Céu de maio

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Quando eu era feliz
Não havia rancor
Não havia sombra alguma da dor
Que um dia me abraçar viria

Quando eu era feliz
Apenas torpor havia
– Enroscado entre as pernas debaixo de suado lençol –
A promessa desfeita não havia
Se aberto como ferida pútrida em carmesim

Quando eu era feliz
Não havia o fogo que agora arde
E só aquece a mim.

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Casmurra

Há noites em que o manto da Insegurança me cobre as espáduas
E não mais vejo teu rosto sob a luz do sol
Teus castanhos olhos me parecem enviesados – oblíquos, desgarrados
Aperta-me o peito a bigorna da incerteza

Mas és tão feliz! Sabes que isto é fruto de tua fértil imaginação – diz-me a Razão,
Os diminutos óculos a brincar na ponta do nariz.

Mas com quem fala, com quem anda, o que pensa quando não contigo?
Se tantas já sofreram ao teu redor – e tu mesma, bem o sabes,
Como saberás que o que te diz é verdade? – sussurra-me a Dúvida,
Esta mesquinha companhia.

A mente se esvai em mil vielas e não mais posso aquietar-me
E casmurra, ensimesmada e lívida
Exorcizo este demônio em uma poesia.

Enfeitou-se com poesia e abriu a porta

Colega no Facebook pediu pra gente citar nossa poesia favorita em língua portuguesa. Tive dificuldade tremenda em escolher apenas uma, e obviamente não consegui. Como os dias têm sido torturantes desde a chegada de Clarisse (não a Lispector, mas a minha TPM, que tem nome e personalidade própria), quero fazer o exercício de pôr aqui algumas das minhas poesias favoritas.

Autora: Cecília Meireles (1901 – 1964)

Tia Cecília é uma lindeza só. Gosto tanto dela que tentava (em vão) escrever parecido, quando tinha lá os meus 15, 16 anos. Seguem duas pérolas em forma de poesia:

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

– – –

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?