Clarisse, a Terrível

_ É como se eu sentisse o cheiro da tempestade vindo, sabe?

_ Sei.

_ Não, cara. Eu tô falando sério.

Clarisse me encarou com aqueles olhos embotados. Soltou a fumaça do cigarro pelas narinas – um dragão de impaciência e cinismo -, foi até a geladeira e abriu outra cerveja. As próximas palavras foram o golpe de misericórdia.

_ Não é porque não deu certo contigo que não vai dar certo com os outros.

(…)

_ É – conclui, indo eu mesma pegar uma cerveja. – É. Você tem razão.

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Weekend warrior

Em alguns momentos, a gente olha pela janela e tenta colocar todos os acontecimentos de nossa vida em perspectiva. É como se cada fato importante passasse diante de nossos olhos e a gente fosse percebendo os motivos, as falhas, os acertos, as oportunidades aproveitadas – ou desperdiçadas.

Isso costuma acontecer comigo todo dia de manhã, no trajeto para o trabalho. Observo as pessoas a minha volta e fico imaginando quais seriam suas lutas pessoais. Todo mundo é o protagonista de sua própria história e cada um de nós possui uma luta pessoal; isso é tão clichê que sinto até vergonha de dizer. Daí eu volto o olhar para dentro e tento ver quais são as minhas próprias batalhas.

Perceba que, para uma pessoa que se mostra expansiva, sociável e inteligente para o mundo, admitir a derrota é difícil. Mas eu percebo agora que as lições mais valiosas que aprendi foram justamente quando perdi alguma batalha.

Bem, eu estou aqui juntando as armas novamente e tentando me levantar. Vejamos o que virá pela frente.

And the game begins
The adrenalin’s high
Feel the tension maybe someone
Will die

As portas

Há momentos na vida em que nos deparamos com portas fechadas. A maioria das pessoas bate à porta, tenta abri-la de todo jeito – às vezes encolhe-se atrás dessa porta fechada e reclama baixinho (olá, Chico Buarque). Tem aqueles que procuram uma janela, uma fresta na parede, uma outra porta, qualquer coisa para continuar aquele caminho.

Tem gente que se fecha em sua concha, tentando entender onde foi que errou para que aquela porta tenha se fechado.

Na mitologia romana há um Deus chamado Janus. Ele é o deus das portas ou portais, dos começos e fins. Ele é representado com duas faces opostas – muitas vezes, uma face é feminina e a outra masculina. Em uma das mãos, Janus segura uma chave. Janus costumava ser adorado no início da época da colheita e do plantio; também era cultuado em casamentos, nascimentos e outros rituais de iniciação em eventos importantes na vida das pessoas.

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De acordo com algumas lendas, Janus abrigou o deus Saturno (Cronos) quando este estava fugindo de Júpiter (Zeus). Assim, foi agraciado com o dom de enxergar o passado e o futuro. Diz-se que as portas do templo de Janus mantinham-se abertas em tempos de guerra, para que o deus pudesse a intervir quando necessário. Em tempos de paz, os portões eram mantidos fechados. De seu nome originou-se o mês de janeiro.

Desde que iniciei meus estudos na Wicca, tento sempre ver até que ponto se extende o meu poder interno. Há uma certa medida, uma certa distância até onde conseguimos ir por meios próprios. E há também uma distância que não conseguimos percorrer sem ajuda; ou ainda caminhos que não estão prontos para nós naquele momento, por mais que tenhamos a convicção de que devemos segui-lo.

As portas enxergam o passado e o futuro. Quando uma porta encontra-se fechada, temos a chance de refletir, perceber onde estamos e qual o nosso poder interno naquele momento. De repente há uma outra porta aberta bem perto… Basta olhar em volta.

Vizinhos

O único tipo de vida em sociedade que conheço é aquele que se passa dentro de condomínios.

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Prédio vizinho

Não tive a experiência de morar em uma casa independente, ter quintal, brincar com os amiguinhos na porta da rua. A gente brincava no parquinho dentro do condomínio, ou pedia pro porteiro interfonar pro 402, 707, 105 e ia juntando a criançada. Já ralei muito o dedão no estacionamento do prédio brincando de queimado. Também já fui preterida nas brincadeiras porque “você é filha de pais separados e eu não posso brincar com você”. Taí uma coisa dos anos 80 da qual não sinto saudades.

Agora que vivo no interior, percebo o quão fechado é o ambiente de um condomínio.É muito raro encontrar com alguém no elevador ou no corredor do prédio. Sei que convivemos por causa das vozes que vêm dos apartamentos vizinhos.

No andar de baixo tem um cara que adora cantar. Geralmente são músicas gospel, mas vez ou outra ele solta alguma do Seu Jorge, ou até algumas de charme em inglês, ou Mariah Carey. Eu estava até pensando em tocar a campainha e oferecer umas aulinhas pra melhorar a pronúncia, mas acho que ia parecer pedante, já que nunca fomos apresentados. Além do mais, não sei em qual apartamento ele mora.

Também tem a mãe da L. A L. é uma menina de uns cinco anos que vira e mexe faz alguma coisa que não deve e leva bronca da mãe. No início, quando eu a ouvia gritar com a filha e menina chorava, pensava mal da mãe da L. e dizia a mim mesma: eu nunca vou gritar com os meus futuros filhos. Só que percebi que eu não estou na pele da mãe da L. para saber o quão difícil foi o seu dia, ou que ela deve estar fazendo o seu melhor e mesmo assim não parece suficiente. Parei de julgar a mãe da L. e comecei a desejar que ela conseguisse respirar fundo, se olhar no espelho e dizer a si própria que ela se basta, que ela está indo bem. A mãe da L. me parece precisar de uma semana em um spa, longe de tudo, sendo paparicada. Sair pra dançar e tomar uns drinques cairia bem. Ser mãe e dona de casa 24 horas por dia deve ser realmente desgastante.

