Exausta

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Um sentimento resume

No meu compromisso diário de enviar currículos, procurar por vagas de emprego na região e chorar internamente minhas pitangas, tive que ler em grupo de concurso que “cota racial é palhaçada” e toda aquela conversa sobre mérito. Eu ando exausta demais para sequer pensar em debater sobre o que as pessoas preferem ignorar. Se inventarem um chip para internalizar a História do Brasil (e das Américas), quem sabe não teríamos a necessidade de voltar a falar sobre assuntos como racismo, apropriação cultural, desigualdade social e outros espinhos.

Resolvi, então, buscar por aí textos que talvez possam ajudar a expandir nossos horizontes.

Texto 1: A necessidade das cotas raciais em um país como o Brasil

O que achei bacana nesse texto é que a autora vai fazendo perguntas ao leitor, estimulando a autoanálise. É meio longo, mas vale a pena.

Texto 2: Aferição da autodeclaração, uma polêmica necessária para barrar brancos

Este é um texto do portal Geledés Instituto da Mulher Negra. É uma organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres e negros por entender que esses dois segmentos sociais padecem de desvantagens e discriminações no acesso às oportunidades sociais em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira. Recomendo ir no portal e digitar na busca “cotas raciais”. Há vários textos interessantes para nos ajudar a pensar não sobre este tema.

Texto 3: Uma avaliação do sistema de cotas nas universidades públicas

Entrevista com o professor Naércio de Menezes, professor do Insper e da USP. Quentíssima, é do final de fevereiro deste ano.


Internet não é só pra curtir foto de gatinho e dar like em vídeo engraçado. Também serve para se informar.

Americanah, de Chimamanda Adichie

Resultado de imagem para americanah chimamanda trechoOntem, 20 de novembro, terminei de ler o romance Americanah, da Chimamanda Adichie. O título é uma brincadeira com o modo de uma personagem pronunciar a palavra “americana”.

É importante dizer que levei apenas oito dias para terminar essa delícia de história com um pouco mais de quinhentas páginas. O estilo da Chimamanda é muito envolvente, o modo como ela descreve as pessoas, os lugares e as situações é orgânico e direto. Talvez alguns adjetivos a mais aqui e ali (para o meu gosto, meio adepto ao estilo Hemmingway e cortar o supérfluo), mas usando uma imagem clichê, Americanah é como uma brisa soprando do mar, adentrando uma sala fechada.

Eu já era fã da Chimamanda por causa daquele belíssimo discurso Nós Deveríamos Todos Ser Feministas. Sabia que seus livros eram bestsellers e estava muito curiosa para ler algum de seus romances, e acho que escolhi um ótimo ponto de partida.

Americanah é um romance que acompanha a vida de Ifemelu, uma nigeriana que passou muitos anos nos Estados Unidos e volta para seu país natal. Viajamos pela adolescência e vida adulta de Ifemelu, conhecendo sua família e amigos, seus amores, tristezas, alegrias, topadas na quina da mesa, conquistas. Principalmente, viajamos através dos olhos de Ifemelu e a descoberta de um novo país – e de um país familiar que se torna um tanto quanto estranho.

Além das relações pessoais, o que mais me surpreendeu no livro foi a diferença entre o pensamento do negro africano em comparação ao afrodescendente norte-americano. Em certo ponto, Ifemelu diz que apenas se viu como mulher negra quando chegou aos Estados Unidos: até então, na Nigéria, ela não percebia a diferença racial. A autora também faz um belo recorte sobre a época da primeira eleição de Barack Obama, a questão de assumir os cabelos naturais, a visão romantizada da África, a vida cotidiana na Nigéria. É tanta novidade que eu só posso sugerir uma coisa: leiam, para que se possa sair do looping eterno da história única.

PS: Ontem vi este vídeo muito interessante de um senhor que veio de Gana para o Brasil há 30 anos. Ele fala sobre a diferença entre as palavras negro e preto. Recomendo para continuar a reflexão.

