Virar a página

4283447-the-ancient-book-and-old-goose-featherSou uma escritora amadora. Amadora porque me falta a dedicação e o esforço de um profissional.

Nos meus devaneios pelas estradas da escrita, já adaptei aquela imagem do Livro da Vida a um livro particular – um livro que cada ser humano possui. Nesse livro, cada um escreve o que viveu, como viveu; justifica suas escolhas, se arrepende; grava suas vitórias e derrotas.

Eu já perdi a conta de quantas vezes escrevi garranchos no meu livro da vida particular. Imagino algumas páginas já puídas, manchadas; o conteúdo dos dias quase incompreensíveis de tão emaranhados, as linhas tortas, a tinta falha das palavras. Claro que deve haver algumas passagens bonitas. Infelizmente, estou em um daqueles momentos da vida em que só consigo lembrar dos trechos mais sombrios.

Here I am, on the road again
There I am, up on the stage
Here I go, playin’ star again
There I go, turn the page

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Espelho

Clarisse está aqui me fazendo companhia. O cheiro de cigarro de canela envolve sua imagem enquanto ela se serve de mais uma xícara de café.

_ Você sabe o que devia estar fazendo, né.
_ Sim – respondo.
_ E mesmo assim não vai fazer?
_ Não tô com cabeça pra isso hoje.
_ É só colocar uma palavra depois da outra. Você sabe. É fácil.
_ Não é tão fácil quanto parece.
_ Ah, que nada! Aposto que eu consigo fazer.
_ … Você já fez, lembra?
_ Huum, é verdade! Viu só? Isso só prova que eu estou certa.
_ Mas não é assim. Eu não posso escrever qualquer coisa. Depois fico frustrada, achando que tudo o que eu faço é um grande pedaço de bosta.
_ Você é muito dramática.

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Ela vai até a varanda. Ela brinca com o gato. Ela belisca a própria perna para ter certeza que está viva. Ela acende mais um cigarro.

_ Vai ficar tudo bem.

Eu me surpreendo com aquelas palavras. É a primeira vez que Clarisse parece demonstrar alguma amizade.

Ou talvez seja eu mesma me olhando no espelho e repetindo essas palavras até que elas se tornem realidade.

Eu, essencialmente cigarra

essencial
adjetivo de dois gêneros
  1. 1.
    que é inerente a algo ou alguém.
    “a magnanimidade é sua qualidade essencial.”
  2. 2.
    que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental.
    “as questões essenciais de uma situação”
supérfluo
adjetivo substantivo masculino
  1. 1.
    que ou o que ultrapassa a necessidade, que é mais do que se necessita.
    “riqueza supérflua”
  2. 2.
    p.ext. que ou o que é redundante; desnecessário.
    “palavras supérfluas”

Ultimamente, venho pensando muito sobre o significado dessas duas palavras. Claro que a atual situação financeira me obriga a isso também, mas o antagonismo desses termos vem e volta já há algum tempo para mim. Lembro-me daquela frase d’O Pequeno Príncipe: o essencial é invisível aos olhos.

Imagem relacionada
Fonte: Níquel Nausea

Faz lembrar também aquela fábula da cigarra e da formiga, do Esopo. A cigarra só queria tocar seu violão, curtir o solzinho e farrear por aí. Enquanto isso, a formiga trabalhava dia e noite, diligentemente, preparando-se para o inverno que iria vir. Acabou que a cigarra vida-boa foi bater à porta da formiga, implorando por comida e abrigo durante o inverno. O final da história varia de acordo com cada autor. Na versão que li quando criança, a formiga ajuda a cigarra e esta promete trabalhar com afinco quando chegar a primavera. Em outras versões, mais antigas à essa e provavelmente mais fiéis, a formiga dá-lhe com a porta na cara e manda um “você que se vire, quem mandou ser vagabunda” na cara da cigarra.

Imagem relacionadaPois bem, eu sempre fui essencialmente (significado primeiro acima) uma cigarra. Não sei economizar. Não sei planejar. Não sei medir. Não sei prever o futuro. Um raio pode cair na minha cabeça; posso ser atropelada por um ônibus; ou vai vir o tão sonhado meteoro/planeta gigante que vai colidir com a Terra e nos livrar de toda a nossa comiseração. Então, eu vivo o carpe diem. Sempre vivi e nunca me arrependi disso.