A minha vizinha mais misteriosa é uma senhora de idade que nunca vi. Vamos chamá-la de Dona E. Ela praticamente já estava aqui quando a primeira parede foi erigida. Não raro, tocam o meu interfone achando que é o apartamento da Dona E. Pelo pouco que sei, ela não pode sair de casa desacompanhada – acredito que pela idade avançada ou algum motivo de saúde – e sempre tem uma enfermeira ou acompanhante.

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Corredor do meu prédio

Na véspera de Ano Novo aconteceu de tocarem o meu interfone procurando pela Dona E. Na verdade, não foi bem assim: estavam tocando vários interfones, pedindo a alguma alma caridosa que pudesse descer para abrir o portão. Eram parentes da Dona E., e me explicaram que ela estava sozinha em casa e não conseguia se levantar para atender o interfone, e muito menos descer e abrir o portão. Dei um jeito no cabelo, calcei os chinelos e desci para fazer minha última boa ação do ano.
Fui recepcionada por um casal por volta dos seus cinquenta anos, cada um carregando alguma coisa para a ceia de Ano Novo.

_ Minha filha, muito obrigada mesmo! A Dona E. está sozinha, veja você. E é uma senhorinha de muita idade, é difícil para ela fazer qualquer coisa sem ajuda… E nós viemos pra fazer companhia.

Fico imaginando se eu deveria fazer um bolo e ir lá visitar a Dona E. Mas daí eu lembro que sou tímida e me fecho no meu casulo, protegida dos vizinhos pelas paredes e unida a eles pelas janelas.

Diálogos com Clarisse

Terminada a primeira das vinte (novas) sessões de fisioterapia, ponho a tala  no braço doente. Volto direto para a caverna ou vou passear um pouco pelas redondezas?

_ Vamos andar – diz Clarisse. – Não aguento mais ficar enfurnada naquela casa, olhando pras paredes e pro gato.

_ Mas com essa cara? Com essa roupa?

_ Quem se importa? Não são eles que pagam as suas contas.

_ … E pelo andar da carruagem, daqui a pouco nem eu mesma vou pagar – digo, baixinho.

Entro nas lojinhas de quinquilharias, passando os olhos por coisas que não quero lembrar. Vou até a loja de eletrodomésticos, pesquisar preços de batedeiras.

_ Onde você está com a cabeça, sua doida? – ela me repreende. – Tem que economizar. Isso daí agora é luxo.

_ É, eu sei… Só estou olhando.

_ Você é mesmo muito masoquista.

_ E você nunca tem uma palavra gentil para mim, né.

_ Nah, também não é assim.

Escondida, conto os dias até a partida de Clarisse. Sei que ela virá novamente mês que vem, com suas cobranças, temperamento instável e humor efêmero. É um mal necessário, tento me dizer.

Mas é um mal.

Síndrome de pós-férias

Uma semana antes de acabar as tão sonhadas férias – vinte dias para cuidar de sua saúde; vinte dias para rever família e tentar rever alguns amigos; vinte dias para viver – instaurou-se a crise.

Será que conseguiria voltar à corrida dos ratos? Será que seria capaz de sorrir para quem na verdade preferia dar um chute nos olhos, como cantava o poeta? Será que se lembraria da senha do computador?

Ela não sabe. Mal sabe o que fará hoje. Ainda restam sete dias, ela pensa. Eu posso mudar a minha vida em sete dias?

Precisava ir ao banco, consultar alguns médicos, comprar coisas para a casa; ligar para o veterinário, lavar o banheiro, passar roupa… E o trabalho? O que fazer? Como voltar?

Eu quero voltar?

Eu preciso.

Mas será que preciso voltar para o mesmo lugar?

Criminosa

Eu só vou deixar isso aqui…

I’ve been a bad, bad girl
I’ve been careless with a delicate man
And it’s a sad, sad world
When a girl will break a boy just because she can

Don’t you tell me to deny it
I’ve done wrong and I want to suffer for my sins
I’ve come to you ‘cause I need guidance to be true
And I just don’t know where I can begin, ooh

What I need is a good defense
‘Cause I’m feeling like a criminal
And I need to be redeemed
To the one I’ve sinned against
Because he’s all I ever knew of love

Heaven help me for the way I am
Save me from these evil deeds before I get them done
I know tomorrow brings the consequence at hand
But I keep living this day like the next will never come

Oh help me, but don’t tell me to deny it
I’ve got to cleanse myself of all these lies
‘Til I’m good enough for him
I got a lot to lose and I’m betting high, so I’m begging you
Before it ends, just tell me where to begin

What I need is a good defense
‘Cause I’m feeling like a criminal
And I need to be redeemed
To the one I’ve sinned against
Because he’s all I ever knew of love

Let me know the way
Before there’s hell to pay
Give me room to lay the law and let me go
I’ve got to make a play
To make my lover stay
So, what would an angel say?
The devil wants to know

What I need is a good defense
‘Cause I’m feeling like a criminal
And I need to be redeemed
To the one I’ve sinned against
Because he’s all I ever knew of love

Ê laiá

Uma unha encravada e inflamada. Stress. Conta bancária mais baixa do que eu esperava. A tv que pifou por praticamente um mês inteiro. O cansaço e desânimo em sequer pensar em arrumar a casa. A frustração por não conseguir comprar um vestidinho pro aniversário vindouro. Não conseguir escrever. Nada.

Sinto que Clarisse está vindo acompanhada dos Cavaleiros do Apocalipse – versão inferno astral.