Weekend warrior

Em alguns momentos, a gente olha pela janela e tenta colocar todos os acontecimentos de nossa vida em perspectiva. É como se cada fato importante passasse diante de nossos olhos e a gente fosse percebendo os motivos, as falhas, os acertos, as oportunidades aproveitadas – ou desperdiçadas.

Isso costuma acontecer comigo todo dia de manhã, no trajeto para o trabalho. Observo as pessoas a minha volta e fico imaginando quais seriam suas lutas pessoais. Todo mundo é o protagonista de sua própria história e cada um de nós possui uma luta pessoal; isso é tão clichê que sinto até vergonha de dizer. Daí eu volto o olhar para dentro e tento ver quais são as minhas próprias batalhas.

Perceba que, para uma pessoa que se mostra expansiva, sociável e inteligente para o mundo, admitir a derrota é difícil. Mas eu percebo agora que as lições mais valiosas que aprendi foram justamente quando perdi alguma batalha.

Bem, eu estou aqui juntando as armas novamente e tentando me levantar. Vejamos o que virá pela frente.

And the game begins
The adrenalin’s high
Feel the tension maybe someone
Will die

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Oito de Março de 1950?

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Olhem que paz. Fonte: http://social.rollins.edu

Passei este Oito de Março em casa, com um belo torcicolo como companhia há 24 horas – e que possivelmente fará de tudo para estender sua permanência até o fim de semana. Tentei estudar, não consegui; tentei ler, mas foi em vão. Tentei escrever… Pior ainda.

Daí eu leio sobre o discurso que o presidente Temer fez hoje em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

“Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado de Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.”

Pausa para respirar fundo e contar até cem. Outro trecho interessante foi esse aqui ó:

“E hoje, como as mulheres participam em intensamente de todos os debates, eu vou até tomar a liberdade de dizer que na economia também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor.”


 

É de me coçar até as mitocôndrias.

Meninada, voltamos ao passado. Esqueçam a responsabilidade de ambos os genitores/tutores legais pelos filhos: quem pariu a criança, que a carregue. Voltemos a jogar toda a responsabilidade da educação dos filhos às mães. Ah, e a participação feminina na economia se dá pela exímia capacidade das mulheres em saber lidar com o orçamento doméstico.

Mas devo admitir que nem tudo foram espinhos (pun intended):

“[…] É um longo trajeto histórico que vem revelando a presença importantíssima da mulher. Aliás, em função disso, no próprio Plano Nacional de Segurança Pública, um dos primeiros pilares do Plano Nacional de Segurança Pública, lançado muito recentemente, é exatamente o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Nós estamos até cuidando de criar um fundo de combate à violência contra a mulher, e a bancada feminina já esteve comigo, é nós estamos cuidando disso, que é mais um passo no combate à violência contra a mulher. E estamos fortalecendo a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que é o 180.”

Apesar do que devemos nos lembrar que o atendimento nas delegacias de proteção à mulher é péssimo. E quando o presidente fala da bancada feminina, tenha os seguintes números em mente: as mulheres são mais de 50% da população brasileira, mas ocupam menos de 10% das vagas no Congresso Nacional.

Eu não sei em que mundo este homem vive, mas sei quando não é. Não é em 2017.


Para recuperar a sanidade, recomendo ler este artigo sobre o dia Oito de Março de 2017 na história. Recomendo também comer um pedaço de bolo de chocolate ou tomar uma cervejinha gelada.

Exausta

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Um sentimento resume

No meu compromisso diário de enviar currículos, procurar por vagas de emprego na região e chorar internamente minhas pitangas, tive que ler em grupo de concurso que “cota racial é palhaçada” e toda aquela conversa sobre mérito. Eu ando exausta demais para sequer pensar em debater sobre o que as pessoas preferem ignorar. Se inventarem um chip para internalizar a História do Brasil (e das Américas), quem sabe não teríamos a necessidade de voltar a falar sobre assuntos como racismo, apropriação cultural, desigualdade social e outros espinhos.

Resolvi, então, buscar por aí textos que talvez possam ajudar a expandir nossos horizontes.

