína; a mãe de William, Regan Hamleigh; e Ellen, mãe de Jack. As três possuem personalidades completamente diferentes e são muito interessantes. Sobre Aliena já comentei mais acima. Regan Hamleigh, por exemplo, é a cabeça pensante de sua família: é ela quem cria as maquinações e tramas possíveis para tentar elevar a posição dos seus. Já Ellen é uma mulher livre, que vive na floresta e não depende de ninguém, despreza a fé cristã e só respeita suas próprias vontades, não se curvando aos homens. Apenas Aliena recebe capítulos próprios, enquanto as outras duas são meras coadjuvantes.

Também me senti incomodada com as cenas de estupro, presentes e sugeridas bem mais de uma vez no decorrer do livro. Compreendo que é um traço de vilania do principal antagonista, William, e sua corja, mas enquanto mulher, qualquer violência desse tipo irá me incomodar.

Aliena e Jack <3 Nunca torci tanto pra um casal na literatura! Fonte: ritalovestowrite.com
Aliena e Jack Fonte: ritalovestowrite.com

Segui adiante com o texto mesmo sem saber o que esperar, já que o desenlace da série é completamente diferente. E foi uma das poucas vezes em que fui feliz em ter feito o caminho inverso – geralmente leio os livros antes de assistir às adaptações para tv e/ou cinematográficas.  Também é interessante comparar a visão do medievo que ele nos apresenta com os fatos. É claro que haverá diferenças, mas acredito que por ser um romance histórico, é importante que o autor mantenha sua liberdade imaginativa e tente conciliá-la com a acurácia histórica.

Fiquei tão empolgada que pretendo ler mais coisas do autor. Tio Follett é chegado em escrever tijolões e eu não tenho medo de livro grande.

30 Dias de Amor Próprio 2/30: a escritora preguiçosa se rebela

A partir do dia 24 de Outubro comecei a participar de um curso de escrita criativa online pela Universidade de Iowa. Li sobre essa oportunidade no Facebook, acho que um dos meus amigos com quem publiquei o Contos da Confraria mencionou – ou foi alguém no grupo de Literatura Fantástica?

Enfim, eu resolvi embarcar nessa aventura com a cara, a coragem, a preguiça e o meu inglês mal-acabado. Lembro-me de escrever algumas poucas linhas em inglês quando era adolescente, mas nunca mostrei a ninguém. Primeiro porque tinha a consciência de que era ruim. Segundo que, sei lá, eram pensamentos românticos de mal-de-século demais para que qualquer outra pessoa pudesse apreciar. E terceiro que era tudo muito ruim.

g6y3c1x9dn1jdcxr-Ban2O curso começou e eu estou empolgadíssima. Todos os dias temos tarefas para escrever e enviar no fórum, ou então algum texto para ler e comentar.

Compartilhar as minhas criações vêm sendo um ótimo exercício de aceitação para mim. As tarefas são curtas (até agora o máximo pedido foi de 500 palavras) e as diretrizes são acessíveis. Saber que algum desconhecido irá ler e avaliar me deu um pouco de medo a princípio, mas parei e pensei: você gosta de escrever, não é mesmo? Se você quer continuar a fazer isso, precisa se permitir, colocar a cara à tapa e aceitar as críticas.

E vencer esta maldita preguiça, pelo amor da Deusa.

E-book: Deserto dos Desejos

deserto-dos-desejos

Party people, o e-book do meu confrade Pablo nasceu! Clique aqui para prestigiar e comprar, tá com um precinho camarada. Aproveitem para ir lá no boteco dele comentar, criticar (de forma construtiva e respeitosa, por favor) e encher a casa do rapaz com hit de visitas 🙂