Feminismo Didático, por Ana Paula Lisboa

Tomo a liberdade de reproduzir aqui a ótima coluna da Ana Paula Lisboa, publicada hoje no Segundo Caderno do jornal O Globo. Folhear as notícias atrás de matérias me deu esta lindeza de presente. A primeira parte da série está aqui.

Feminismo Didático Parte 2- As Mães Pretas

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Balé das Iyabás – Fonte: http://www.facebook.com

“Pensando a arte de forma política, trabalhamos com as questões de gênero e raça tendo como missão o fortalecimento, a emancipação e o empoderamento de mulheres, sobretudo Mulheres Negras, por compreendermos as demandas diferenciadas desse grupo e a consequente necessidade de iniciativas que deem a atenção necessária para este segmento da população”.

O texto acima é parte do manifesto do Balé das Iyabás, grupo de Mulheres Negras que propõe a reflexão sobre o protagonismo da mulher na sociedade a partir da mitologia dos Orixás. Sinara Rúbia e Ludmilla Almeida guiam, uma vez por mês, uma tarde inteira de discussão sobre o feminino e sobretudo sobre a estética negra feminina.

Aprendi com elas que os mitos, ou itans (como são chamados no candomblé), são narrativas das histórias vividas por nossas ancestrais, que se manifestam nas nossas práticas cotidianas, que se personificam nos nossos fazeres diários, justificando e dando sentido a estes fazeres.

A enxurrada de e-mails e mensagens após a publicação da coluna “Os Golpeados” me fez pensar muito nesses fazeres cotidianos, ou melhor, nessas escritas quinzenais. Eu, como boa filha de Oxum, estou por aqui cortando caminho na terra para as águas passarem. E não se engane, as águas sempre encontram um caminho. Mulheres e homens de longe e perto me escreveram para declarar sua “infelicidade” ao terminarem de ler a coluna e sua partilha de sofrimento, seja pela perda de um ente querido, seja pela dor em saber das estatísticas de jovens negros que morrem neste país todos os dias. Ainda assim, mesmo as mensagens que elogiavam a escrita e o conteúdo declararam que o fato de eu ter escrito que “mães não deveriam enterrar seus filhos, menos ainda as mães pretas” os deixou chocados.

“Você acha então que as mães brancas valem menos?”

“Se minha mulher tiver um filho e ele morrer nosso sofrimento será menor?”

“Você está incitando uma guerra racial!”

“Você está praticando racismo reverso!”

Sejamos didáticos: RA-CIS-MO-RE-VER-SO-NÃO-E-XIS-TE. Racismo envolve poder, privilégio, preconceito e, principalmente, estrutura institucional. Por isso, calma!

Dito isto, é também importante deixar claro que há coisas neste mundo que não precisam de divulgação: a heterossexualidade, a branquitude, o homem, o cabelo comprido e liso, o corpo magro. Elas não precisam de divulgação pois são a regra desde que me entendo por gente. É só ligar a TV, ver a capa de uma revista, procurar a imagem dos ícones de beleza, de sucesso.

Meu ativismo não é contra as mulheres brancas – nunca seria, nunca será! – , é a favor das mulheres pretas. O motivo da minha escrita, Audre Lorde (mulher preta maravilhosa e ativista dos direitos civis americanos), escureceu antes mesmo de eu nascer:

“Como mulheres, alguns de nossos problemas são comuns, outros não. Vocês, brancas, temem que seus filhos ao crescerem se juntem ao patriarcado e testemunhem contra vocês. Nós, em contrapartida, tememos que tirem os nossos filhos de um carro e disparem contra eles à queima-roupa, no meio da rua.”

tumblr_n9jyilzIzp1smc2qao1_1280Mas falemos de nossa terra, de nossa contemporaneidade. O “Mapa da Violênca 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil“, realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a pedido da ONU Mulheres, identificou que o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking global de homicídios de mulheres, entre 83 países pesquisados. Em 2013, a taxa de mortes de mulheres por assassinato para cada cem mil habitantes foi de 4,8 casos. A média mundial foi de dois casos. Foram 4.762 mulheres mortas violentamente no país naquele ano: 13 vítimas fatais por dia.