Texto 1: A necessidade das cotas raciais em um país como o Brasil

O que achei bacana nesse texto é que a autora vai fazendo perguntas ao leitor, estimulando a autoanálise. É meio longo, mas vale a pena.

Texto 2: Aferição da autodeclaração, uma polêmica necessária para barrar brancos

Este é um texto do portal Geledés Instituto da Mulher Negra. É uma organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres e negros por entender que esses dois segmentos sociais padecem de desvantagens e discriminações no acesso às oportunidades sociais em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira. Recomendo ir no portal e digitar na busca “cotas raciais”. Há vários textos interessantes para nos ajudar a pensar não sobre este tema.

Texto 3: Uma avaliação do sistema de cotas nas universidades públicas

Entrevista com o professor Naércio de Menezes, professor do Insper e da USP. Quentíssima, é do final de fevereiro deste ano.


Internet não é só pra curtir foto de gatinho e dar like em vídeo engraçado. Também serve para se informar.

As portas

Há momentos na vida em que nos deparamos com portas fechadas. A maioria das pessoas bate à porta, tenta abri-la de todo jeito – às vezes encolhe-se atrás dessa porta fechada e reclama baixinho (olá, Chico Buarque). Tem aqueles que procuram uma janela, uma fresta na parede, uma outra porta, qualquer coisa para continuar aquele caminho.

Tem gente que se fecha em sua concha, tentando entender onde foi que errou para que aquela porta tenha se fechado.

Na mitologia romana há um Deus chamado Janus. Ele é o deus das portas ou portais, dos começos e fins. Ele é representado com duas faces opostas – muitas vezes, uma face é feminina e a outra masculina. Em uma das mãos, Janus segura uma chave. Janus costumava ser adorado no início da época da colheita e do plantio; também era cultuado em casamentos, nascimentos e outros rituais de iniciação em eventos importantes na vida das pessoas.

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De acordo com algumas lendas, Janus abrigou o deus Saturno (Cronos) quando este estava fugindo de Júpiter (Zeus). Assim, foi agraciado com o dom de enxergar o passado e o futuro. Diz-se que as portas do templo de Janus mantinham-se abertas em tempos de guerra, para que o deus pudesse a intervir quando necessário. Em tempos de paz, os portões eram mantidos fechados. De seu nome originou-se o mês de janeiro.

Desde que iniciei meus estudos na Wicca, tento sempre ver até que ponto se estende o meu poder interno. Há uma certa medida, uma certa distância até onde conseguimos ir por meios próprios. E há também uma distância que não conseguimos percorrer sem ajuda; ou ainda caminhos que não estão prontos para nós naquele momento, por mais que tenhamos a convicção de que devemos segui-lo.

As portas enxergam o passado e o futuro. Quando uma porta encontra-se fechada, temos a chance de refletir, perceber onde estamos e qual o nosso poder interno naquele momento. De repente há uma outra porta aberta bem perto… Basta olhar em volta.

Tá tudo bem

O telefone toca.

_ Oi, fulana!
_ Oi, há quanto tempo! Tudo bem?

Em um milésimo de segundo, o silêncio. Passa um filme longo dentro da mente. A falta de perspectiva diante da atual situação financeira. As notícias de assassinato porque algum homem não aceitou fim de namoro. Olhar-se no espelho e não sentir alegria. O presidente dos EUA que acabou de tomar posse. Contar as moedas para comprar pão. O legado dos Jogos Olímpicos, já palpável pelo abandono do Maracanã. Procurar emprego e não achar. Carnaval chegando.

Enfim, você respira fundo e responde, num meio sorriso:

_ Tá tudo bem.