Isso até sair de casa e ir morar sozinha. Daí eu comecei a ter de escolher entre o que é essencial e o que é supérfluo – mas entenda, isso varia de pessoa para pessoa. Eu costumava sair para dançar todo final de semana, religiosamente. Para mim, isso era essencial. Confesso que sinto falta dessa época, porque além do exercício aeróbico, era também catártico e funcionava como uma bela terapia. Considerava aquelas horas como válvula de escape para exorcizar os demônios da semana e limpar o corpo para os desafios seguintes.

Voltando à fabula: já pararam pra pensar que, de repente, as formigas conseguiram trabalhar melhor porque a cigarra estava lá, cantando e tocando seu violão, para alegrar o dia?

Agora, neste período de vacas magras, eu preciso medir, planejar, economizar. Não vou mentir: é muito difícil. Eu tento encontrar abrigo no que considero essencial: família, poucos amigos, meu companheiro, meu gato. Nos livros, filmes e séries que me servem de companhia. Nas histórias que brotam da minha cabeça. Nas músicas que ouço e fazem com que eu me sinta viva.

O essencial é invisível aos olhos, mas às vezes se materializa em alguma forma surpreendente.

Confortavelmente entorpecida

Momentos de clareza e sublime felicidade me vêm de tempos em tempos, no auge da intoxicação. Já tive maravilhosas epifanias nas quais, no meio da mais tenebrosa tempestade, sentia as mãos invisíveis dos Deuses afastarem as nuvens e soprarem no meu ouvido:

_ Não, garota. Você é melhor do que isso.

Ultimamente, a rotina e o trabalho me tomam todo o espaço-tempo. Sinto-me gasta, empoeirada, sem perspectivas; sinto-me sobrevivendo, e não vivendo. Isso já não me assusta – e por não me assustar, sinto medo.

_ E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão.

Aos 15 anos, eu tinha absoluta certeza que morreria aos 20 e poucos anos. Não chegaria aos 30, ah não. Como poderia? Não me via pagando contas, voltando cansada do trabalho, tendo responsabilidades. Não que eu não quisesse; simplesmente achava que não era para mim. Considerando que foi por volta dos 15 anos que despertei para The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e afins, era claro para mim que eu morreria cedo – por acidente ou overdose, ou engasgaria com meu próprio vômito, ou dormiria numa banheira para nunca mais acordar.

Mas aqui estou, trinta e quatro primaveras idas. Aqui estou, confortavelmente entorpecida. Esperando o relógio tocar para me chamar ao trabalho. Esperando o salário cair na conta. Esperando o trem. Esperando o fim de semana. Esperando o arquivo baixar. Esperando outubro chegar. Esperando o beijo doce da Morte.

Esperando.

The child is grown
The dream is gone
And I have become
Comfortably numb.

Clarisse compõe

Eu tinha me enganado. Pensei que ela já tivesse ido embora, sorrateira como sempre, deixando os cacos de minha consciência pelo chão. Ela sempre pisa nos menores, e o doce rastro de sangue acompanha seus passos como um véu de noiva.

Não, ela não tinha ido embora.

Clarisse ainda estava ali, me espreitando com seus olhos cínicos, o sorriso no canto da boca tão linda, tão minha.

_ Vai, escreve alguma coisa – ela me provocava enquanto acendia um cigarro.

Você sabe que eu não estou conseguindo escrever nada desde que você chegou.

_ Lembra aquele curso de escrita criativa?

Aquele que eu não terminei?

_ Esse mesmo.

É, lembro sim. Ainda tenho os arquivos guardados em algum lugar.

_ Pois lá dizia que era pra você tentar escrever todos os dias. Qualquer coisa, uma cena que fosse. Lembra?

chuva rio de janeiroEu lembro. Claro que lembro. Mas tenho me sentido tão exausta que não consigo nem fazer um maldito haicai.

