Céu de maio

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Quando eu era feliz
Não havia rancor
Não havia sombra alguma da dor
Que um dia me abraçar viria

Quando eu era feliz
Apenas torpor havia
– Enroscado entre as pernas debaixo de suado lençol –
A promessa desfeita não havia
Se aberto como ferida pútrida em carmesim

Quando eu era feliz
Não havia o fogo que agora arde
E só aquece a mim.

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Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

De Ferreira Gullar


 

Desde que David Bowie foi fazer show no Mundo Invisível, logo no início do ano, 2016 tem levado talentos em saraivadas. Hoje, foi-se Ferreira Gullar.

Tá foda viver.

Bem-vinda

A casa minha a me saudar
Em toda sua simples desordem
Diz-me

“Bem-vinda, viajante!
Até o dia em que o vento cortante lhe fizer
Descer a serra – e que breve seja a despedida
E longa a tua vinda”

Bem-vinda
O gato a me desconfiar
Deita-se em meu colo – e o meu consolo
É ouvir a sua respiração ressonar.

Bem-vinda
Tu me sorris, a voz grave diz meu nome
E eu te espero para o almoço,
Eu te espero para o jantar,
Eu espero o inesperado toque em minhas costas
No meio da noite, no meio do nada.

Inesperado encontro que me remendou a alma
Onde sou bem-vinda e acalentada
De todos os monstros lá fora.

Pelo vinho e pelo pão

Quantos olhos você tem
Pra me falar
Quantas bocas você diz
A me olhar
Quantos dentes eram tristes
Quantos eram solidão
Outros eram diferentes
Não nasceram para o chão
Claros pelos evidentes
Nascerão em cada mão
Lívidos e conscientes
Pelo vinho e pelo pão
Beijos de doce veneno
Quero sim e quero não
Pelo fogo dos repentes
Desafiam o coração


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Fonte: weavinglight.wordpress.com

Quero uma noite no inverno mais frio
Envolta na certeza que só o vinho nos traz
A boca dormente e sagaz
Os olhos brilhando, retintos
Buscando no canto escuro do recinto
Mais perfeito, mais escondido da alma

Quero uma noite no inverno mais frio
Liberta em saudades de um tempo sem carma.

Em dias cinzas

 

Meu amor, não mais deixes escapar
Nenhum desejo no teu olhar
De pecados proibidos, esquecidos

Minha flor,
Não mais deixes o azul dos dias nos calar
Pois nesse mundo algo há
De valer a pena, pequena

Meu amor, me faça acreditar
Que tudo é possível,
Pois eu temo que não amanheça
Se você se for

Nos dias amanhecidos de saudade
Coberta pelo áspero lençol da distância
Espero impaciente que o dia se esvaia.

Casmurra

Há noites em que o manto da Insegurança me cobre as espáduas
E não mais vejo teu rosto sob a luz do sol
Teus castanhos olhos me parecem enviesados – oblíquos, desgarrados
Aperta-me o peito a bigorna da incerteza

Mas és tão feliz! Sabes que isto é fruto de tua fértil imaginação – diz-me a Razão,
Os diminutos óculos a brincar na ponta do nariz.

Mas com quem fala, com quem anda, o que pensa quando não contigo?
Se tantas já sofreram ao teu redor – e tu mesma, bem o sabes,
Como saberás que o que te diz é verdade? – sussurra-me a Dúvida,
Esta mesquinha companhia.

A mente se esvai em mil vielas e não mais posso aquietar-me
E casmurra, ensimesmada e lívida
Exorcizo este demônio em uma poesia.

Salva pelo dicionário

  • amor
    a.mor
    sm (lat amore) 1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2 Grande afeição de uma a outra pessoa de sexo contrário. 3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual. 4 Objeto dessa afeição. 5 Benevolência, carinho, simpatia. 6 Tendência ou instinto que aproxima os animais para a reprodução. 7 Desejo sexual. 8 Ambição, cobiça: Amor do ganho. 9 Culto, veneração: Amor à legalidade, ao trabalho. 10 Caridade. 11 Coisa ou pessoa bonita, preciosa, bem apresentada. 12 Filos Tendência da alma para se apegar aos objetos. Antôn: aversão, ódio. sm pl 1 Namoro. 2 O objeto amado. 3 O tempo em que se ama. 4 Relações ilícitas, comércio amoroso. 5 Mit Divindades subordinadas a Vênus e Cupido. 6 Bot O mesmo que carrapicho, acepção 11. 7 V carrapicho-grande. A.-agarradinho, Bot: trepadeira da família das Poligonáceas (Antígonon leptopus), originária do México, muito cultivada nos jardins brasileiros com fins ornamentais. A.-crescido, Bot: o mesmo que cavalheiro-das-onze-horas. A. lésbico: o mesmo que safismo. A. livre: relações sexuais ou coabitação sem casamento legal. A. platônico: relação estreita entre duas pessoas de sexo oposto, sem realização de atos sexuais. A.-seco, Bot: o mesmo que carrapicho-de-beiço-de-boi. Pelo amor de Deus: usa-se quando se pede com encarecimento. Por amor à arte: gratuitamente, sem nenhum interesse. Seja tudo pelo amor de Deus: exclamação com que se manifesta conformidade ou tolerância com o impróprio ou com o desagradável. Ser do amor, gír: só quer saber de prazeres sensuais.
  • crítica
    crí.ti.ca
    sf (de crítico) 1 Apreciação minuciosa. 2 Apreciação desfavorável. 3 Censura, maledicência. 4 Discussão para elucidar fatos e textos. 5 Exame do valor dos documentos. 6 Arte ou faculdade de julgar o mérito das obras científicas, literárias e artísticas. 7 Juízo fundamentado acerca de obra científica, literária ou artística. 8 Filos Parte da Filosofia que estuda os critérios. 9 Conjunto dos críticos; sua opinião. C. pessoal: a em que se trata mais do autor que da obra.
  • aceitar
    a.cei.tar
    (lat acceptare) vtd 1 Receber (o que é dado ou oferecido). 2 Anuir a, consentir em. 3 Aprovar, concordar com, conformar-se com. 4 Admitir: Aceita qualquer situação. 5 Obedecer, seguir: Aceitar um conselho. 6 Assinar duplicata ou letra de câmbio, obrigando-se a pagá-las no dia do vencimento. 7 Admitir, reconhecer, tomar: Aceitou-a por esposa. Antôn: recusar, rejeitar.
  • empatia
    em.pa.ti.a
    sf (gr empátheia) Psicol Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma obra de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo.

O meu amor
Eu o preparo aos bocadinhos
Às vezes pouco, às vezes com beijinhos
Servido no prato de louça da aceitação
Buscando por alguma empatia
Todo dia um pedaço de mim o outro se torna
Quando a minha panela entorna
Seja pela dura crítica, seja pela colherada fria
Limpo o fogão e recomeço a amar.

Enfeitou-se com poesia e abriu a porta

Colega no Facebook pediu pra gente citar nossa poesia favorita em língua portuguesa. Tive dificuldade tremenda em escolher apenas uma, e obviamente não consegui. Como os dias têm sido torturantes desde a chegada de Clarisse (não a Lispector, mas a minha TPM, que tem nome e personalidade própria), quero fazer o exercício de pôr aqui algumas das minhas poesias favoritas.

Autora: Cecília Meireles (1901 – 1964)

Tia Cecília é uma lindeza só. Gosto tanto dela que tentava (em vão) escrever parecido, quando tinha lá os meus 15, 16 anos. Seguem duas pérolas em forma de poesia:

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

– – –

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?