Eu, essencialmente cigarra

essencial
adjetivo de dois gêneros
  1. 1.
    que é inerente a algo ou alguém.
    “a magnanimidade é sua qualidade essencial.”
  2. 2.
    que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental.
    “as questões essenciais de uma situação”
supérfluo
adjetivo substantivo masculino
  1. 1.
    que ou o que ultrapassa a necessidade, que é mais do que se necessita.
    “riqueza supérflua”
  2. 2.
    p.ext. que ou o que é redundante; desnecessário.
    “palavras supérfluas”

Ultimamente, venho pensando muito sobre o significado dessas duas palavras. Claro que a atual situação financeira me obriga a isso também, mas o antagonismo desses termos vem e volta já há algum tempo para mim. Lembro-me daquela frase d’O Pequeno Príncipe: o essencial é invisível aos olhos.

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Fonte: Níquel Nausea

Faz lembrar também aquela fábula da cigarra e da formiga, do Esopo. A cigarra só queria tocar seu violão, curtir o solzinho e farrear por aí. Enquanto isso, a formiga trabalhava dia e noite, diligentemente, preparando-se para o inverno que iria vir. Acabou que a cigarra vida-boa foi bater à porta da formiga, implorando por comida e abrigo durante o inverno. O final da história varia de acordo com cada autor. Na versão que li quando criança, a formiga ajuda a cigarra e esta promete trabalhar com afinco quando chegar a primavera. Em outras versões, mais antigas à essa e provavelmente mais fiéis, a formiga dá-lhe com a porta na cara e manda um “você que se vire, quem mandou ser vagabunda” na cara da cigarra.

Imagem relacionadaPois bem, eu sempre fui essencialmente (significado primeiro acima) uma cigarra. Não sei economizar. Não sei planejar. Não sei medir. Não sei prever o futuro. Um raio pode cair na minha cabeça; posso ser atropelada por um ônibus; ou vai vir o tão sonhado meteoro/planeta gigante que vai colidir com a Terra e nos livrar de toda a nossa comiseração. Então, eu vivo o carpe diem. Sempre vivi e nunca me arrependi disso.

Isso até sair de casa e ir morar sozinha. Daí eu comecei a ter de escolher entre o que é essencial e o que é supérfluo – mas entenda, isso varia de pessoa para pessoa. Eu costumava sair para dançar todo final de semana, religiosamente. Para mim, isso era essencial. Confesso que sinto falta dessa época, porque além do exercício aeróbico, era também catártico e funcionava como uma bela terapia. Considerava aquelas horas como válvula de escape para exorcizar os demônios da semana e limpar o corpo para os desafios seguintes.

Voltando à fabula: já pararam pra pensar que, de repente, as formigas conseguiram trabalhar melhor porque a cigarra estava lá, cantando e tocando seu violão, para alegrar o dia?

Agora, neste período de vacas magras, eu preciso medir, planejar, economizar. Não vou mentir: é muito difícil. Eu tento encontrar abrigo no que considero essencial: família, poucos amigos, meu companheiro, meu gato. Nos livros, filmes e séries que me servem de companhia. Nas histórias que brotam da minha cabeça. Nas músicas que ouço e fazem com que eu me sinta viva.

O essencial é invisível aos olhos, mas às vezes se materializa em alguma forma surpreendente.

Confortavelmente entorpecida

Momentos de clareza e sublime felicidade me vêm de tempos em tempos, no auge da intoxicação. Já tive maravilhosas epifanias nas quais, no meio da mais tenebrosa tempestade, sentia as mãos invisíveis dos Deuses afastarem as nuvens e soprarem no meu ouvido:

_ Não, garota. Você é melhor do que isso.

Ultimamente, a rotina e o trabalho me tomam todo o espaço-tempo. Sinto-me gasta, empoeirada, sem perspectivas; sinto-me sobrevivendo, e não vivendo. Isso já não me assusta – e por não me assustar, sinto medo.

_ E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão.

Aos 15 anos, eu tinha absoluta certeza que morreria aos 20 e poucos anos. Não chegaria aos 30, ah não. Como poderia? Não me via pagando contas, voltando cansada do trabalho, tendo responsabilidades. Não que eu não quisesse; simplesmente achava que não era para mim. Considerando que foi por volta dos 15 anos que despertei para The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e afins, era claro para mim que eu morreria cedo – por acidente ou overdose, ou engasgaria com meu próprio vômito, ou dormiria numa banheira para nunca mais acordar.