Eu viro minha atenção para a paisagem. Clarisse suspira, entediada. De súbito, abre a boca:

Mar de inverno;
Descubro outra desgraça
Em cinza de jornal.

… Eu não acredito nisso.

_ Viu? – a fumaça do cigarro sobe graciosamente de suas narinas. – Nem é tão difícil assim.

Janelas acesas

Hoje eu voltei para casa mais tarde. Passei o dia todo fora do escritório, traduzindo entrevista e auxiliando na cobertura de um evento esportivo.

rio-de-janeiro-at-night
Fonte: http://www.touristmaker.com

Na volta para casa, saindo da zona oeste e indo para a zona sul, o sol há muito já partira. Passamos pela orla, mas não se podia ver o mar. Voltei meus olhos para o outro lado e observei as janelas das casas, já acesas naquele início de noite.

Fiquei imaginando o que as pessoas dentro daquelas casas estariam fazendo, sobre o que deviam conversar. Quais seriam suas preocupações, seus anseios, seus maiores medos? Talvez se preocupem com o preço do dólar, ou com a fatura do cartão de crédito. Talvez a incerteza política tirem seu sono – ou durmam tranquilas pois têm a certeza que podem sair daqui e viver em outro lugar. Talvez aquele sonho de trocar de carro não possa ser realizado este ano. Ou a festa que vai bombar no próximo feriado. Talvez sofram por amor. Talvez façam sofrer.

Enquanto isso, na calçada, um senhor com uma sacola cheia de latinhas revirava uma lata de lixo. Eu imagino com o que ele se preocupa.

Esta é a sua vida

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Fonte: wikipedia

Você abre os olhos antes do despertador tocar, o sonho se escoando pelo travesseiro. Levanta-se mecanicamente, repassando a agenda do dia por detrás dos olhos. Lava o rosto, veste a roupa de ginástica. Os primeiros quinze minutos na bicicleta ergométrica são os piores.

Você se pergunta por que está ali. Qual o propósito disso tudo? Os vermes vão comer a minha carne podre, esteja na forma em que estiver. Sempre há a possibilidade da cremação. Você acha inclusive esta opção mais prática. Ninguém precisa levar flores no Dia de Finados.

O jornal mostra as notícias do dia. O verão acabou, mas a sensação térmica hoje será de quarenta graus. Em Madureira, um menino de quatro anos foi atingido por uma bala perdida. No Paquistão, mais de setenta pessoas morreram em um atentado terrorista. Mais de trinta parlamentares do comitê que votará o impeachment da presidente são investigados pelo Superior Tribunal Federal por envolvimento em corrupção, lavagem de dinheiro, contas ilegais na Suíça. No Japão, uma mulher foi assassinada pelo marido com golpes de martelo.

Agora acompanhe os gols da rodada de ontem.

Você se arruma para o trabalho. Caminha até a estação de trem mecanicamente, um pé depois do outro, um suspiro, o sol no rosto, a bolsa pesada, a preocupação com o futuro.

Mas para que me preocupar? Os vermes vão comer todas as minhas preocupações, estejam resolvidas ou não. Ou o incinerador irá queimá-las e nada irá sobrar.

O jornal mostra as notícias do dia. O menino de quatro anos morreu. As pessoas em Madureira queimam um ônibus em protesto contra a violência. Invadiram a conta do Youtube de uma menina de doze anos, que tem câncer. Deletaram todos os vídeos. No Rio Grande do Sul, uma academia usa a foto do menino Aylan, que morreu afogado  ao tentar fugir da guerra na Síria. O intuito da propaganda seria estimular os pais a matricularem seus filhos nas aulas de natação.

Agora acompanhe este belo desfile de moda Outono-Inverno.

Você faz o que estava programado – faz até mais do que deveria fazer, mas para quê? A momentânea alegria se evapora. O que é isso comparado ao grande plano do universo? Eu sou apenas um amontoado de carbono.

Você almoça sem fome. Escova os dentes sem vontade. Lava as mãos pensando nos micróbios que sobrevivem ao redor.

No espelho, uma estranha muito familiar lhe sorri.