Mas vamos às pretas: a década 2003-2013 teve aumento de 54,2% no total de assassinatos desse grupo étnico, saltando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Aproximadamente mil mortes a mais em dez anos. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 no mesmo período. Outra pesquisa, dessa vez do IBGE, mostrou que entre todos os segmentos da população, a mulher negra é a que se sente mais insegura em todos os ambientes, até mesmo em suas próprias casas.

A taxa de analfabetismo entre mulheres negras é duas vezes maior que entre mulheres brancas, e isso, claro, se reflete nos números do desemprego, que entre as brancas é de 9,2%, enquanto entre as mulheres negras, ultrapassa os 12%. E digamos que ambas estejam empregadas: as mulheres negras recebem, em média, 40% a menos. Talvez por isso 70% das famílias que recebem o Bolsa Família sejam chefiadas por mulheres, mulheres pretas.

Não busco divisões, eu amo todo mundo: branco, loiro, ruivo, oriental, mas quem foi arrastada pelo camburão foi a mulher de pele preta, quem foi espancada até a morte pela polícia na frente do filho foi a mulher preta, quem morre porque faz um aborto é a mulher preta, quem perde a relação com a família porque tem que cuidar da família dos outros é a mulher preta. Então dizer que a intensidade no tom da pele não importa é hipocrisia demais pro meu coração.

Termino essa série esperançosa de que todas as mães tenham tido um feliz Dia das Mães, mas principalmente as mães pretas.

Eu sou flicts (?)

Uma das melhores coisas que adquiri com as minhas leituras sobre feminismo, empoderamento e representatividade é o hábito de manter a mente aberta e tentar ver o mundo sob uma nova perspectiva. Isso é bastante difícil até pra mim, que sempre segui por um viés libertário e tranquilo – uma mistura de “faze o que tu queres, pois é tudo da lei” e “a pessoa pode ser tudo, só não pode ser chata”.

Há alguns anos, tirei uma nova carteira de identidade. A antiga tinha vencido (tirada na Aeronáutica, quando eu era dependente de mamãe ainda) e já não me servia também pela assinatura e foto diferentes das atuais. Na fila de espera para entregar os documentos necessários, fiquei analisando a identidade antiga e reparei em uma coisa: nela consta o item cor, e fui descrita como branca.

Branca, eu? Nunca me considerei branca. Mas também, nunca me vi como negra. É tanta mistura de ascendências que eu sinceramente não sei em qual gavetinha me guardar. Negro, índio, português – tudo isso eu tenho. Então, como vou me classificar?

No Brasil, nossa ascendência não tem lá tanto peso quanto a cor da pele em si. Conheço gente engajadíssima no movimento negro e que ouve dos outros “ah, mas você nem é tão negra!” e percebo o quanto é trabalhoso para quem se identifica com a cultura negra ter que desconstruir essa imagem. Desconstruir todo dia os estigmas de moreno, mulatinho, escurinho, esses eufemismos.

O meu contato com estrangeiros me trouxe várias visões diferentes. Para uma parte, eu sou negra; para outra, eu sou latina. Bem, pode-se ser as duas coisas ao mesmo tempo, não? Até parece que na América Latina não há negros. Já me perguntaram se eu era egípcia e eu fiquei muito tentada a dizer que sim, mas sorri e disse que era brasileira. Lembro que o rapaz me disse: ah, a beleza da humanidade está na miscigenação 😉

(Ok, foi uma ótima cantada. Mas isso é outra história…)

A questão é que, pelo que eu me lembre, nunca precisei me encaixar em alguma etnia. Os episódios de discriminação pelos quais passei foram por ser brasileira – ou melhor, por não ser descendente de japoneses – ou por ser gorda. Nunca me seguiram no shopping achando que eu fosse roubar alguma coisa. Nunca me impediram de entrar em algum lugar pela minha cor de pele.