Mas aqui estou, trinta e quatro primaveras idas. Aqui estou, confortavelmente entorpecida. Esperando o relógio tocar para me chamar ao trabalho. Esperando o salário cair na conta. Esperando o trem. Esperando o fim de semana. Esperando o arquivo baixar. Esperando outubro chegar. Esperando o beijo doce da Morte.

Esperando.

The child is grown
The dream is gone
And I have become
Comfortably numb.

Janelas acesas

Hoje eu voltei para casa mais tarde. Passei o dia todo fora do escritório, traduzindo entrevista e auxiliando na cobertura de um evento esportivo.

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Fonte: http://www.touristmaker.com

Na volta para casa, saindo da zona oeste e indo para a zona sul, o sol há muito já partira. Passamos pela orla, mas não se podia ver o mar. Voltei meus olhos para o outro lado e observei as janelas das casas, já acesas naquele início de noite.

Fiquei imaginando o que as pessoas dentro daquelas casas estariam fazendo, sobre o que deviam conversar. Quais seriam suas preocupações, seus anseios, seus maiores medos? Talvez se preocupem com o preço do dólar, ou com a fatura do cartão de crédito. Talvez a incerteza política tirem seu sono – ou durmam tranquilas pois têm a certeza que podem sair daqui e viver em outro lugar. Talvez aquele sonho de trocar de carro não possa ser realizado este ano. Ou a festa que vai bombar no próximo feriado. Talvez sofram por amor. Talvez façam sofrer.

Enquanto isso, na calçada, um senhor com uma sacola cheia de latinhas revirava uma lata de lixo. Eu imagino com o que ele se preocupa.

Tudo é política

Por Nelson Werneck Sodré

Há uma certa confusão, até certo ponto natural e só em alguns casos devida à má-fé, em torno do problema da política em literatura, da posição do escritor em face da política. O grande escritor democrático Gottfried Keller disse, certa vez: “Tudo é política”. Ele não queria significar, entretanto, que tudo fosse diretamente política; mas que as forças sociais que determinaram, no seu desenvolvimento, os fatos políticos, influem também nas decisões da vida cotidiana, no trabalho, no amor, na amizade, na criação artística. Tais forças se traduzem em tipos humanos, que surgem em todos os campos, e em cuja conduta o conteúdo político é transparente. Tais tipos são diversos, conforme a atividade a que se dedicam e conforme a efetividade de sua influência. O escritor, que vive debruçado sobre a vida, recolhe em sua obra, se lhe não falta o talento, os traços da influência política que estão por toda a parte. Toda ação, todo pensamento, todo sentimento do homem – tenha ele disso consciência ou não – estão fundidos com a vida, com a sociedade em que trabalha, com a política. Tudo deriva da vida social, e a ela retorna e a vida social é eminentemente política.

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Fonte: dedindeproza.wordpress.com

Está claro que isso nada tem a ver com política, na significação vulgar, partidária. Por outro lado, a influência que tem a participação política do escritor é importante, mas não decisiva: escritores valem pelas suas criações. E muito mais característico, nesse sentido, o que o autor revela em seus livros, do que o que ele revela em sua vida. Escritores que tiveram participação intensa em movimentos políticos importantes, – Tolstoi, na emancipação dos camponeses, por exemplo, – enriqueceram a sua obra importante com a experiência prática. Mas isso não é o caminho obrigatório, nem é mesmo o único caminho. E acontece até casos, como o de Balzac, em que a honestidade artística salva os preconceitos pessoais do autor: Balzac, monarquista, descreve com fidelidade exemplar o drama da classe que estima e que agoniza. E nem é a escolha do tema que define a honestidade e a posição política: Hamsum, que descreveu a miséria e romanceou a fome, revelava, desde o princípio, a degradação que o levou ao fascismo. A intenção de fazer ficção revolucionária tem produzido, por vezes, aberrações na literatura. E nem há dúvida de que a qualidade artística é a característica fundamental; sem ela, não há intenção que salve.