Esta é a sua vida e está acabando um minuto de cada vez.

Você volta para casa mecanicamente. Você come sem fome. Você toma banho mas não se sente limpa. Você tem empatia mas não se importa.

Você imagina como será o primeiro verme a lhe comer a carne, ou a primeira chama a lhe queimar a ponta dos pés.

Casmurra

Há noites em que o manto da Insegurança me cobre as espáduas
E não mais vejo teu rosto sob a luz do sol
Teus castanhos olhos me parecem enviesados – oblíquos, desgarrados
Aperta-me o peito a bigorna da incerteza

Mas és tão feliz! Sabes que isto é fruto de tua fértil imaginação – diz-me a Razão,
Os diminutos óculos a brincar na ponta do nariz.

Mas com quem fala, com quem anda, o que pensa quando não contigo?
Se tantas já sofreram ao teu redor – e tu mesma, bem o sabes,
Como saberás que o que te diz é verdade? – sussurra-me a Dúvida,
Esta mesquinha companhia.

A mente se esvai em mil vielas e não mais posso aquietar-me
E casmurra, ensimesmada e lívida
Exorcizo este demônio em uma poesia.

Diálogos sobre originalidade

_ Eu queria só terminar de escrever aquela história, sabe.

_ E por que não termina?

_ Ah, não é tão simples assim.

_ O que não é tão simples? Você pensa numa história, imagina os personagens, o roteiro, os cenários; você senta na cadeira, liga o computador e começa a digitar. Põe uma palavra depois da outra. Não é isso?

_ Você fala como se fosse fácil. Já escreveu alguma coisa, por acaso?

_ … Mas quem quer escrever é você, não sou eu.

_ Tá bom, vamos seguir o seu método. Aí eu penso na história, personagens, tudo o mais. E se a ideia não for assim tão original? E se a minha historinha for só mais uma no oceano?

_ Você pode pesquisar antes, sei lá.

_ Beleza. Eu pesquiso e vamos supor – supor! – que eu dou a grande sorte de ter uma ideia original. Melhor dizer que eu consiga dar corpo a alguma ideia de forma original…

_ Sim, porque não há mais uma ideia original no mundo.

_ Também acho… Bem, então eu começo a escrever, uma palavra depois da outra – não foi isso que você disse? Mas e se eu não usar as palavras da melhor forma, daquela forma que vai cativar o leitor? Ele pode começar a ler, achar tudo uma grande porcaria e fechar o livro.

_ E você não suportaria a rejeição, obviamente.

_ Obviamente.

(…)

_ Deixa isso pra lá. Eu não vou conseguir escrever nada agora.

_ Por que?

_ Porque o horário de almoço está acabando.

_ Já sei! Sabe o que seria original?

_ O que?

_ Você ignorar a rotina, sair do escritório e fazer algo diferente. Pode ir até a praia, tomar uma água de coco e escrever um romance de ficção-científica-steampunk-gótico-moderno, com uma religiosidade intrínseca e pessoas com cabeças de inseto.

_ Isso seria original…

_ … Mas não poderia garantir seu salário no fim do mês.

Ashtray Heart

(Cenicero, cenicero)
(Mi corazón de cenicero)
(Cenicero, cenicero)
(Mi corazón de cenicero)

You are the birth and you are waste
You are the one who took my place
You took a jump into forever
A leap of faith I could not take

And it was
A leap of faith I could not take
A promise that I could not make

(Cenicero, cenicero)
My ashtray heart
(Mi corazón de cenicero)

You were alone before we met
No more forlorn than one could get
How could we know we had found treasure
How sinister and how correct

And it was
A leap of faith I could not take
A promise that I could not make

(Cenicero, cenicero)
My ashtray heart
(Mi corazón de cenicero)
I tore the muscle from your chest
And used it to stub out cigarettes
I listened to your screams of pleasure
And I watch the bed sheets turn
Blood red

(Cenicero, cenicero)
My ashtray heart
(Mi corazón de cenicero)

– – –

Entre outras coisas, reassistindo a Serial Experiments Lain no maravilhoso Anitube. Recomendo.

– – –

Eu me curo me ferindo.