De uns tempos para cá, lendo tantos textos interessantes e relatos dolorosos sobre vários tipos de discriminação, percebi que não consigo me definir em branca ou negra.

Definição de raça, por Hédio Silva Jr (2002, p.14):

Raça, uma categoria da biologia, designa um conjunto de aspectos bio-fisiológicos cambiantes, que diferenciam elementos da mesma espécie. Por exemplo, na espécie dos felinos ou dos caninos, temos as raças de gatos ou cães com aspectos bio-fisiologicamente variáveis, porém, isolados nas suas raças e reciprocamente hostis em ambientes comuns.

Desde os anos de 50, após estudos realizados pela Organização das Nações Unidas, num empreendimento mundial desenvolvido por geneticistas, antropólogos, cientistas sociais, biológicos e biofisiologistas, o termo raça é considerado, ao menos sob o prisma científico, inaplicável a seres humanos. A conclusão destes estudos é de que os seres humanos formam um continuum de variações da aparência, no interior da mesma espécie, sem que estas variações afetem a possibilidade de convivência e reprodução de outros seres humanos.

Definição de raça, por Fabiano Augusto Martins Silveira (2007, p. 88):

(…) a partícula raça  cumpre a função de detectar os grupos aos quais se aplicam os conectores preconceito e discriminação. Tem-se, com efeito, “preconceito de raça” e “discriminação de raça”. Vale dizer, preconceito e discriminação que recaem sobre determinadas parcelas pelo fato de serem apontadas como racialmente inferiores (ou simplesmente como raças).
O essencial, portanto, para caracterizar o racismo (e a raça como sua ideia principal), menos do que as diferenças físicas e/ou culturais eventualmente existentes entre agrupamentos humanos, é a presença de um discurso racializante superficial, verificável do ponto de vista político-histórico e dotado de razoável repercussão social. Esse discurso, calçado no preconceito, é que grava grupos como raças, podendo ser reproduzido por falsas teorias, crenças, narrações místicas, propagandas, etc..

Para mais definições sobre raça, cor, racismo e preconceito, link aqui. Também encontrei um artigo interessante falando sobre raça e etnia, link aqui.

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Flicts. Ziraldo, 1969.

Daí eu me lembrei do livro Flicts, do Ziraldo. Aquele sobre uma cor que não fazia parte do arco-íris, que não tinha lugar na caixa de lápis de cor, que achava que não tinha o seu lugar, sabe? Aí eu fiquei pensando… Será que eu sou flicts? Será que meus futuros filhos também serão flicts? O que isso quer dizer? Será que eu não tenho lugar na caixinha de lápis de cor, nem na bandeira de nenhum país? Será que isso me faz menor do que outros, que conseguem se definir com facilidade?

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Flicts. Ziraldo, 1969.

No final, o poema termina com Neil Armstrong dizendo que “a Lua é flicts” e eu acho isso fenomenal. Então, por mais que às vezes eu sinta que não tenho lugar na caixa de lápis de cor, ou que não consigo me definir como o vermelho, o amarelo ou o violento violeta, sei que não estou só nessa vida. Muita gente também é flicts, muita gente também não consegue se definir em uma única cor/raça/etnia.

E no final, percebemos que sempre haverá espaço para todos.

É importante perceber que se não se admite mais piadas de mau gosto que contenham racismo, discriminação ou misoginia, isto não se deve à falta de bom humor das pessoas, mas sim às conquistas sociais e ao empoderamento ganho de forma árdua. Fazer piada com quem sempre foi oprimido é muito fácil e cômodo. É mais difícil desconstruir nossas amarras sociais e ver o mundo por outro prisma, por outras cores.