O que se afirma, assim, é que todos os homens têm uma posição política, mesmo os que a negam, e que o escritor, além disso, atento à vida, reflete necessariamente as forças sociais em sua obra, reflete-as intencionalmente ou não, e toma posição, na vida e na obra, ou apenas em uma delas. Não há obrigação de seguir determinadas ideias, para chegar a ser grande em literatura, mas é também verdade que a receptividade aos anseios do seu meio e do seu tempo ajuda enormemente a conquista da grandeza literária. Todos os criadores autênticos, no campo artístico, foram participantes, realizaram uma opção e escolheram certo, dentro do quadro em que viveram seja na existência que levaram, seja na obra que elaboraram, mas principalmente nesta, e eles é o aspecto importante.

Última Hora, Rio de Janeiro, 11 de abril de 1957.

Fonte: SODRÉ, Nelson Werneck. TUDO É POLÍTICA: 50 anos do pensamento de Nelson Werneck Sodré em textos inéditos em livro e censurados. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?

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Fonte: Canal Secundarista no Facebook

Tenho acompanhado as manifestações dos estudantes secundaristas em São Paulo com o coração em chamas. O meu ligeiro complexo de Peter Pan sempre me fez ter saudades de uma época na qual havia menos responsabilidades, problemas e contas a pagar; só que agora, a cada vídeo ou comentário que vejo sobre os estudantes que tomaram para si (com todo o direito) a responsabilidade de manter vivas suas escolas frente a desorganização promovida por Alckmin, mais penso: eu queria estar lá também.

Criadores aprendem o que desejam aprender. Não sabemos quanta liberdade de criação é morta nas salas de aula.

Em um dos trabalhos de final de curso nos anos de Licenciatura, pesquisei sobre Alexander S. Neill e a sua filosofia educacional. Pesquisei sobre a Escola Summerhill, na Inglaterra, e sobre a Escola da Ponte, em Portugal. A visão do Neill lembra em certa medida uma parte da proposta de Paulo Freire, que vê o professor como um facilitador, e não como o detentor de toda a sabedoria, soberano em sala de aula. Neill propõe que a criatividade dos educandos seja estimulada a todo o momento, e que a partir dos interesses deles se forme ao redor um ambiente propício para a pesquisa, incentivando-os a explorar. Assim, o professor seria como um instrutor, indicando livros, métodos de pesquisa, meios adequados para que o educando chegue até o conhecimento desejado. Aqui é óbvio que a troca de informações entre educandos é totalmente permitida e desejada. Aqui, não há saber absoluto. As turmas podem ser heterogêneas, com crianças e jovens das mais variadas idades; cabe ao professor/facilitador indicar a abordagem adequada a cada um.

Digamos, por exemplo, que três educandos tenham especial interesse em carros. O grupo pode pesquisar a origem dos automóveis, como funciona um motor, os diferentes modelos e marcas; podem pesquisar sobre gasolina, álcool, diesel; criar questões como, por exemplo, quanto de combustível seria necessário para fazer uma viagem de sua cidade até outra; produzir um vídeo para apresentar à turma as informações que encontraram. Só nesses exemplos, eles já teriam pesquisado e aprendido sobre História, Matemática, Física; teriam ainda produzido alguma coisa que serviria como base de informação. O professor ficaria por trás da cortina, indicando fontes, mostrando como utilizar os instrumentos adequados. Esse é um modelo de escola libertária que ensina aos educandos a serem independentes; nessa escola, aprende-se a pensar.

O modelo engessado da educação tradicional não estimula a criatividade ou a independência. É claro que, de vez em quando, os educandos têm a sorte de conhecer um professor que estimule o pensamento criativo e a pesquisa. Conheço profissionais assim. Infelizmente, ainda são exceção, até porque o sistema não permite muita coisa.

O que o movimento secundarista está fazendo em São Paulo pode ser o início de um fogo criativo que venha a se espalhar por outras mentes, chamando a nossa atenção para o que significa ordem e desordem, nos estimulando a pensar: será que esse modelo de escola é bom? E é bom para quem?